quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Guardian Alien – See the World Given to a One Love Entity (Thrill Jockey, 2012, EUA)


























O Guardian Alien é uma banda que me chamou a atenção quando escutei pela primeira vez. Sou particularmente muito amarradão em sons meditativos, repetitivos, mântricos, xamânicos, com uma tendência ao infinito. Essa peça do Guardian Alien dura 37 minutos, mas poderia muito bem durar horas, dias, quem sabe meses. Deveria durar mais.

Hunter Hunt-Hendrix, guitarrista da banda de Black Metal Transcendental (segundo ele próprio) Liturgy, nos fala do burst beat, essa nova técnica expressiva. Visa a tal transcendência. Tenta alcançá-la através do sacrifício, da mutilação, auto-destruição e auto-superação. O burst beat, essa tempestade rítmica, esse fluxo que ora se expande ora se contrai, acelera, se estraçalha em pedaços, é elemento basilar em See the World Given to a One Love Entity.  O baterista do Liturgy, Greg Fox, está também por trás do Guardian Alien. Embora no Liturgy ele leve o burst beat a outros patamares destrutivos, aqui a coisa se expande mais, respira mais, os destroços se espalham por uma área mais vasta. Até porque a guitarra de Hunt-Hendrix ficou lá no Liturgy e aqui no Guardian Alien a banda que acompanha Greg não se entrega totalmente ao sacrifício. Greg é um baterista fenomenal. Ele e a sua bateria que irrompe em milhares de estilhaços são o grande destaque do disco. Guardian Alien é Greg Fox. 

O álbum contém apenas uma jam, gravada no Shea Stadium, um lugar que tem uma proposta bem interessante, de registrar performances ao vivo de bandas. O Guardian Alien tocou algumas vezes por lá. A performance mal começa e de cara já me cativou porque me lembrei de Flower-Corsano Duo. Chris Corsano é outro baterista que respeito muito e que é capaz de transformar seu kit em algo totalmente novo. Muito intenso, se sacrifica demais e vai sempre avançando, podendo tocar por horas, mantendo sempre um diálogo muito próprio com os outros instrumentos. Fox tem isso também. No Guardian Alien, Turner Williams Jr. toca o mesmo instrumento que Michael Flower toca no Flower-Corsano Duo, o shahai baaja. O clima dessa jam do Guardian Alien me remete um pouco aos trabalhos do Vibracathedral Orchestra. Olha aí mais uma relação. Michael Flower toca no Vibracathedral Orchestra. Só posso esperar então agora uma parceria entre todos esses músicos. Tenho certeza que acontecerá.

Os críticos e os rabugentos podem dizer que ali há muito clichê psicodélico. Alienígenas rastafari, a natureza majestosa com seus pios, ventanias e folhas secas, entidades amorosas, o Eu e o Universo e o I-Ching. Pode até ser, mas não invalida a experiência, que pelo menos é sincera. Eu acho essa jam incrivelmente boa e posso escutá-la muitas vezes, sempre com imenso prazer, num passeio sem rumo pelo parque aqui perto ou pelas margens do rio que corta a cidade. Alcançar a transcendência? Ainda não, falta muito tempo de meditação, mas o Guardian Alien segue o bom caminho. Me surpreende, me faz parar a caminhada, arregalar os olhos e abrir um sorriso. Eis uma característica importante para mim num disco.

A névoa drone, o timbre indie oriental do shahai baaja e os burst beats elásticos de Fox formam o caldo primordial da primeira parte da jam/ritual. Aos dezenove minutos, chegamos ao auge do ritual. Escutamos o balido de uma cabra. Não há como não imaginar um sacrifício iminente. Um misto de medo e paz de espírito se instalam. Afinal, o balido da cabra tem essa qualidade dual. Os ventos trazem o drone e o canto dos pássaros. Esse momento, que eu imaginei aqui ser a chegada da Entidade Fantástica, é bonito. Logo, os burst beats voltam a berrar.

Nos ouvidos, a paisagem que enxergamos é a vastidão das pradarias. O monumental Mississippi. Como diz o Hunt-Hendrix: é uma coisa essencialmente americana. “The America that represents the apocalyptic humanism of William Blake”. Me lembro também daquela tribo de descalços que vive nas matas, mas que de vez em quando dá um pulinho no Wal-Mart. Guardian Alien poderia muito bem fazer parte dessa tribo. Não há problema algum nisso...

Perambular pelos clichês psicodélicos pode ser muito divertido e prazeroso. O importante é a participação ativa do ouvinte. Minha audição desse álbum é assim: crio também, junto com a banda, o meu universo particular, repleto de mitos, ritos, seitas e entidades. Se o intuito do Guardian Alien é representar um ritual, uma festa xamânica, eu aceito de muito bom grado participar. Penso também em como os músicos estavam se divertindo e me divirto também.

See the World Given to a One Love Entity é um disco a ser apreciado sem muita cerimônia. Carregue-o no seu iPod e vá fazer uma trilha ou simplesmente apague a luz da sala e deixe rolar. O importante, no entanto, é escutar tudo de uma só vez, sem interrupções.

Rodrigo Miravalles

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