quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A memória é um estranho sino




















"Memory is a strange bell -  
Jubilee and knell."
 DICKINSON, Emily


O cansaço mata. Principalmente o cansaço que olha para o nada como um Pai, sobre quem nada entende.

Nessas horas, a única coisa que faz um certo sentido para mim são alguns sons. Sons muito específicos, que resistem bravamente toda vez que tento catalogá-los; faixas de audio de antigos filmes noir, sintetizadores mimetizando naves que jamais serão construídas, simples canções de jazz dos anos 50 — de preferência aquelas que soam menos "corretas" — ou um estudo de Harry Partch. 

Sons tão díspares como esses co-habitam um mesmo espaço na minha mente, conversando diretamente com as partes da massa cerebral que se encarregam de deturpar o passado e imaginar a poeira do futuro. Alguns desses trabalham diretamente com os clichês da tradução da memória em som - densas camadas superpostas, gravações lo-fi que buscam conscientemente tornar o som enevoado, samples de antigos comerciais ou referências a escalas antigas (gregas, asiáticas). Ao adentrar esse campo, estamos abordando uma questão que passa, necessariamente, por referências pessoais, sejam essas provenientes de recordações concretas ou imaginação "pura". Mas a maioria de nós entraria sem problemas em acordo ao dizer que certos sons se posicionam com mais facilidade nessa zona nostálgica.

Me interessa, então, discutir — mesmo que insuficientemente — a relação entre a produção atual e a memória, pois me parece que essa se tornou, sem fazer muito alarde, uma das principais questões nesse momento musical. Uma das razões dessa ascensão é evidente: a conexão em rede traz outras concepções temporais ao tempo prático. O relógio continua a caminhar da mesma forma, mas nossos pensamentos não. Essa mudança leva ao resgate e à recontextualização de elementos antes entregues apenas ao passado. Como esse tema já é posto em pauta em excesso, me permito desviar para outros caminhos (1).

No momento em que a produção musical deixa de estar subordinada à locação de um estúdio profissional — o que limita as horas de trabalho e cria uma dinâmica própria de trabalho — outros métodos e situações surgem. Boa parte da música atual é produzida por um indivíduo solitário com o auxílio de um computador (2). Creio que essa situação permite não só que se trabalhe por mais horas no material como torna mais fácil o desvelamento de questões pessoais. O músico se torna mais introspectivo e, inevitavelmente, entrarão em jogo aspectos que teriam que ser renegados na lógica anterior.

Pode se argumentar que o tema era bastante abordado principalmente através da parte lírica no mundo das canções — canções gestadas pacientemente antes do período de gravação. Com o dito esgotamento da forma — esgotamento um tanto falacioso (3) — como passa a se explorar o tema? 


Creio que pela idéia de paisagem de sonora vista por um ângulo mais "acessível". Se esse conceito se referia em outros tempos estritamente à peças "abstratas", compostas de sons “puros’, hoje ele é muito mais abrangente — vemos ele sendo usado em resenhas de artistas instrumentais que utilizam um vocabulário bastante pop como Boards of Canada, Fennesz ou Daniel Lopatin. Todos me parecem utilizar bastante alguns elementos: melodias relativamente fáceis, sons levemente fora da afinação-padrão (como se um estivessemos a ouvir um LP fora de rotação), bastante eco, gravações de elementos naturais. Não estou associando a memória apenas a esses elementos, mas estou aqui realizando uma tentativa de encontrar procedimentos (fora os citados anteriormente) que geram esse efeito na recepção. 

Nesse momento, em que verificamos músicos de maneira geral mais conscientes de seu próprio trabalho parece mesmo inevitável que a memória ganhe lugar de destaque. Espero apenas que essa fascinação com a memória não leve a música a enguiçar por associações diretas demais. Por que não lembrar de lugares ainda não erguidos, não só no sentido visual, mas no sentido musical?

Sávio de Queiroz

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Para ilustrar, deixo um esquecido playlist:
http://grooveshark.com/playlist/Nostalgia+text/70796949

Notas:


(1) Para quem se interessa, uma análise mais detalhada sobre essa percepção aplicada à música se encontra no livro "Retromania" de Simon Reynolds (ISBN-10: 0865479941) – com ressalvas.
(2) Seja ele o instrumento também ou apenas a plataforma de gravação.
(3) Dito isto, ao olharmos as listas de qualquer revista tida como “trendsetter” – Wire, FACT, Pitchfork – vemos uma abundância nunca vista em outro momento na era das gravações de artistas instrumentais.

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