quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Rabiscos sobre Jazz



























Otomo Yoshihide's New Jazz Quintet - Tails Out (2003, DIW Records, Japão)

- “tails out”; reativar a musica, seja pelo tema novo, seja pela re-criação daqueles mais gravados – gravados ao ponto de parecerem exauridos. desenterrando esse belíssimo disco de Otomo Yoshihide, fica comigo a certeza de que o jazz não morreu e não morrerá tão cedo. se alguém ainda consegue fazer de “strawberry fields forever” uma musica interessante nesse contexto jazzístico e disparar uma versão da maravilhosa “orange was the color of her dress” (que mostra não ser supérflua já em uma primeira audição – sustentando tal força com o passar de anos e incontáveis audições), esse alguém é Otomo.  o que mais me espanta particularmente nesse arranjo de “orange...” é como ele mantêm uma inegável proximidade com as versões do grande mestre MINGUS sem se submeter a privação de injetar no tema pequenos detalhes que reconfiguram toda a atmosfera – ondas senóides que desequilibram a bela melodia e uma timbragem totalmente atípica. a releitura e o tema original “solvent waltz” – uma espécie de variação mais angustiada e urbana – travam um diálogo altamente interessante. através deste, aparece mais claramente a modernidade de MINGUS, ao mesmo tempo que se consolida uma diferenciação nas sensibilidades desses diferentes momentos históricos. é como se a nuvem que pairava sobre “orange” tivesse se retirado há muito tempo, mas ainda assim, não se enxerga bem.

o ponto alto do disco é a música que dá nome ao album.  o titulo vem do método homônimo de se arquivar fitas de gravação, método que ajuda a proteger a fita de ruídos causados pelo contato das diversas camadas da fita. assim se esclarece algo muito importante: sim, há ruído, queremos ruído. não qualquer ruído – como não se quer qualquer nota (e isso nada tem a ver com consonância ou dissonância).

minimalismo nada trivial – não temos uma progressão de acordes grande, mas sim explorações melódicas e timbrísticas. também não é utilizado o método de repetição de partículas que mudam lentamente - ufa!. tudo voa, mas o centro está lá. há tintas de rock alternativo, glitch, free jazz. e sem esquizofrenia.  uma peróla.




























Steve Lacy - The Sun (2012, originalmente gravado em 1967, Emanem, Reino Unido)

- “ I just invent, then wait until man comes around to needing what I’ve invented”

um dos mais belos relançamentos (ou lançamento, já que o disco, apesar de antigo, é inédito) do ano me leva no caminho contrário. após o play, volto integralmente a 1967. falo de “the sun”, de Steve Lacy. o otimismo radical de Buckminster Fuller, o jazz em dialogo direto e intenso com a musica de concerto moderna, a radicalidade de quem ainda acredita em uma nova era (no entanto se assombra com o perigo atômico). disco difícil de se descrever, mas o que se pode dizer é que essa viagem de Lacy é realmente cativante. uma viagem que de longe parece puro tédio, mas passa longe disso.

não há espaço para academicismos ou para formas “fáceis”. a  linguagem do jazz de Lacy é realmente única. o jazz é livre e não se limita aos espasmos. dos ritmos de guerra às estranhas baladas, um disco a ser descoberto. um disco de caminhos para lembrar e refletir sobre liberdade.

- o que há hoje de tão fresco no jazz? não saberia responder prestamente. a maioria dos artistas se refugiou na reprodução de canções populares (principalmente do rock dos anos 70 e 90) ou no jazz de elite, aquele que deve ser nitidamente sofisticado durante toda sua duração (inclusive um dos membros da banda citada acima, Enrico Rava). não é como isso tudo fosse um desastre - mesmo nesses meandros encontramos boas faixas. mas sinto falta, ouvindo Lacy, dessa força incontrolável e do desejo de ir além do já proposto.

Nenhum comentário: