terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Andy Stott – Luxury Problems (2012; Modern Love, Reino Unido)

























Caso eu tivesse feito uma lista de Melhores de 2012 a tempo, esse disco do Stott certamente estaria nela — e entre os primeiros. É bonito pacas, e pensando a respeito dele a gente é levado a umas reflexões sobre arte.

Uma delas é que em arte o cara pode aprender, e aprende: é um mito a ideia do “artista que já nasce pronto”, ou talento é algo que ou vem do berço ou não existe. Esse disco deixa isso patente: até 2011, Stott era mais um em um zilhão de produtores fazendo um negócio bem ordinário. Daí faz dois discos enigmáticos e formidáveis, Passed me by e We stay together: o som é dub, é techno, é sinistro e se escora numa semiótica que elogia a alteridade (dê uma espiada mais longa nas capas desses discos, se demore um pouco pensando no que aquelas fotos informam sobre a música, e no que a música comenta as fotos). Agora, com Luxury Problems, Stott sai do setor do disco bom pra fazer um disco do caralho. Mudou de patamar, ascendeu.

A tentação maior que esse disco coloca pro comentador é constatar isso — o fato de o disco parecer uma evolução diante dos dois anteriores — e dizer “Ah, era isso o que o Stott buscava” etc. É a saída de um crítico que julgo perspicaz e sensível, o Mark Richardson da Pitchfork. Mas acho que isso é meio balela, pois embora facilite o trabalho de quem comenta, não diz nada de interessante sobre o problema que é dado: o fato de um artista tactear o conjunto de formas disponíveis no balaio do zeitgeist e, de vez em quando, levantar uma lebre como esse disco aqui. Mil tateiam, mas poucos saem com a lebre na mão. As razões para isso são, acho, misteriosas e indetermináveis.

As inflexões de dub techno que caracterizam a praia onde Stott sempre se moveu estão aí, mas vem mescladas com uma trama de voz que, tratada como um instrumento a mais, aparece na maioria das faixas. Li que a cantora, Alison Skidmore, tinha sido professora de música do Stott na adolescência, e que a colaboração consistiu no envio de uns a capella, manipulado e enquadrado por Stott nas faixas que temos aqui. Não acredito que essas informações tenham qualquer importância pro resultado: essas vozes podiam ter saído de outro lugar, pouco importa o elemento biográfico. O que interessa é o resultado, o que ele evoca e o que ele produz.

Tem uma coisa, dada pelo uso da voz, que ouvimos também em discos de Julia Holter: preste atenção na primeira faixa, "Numb". Tem também um uso do pulso "orgânico" do baixo que se mistura com um sample de voz alienígina que ouvimos também em Burial: isso tá patente na "Sleepless". E muita coisa, obviamente, lembra Basic Channel. Mas, ao mesmo tempo que a gente observa tudo isso, sabemos que não resume a coisa, e que esse negócio aqui tem a assinatura desse artista: é o tempero dele que faz com que esse uso da voz, tão saliente, não seja cópia, emulação ou diluição do que já ouvimos alhures, antes.

Aqui a coisa funciona de um jeito que ele manobrou: a faixa título parece transformar todo erro em lucro; a faixa final parece lhe devolver à primeira: o disco se dobra sobre si mesmo, e você terminou de ouvir e ouve de novo, querendo colocar o dedo no alvo, capturar o centro da coisa. Mas o centro é móvel, fluido, fugidio. Olhe a capa do disco mais uma vez: veja que é um salto mortal, observe o cenho franzido, lembre que fazer um negócio desses é difícil, demanda rapidez, precisão, força. Mesmo com tudo isso, voilá: aqui, funciona.

Antônio Marcos Pereira

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