segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Animal Collective – Centipede Hz (2012; Domino, EUA)


























Mundos e fundos se encontram e se perdem entre o horizonte de expectativas e as experiências efetivas, o que não impede, por exemplo, a formação de alguns consensos inexplicáveis. Poucos foram os veículos relevantes que destacaram Centipede Hz como um dos trabalhos mais paradigmáticos do ano passado — o Matéria exclusive, vale notar. O que de tão grandioso se esperava do sucessor de Merriweather Post Pavilion, sem dúvida um dos melhores (se não o melhor) trabalhos do coletivo? Teria esta ansiedade fomentado uma expectativa negativa em relação a Centipede Hz, relegando-o automaticamente ao recanto da entresafra criativa, em todo caso “natural”, pois decorrente do grande esforço empregado no disco anterior? Vãs filosofias e pensamentos imperfeitos não redimem o olhar crítico descuidado, mas permitem voltar atrás sem mais delongas.

Eis que algumas audições mais cuidadosas revelaram um conteúdo valioso, e todo esse pré-conceito foi aos poucos se dissipando, conforme se apresentava uma concepção relativamente diversa do trabalho anterior. Pois se há uma qualidade em Centipede Hz, esta remete à reafirmação da harmonia contraditória manifestada em Strawberry Jam e Merriweather Post Pavilion, álbuns construídos sobre pólos aparentemente opostos: noise/canção, estrutura rebuscada/repetição, limpidez/emaranhado digital. Ressalte-se em Centipede Hz o diálogo com o rock, particularmente com as estruturas rítmicas e melódicas do metal demonstradas nas dinâmicas no refrão rasgado de “Applesauce” e no final de “Today’s Supernatural”, com o vocal desempenhando uma escala descendente à la Iron Maiden. Ainda referente à habilidade de incluir referências alienígenas, vale destacar o riff orientalizado em “Amanita” ou o rufar latino das percussões de “Today’s Supernatural”, que conferem uma sonoridade ímpar às colagens de timbres que dão forma às composições.

No entanto, como ainda prezo a habilidade de escrever uma canção, é por este aspecto que para mim o Animal Collective se mostra realmente grande. Porque é de se admirar a precisão conceitual, a coerência sonora e a força que eles obtiveram a partir de uma miríade de influências eminentemente sonoras, que variaram do industrial inglês, do techno de Detroit, até as referências “étnicas” (com ironia, pf) como o baião brasileiro e a música malinesa. E é ainda mais curioso o fato de que, de certa forma, toda essa construção complexa, fruto da experimentação e do consumo exacerbado de informação, venha se articulando em torno da canção. Não se trata de qualquer canção, naturalmente. Me refiro à canção que supera o dilema que reside no centro de toda a canção: buscar a novidade na redundância, o precioso em meio ao vulgar; o incomum do comum. Prezo aqui, portanto, a canção capaz de arrebatar durante a audição atenta, mas que irrompa nos meio do dia sob a forma desatenta do assovio ou de uma batucada na mesa.

Neste sentido, Centipede Hz é repleto de grandes canções, tão inspiradas e bem acabadas como as de Merriweather..., compostas e arranjadas com inteligência delirante. Avey Tare e Panda Bear, como grandes compositores da atualidade, se mostram ciosos em extrair novidade de um conjunto de clichês da canção dos anos 60, utilizando-se principalmente da linguagem juvenil, aparentemente ingênua, cara à psicodelia da costa oeste norte-americana, notadamente ligada aos maneirismos dos Beach Boys — afinal, algumas canções remetem ao conteúdo lúdico-solipsista da experiência de se comer uma fruta, de se emitir gritos biônicos e se locomover em carros velozes, mas comporta igualmente a sutileza presente no jogo de palavras em “Monkey Riches”: “It makes a monkey wretch/It makes a monkey rich…”  Destaco também as percussões nervosas, melodia R&B e o refrão explosivo de “Monkey Riches”; a melancolia solar de “Rosie Oh”, a alternância de notas graves e agudas de “Applesauce”, que culminam no refrão roqueiro; a pegada meio reggae, tingida por acordes expressivos de sintetizador em "New Town Burnout"; ou, ainda, o rock'n'roll eletro-psicodélico, com toques de convenção prog de "Moonjock" e "Wide Eyed". 

Tanto o título quanto a capa do disco indicam que trata-se de mais uma empreitada do Animal Collective no sentido de intermediar o legado psicodélico com uma série de outras informações, técnicas e estéticas, absolutamente livre das amarras de quaisquer limitações ou preconceitos relativos a misturas e combinações. Os ruídos, os instrumentos reprocessados, as percussões eletrônicas, as estruturas híbridas, as canções e tudo mais que ajudou a promover o nome do grupo está presente nesta centopeia de mil pernas (e antenas), mas não da mesma forma que nos trabalhos anteriores. Duvida? Basta assumir que o Animal Collective é uma banda a que não se deve negar a qualidade do enigma.

Bernardo Oliveira


Animal Collective - Monkey Riches from brownshoesonly on Vimeo.

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