quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Observações sobre os sons de Gaza


















- nesse momento, o áudio de uma câmera que se mantêm fixa no escuro de Gaza me aterroriza. galos, helicópteros, aviões se misturam com preces emitidas por alto-falantes, repentinas chuvas de bomba e raros carros que passam na rua (desses, só vemos as lanternas esperando amanhecer). esses sons se misturam - captados provavelmente por um só microfone de qualidade relativamente baixa –  formando drones com mais força do que quase toda produção contemporânea. poderia se argumentar que o fator político-real alimenta a construção mental dessa fonte sonora concreta. isso é inegável. no entanto, creio que se pudéssemos desvincular essa banda sonora do acontecimento, o que ouço permaneceria arrasador (ps: reforço que esse movimento de desvinculação é absurdo). por vezes, a combinação das hélices e motores quase parece sutil - algo que poderíamos colocar ao lado, por exemplo, de um grupo como stars of the lid, mas com combinações “harmônicas’ infinitamente mais interessantes. em pouco tempo, chega um som para nos lembrar do inferno. imprevisível como a vida, ainda assim com seus padrões.

em uma hora chega o sol – será que o som se tornará ainda mais brutal com o dia?

- em um primeiro momento, o ruído entrou na História da música como desordem (“estamos aqui apresentando novas possibilidades”) . era a chance de parar para ouvir de novo o mundo, reavaliar o significado do silêncio, da harmonia e, enfim, da própria vida. isso já tem mais de 50 anos. não seria a hora de deixar de pensar tanto em desconstrução e construir novos métodos possivelmente mais abrangentes?

- a música mudou, mas muitas vezes me parece que ainda não desejamos mudar a forma (não só conceitual, mas física) como ouvimos. trocamos plataformas, instrumentos, estilos – como pede o fluxo do mercado - mas não queremos de fato ouvir.
vendo Evelyn Glennie falar em “touch the sound” (um filme que havia visto apenas uma vez na TV quando tinha por volta de 14 anos, deixando em mim marcas irremediáveis),  fico novamente atento a outras possibilidades de ouvir. Evelyn é uma das maiores percussionistas atuais. Evelyn é surda.

ao longo do filme, ela reforça continuamente: não ouvimos apenas com o ouvido, mas com cada pequena parte do corpo, junções do dedo, caixa torácica, pés. e quando ela diz escutar, não utiliza a palavra no sentido de sentir vibrações ou resquícios sonoros (esses fatores sendo de essencial importância para a recepção do som).
Evelyn escuta o som inteiro – o que a permite dominar  das formas mais tradicionais de produzir música até o improviso livre. de qualquer forma, me pego tentando ser mais atento aos sons, com mais ou menos êxito dependendo da situação, durante a semana.

- amanhece em Gaza -vejo uma paisagem bem diferente da esperada. alguns traços de violência, mas a cidade ainda se parece, vista desse ângulo, com uma cidade padrão. prédios brancos e altos em forma de caixa ainda de pé por todos os cantos.

- o relançamento dos ”disintegration loops” de William Basinski chega em momento propício – essa que é uma das obras mais geniais dos últimos tempos na minha opinião. de alguma forma, é a outra face da moeda. loops controlados vindo de um artista novaiorquino, que os realiza in memoriam ao onze de setembro. loops que, de alguma maneira, guardam um mistério e uma beleza brutal que se relacionam diretamente com a banda sonora que propulsionou esse texto.  dois sons bem distintos, afinal, o luto não tem a mesma força que a violência em estado atual.

Palestina livre.

Sávio de Queiroz

Links de referências:
http://www.ustream.tv/occupiedair - Espero que essa já não seja uma referência útil no momento de publicação

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