sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Burial – Truant (2012; Hyperdub, Reino Unido)



Como consta na lista de fim de ano que elaborei para o Matéria, um dos momentos musicais mais eletrizantes de 2012 foi Kindred, assinado por Will Bevan, tcc Burial. Boa parte desta escolha derivou do fato de que, tanto o EP como a faixa, indicavam alterações dignas da maior atenção no trabalho do produtor inglês. Em “Kindred”, bem como nas faixas que completam o EP (“Loner” e “Ashtray Wasp”), Bevan explorou a convergência do aspecto mais agitado e orientado para as pistas de dança de “Street Halo” (single de 2011, que ainda contava com as dançantes “NYC” e “Stolen Dog”) com a utilização generosa e elaborada de ruídos (glitches, field recordings, justaposições indecifráveis) e silêncios (geralmente pontuando partes diversas). As faixas do EP são marcadas por este duplo aspecto, que incidiram mais sobre “Ashtray Wasp” que sobre as duas outras.

Contudo, a característica que salta aos olhos em relação a esta produção mais recente é a duração das faixas. Talvez para desenvolver seus argumentos de forma mais livre, permitindo a organização da composição por módulos; talvez por uma eloquência necessária e urgente… Bem, o fato é que dilatando o tempo da composição, Burial vem tirando efeitos raros de contraste e justaposição, a meio caminho de uma estética que combina lo-fi, dub, gravações de campo em pequenos amálgamas sonoros, com o desenvolvimento cada vez mais intrincado das batidas, vozes e camas de sintetizadores. Neste sentido, por mais que prefira Kindred, é inegável que o 12” Truant levou adiante esta inflexão modular e abstrata de seu trabalho. Tentarei abaixo descrever as diversas partes de “Truant”, no sentido de analisar a estrutura da faixa e trazer à tona as qualidades que mantém Bevan entre os grandes beatmakers/produtores da atualidade.

“Truant” se inicia com sintetizadores macabros, que cessam deixando resquícios: eco. Silêncio. Inicia-se a batida lenta, funky, e os sintetizadores melancólicos são recortados pelo baixo grave e por ruídos de estática semelhantes a uma máquina em funcionamento. Um rasgo sonoro interrompe a batida, mais objetos sonoros indiscerníveis, aquela voz feminina característica… Silêncio. A batida volta, desta vez enxuta; aos poucos os ruídos da primeira parte retornam, contrastando com a voz suplicante: “I fell in love with you…” Silêncio. O módulo recomeça, os ruídos insistem sobre a base, atribuindo-lhe um aspecto rascante até a interrupção radical, como se alguém desligasse o tape. A batida recomeça, o grave toma ainda mais espaço recortando uma linha melódica sombria, a voz é disposta como um instrumento entre outros, repetindo trechos da letra com voz diáfana, quase imperceptível. Nova interrupção, o módulo recomeça, a batida desta vez mais nervosa, assim como a nuvem de sintetizadores, soando como trombetas apocalípticas. A faixa começa a se tornar ainda mais abstrata, a batida dissolve-se em miuçalhada de ruídos e depois retorna, desta vez um ragga venenoso, emerge uma outra linha de baixo, mais ruídos, fim.



Sobre as volutas delirantes da escrita de Lautréamont, o crítico simbolista Rémy de Gourmont testemunhava uma sensação curiosa: “Sente-se, à medida que se prossegue na leitura do volume, que a consciência vai indo embora, vai indo embora…” Quando a consciência se esvai nos últimos minutos de "Rough Sleeper" (igualmente modular e fragmentária), dissolvida em uma torrente caudalosa de ruídos,  temos a certeza de que, antes, trata-se da habilidade do autor de exercer um controle radical. Perder-se não é para qualquer um. Assim, vale ressaltar que a eloquência desta nova fase de Bevan parece repor, com a diversidade de formas e possibilidades sonoras, uma pluralidade não-identitária que de alguma forma se perdeu quando ele revelou seu nome e sua figura. Se o anonimato promovia a separação entre música e celebridade, conservando supostamente a integridade da relação entre o artista e o público, Bevan teria então oferecido em troca uma concepção musical delicadamente diversa da que ajudou a construir seu nome.

Em última instância, a inconsciência delirante de Bevan rebate na sua capacidade extrema, confirmada a cada lançamento, de configurar a ilusão de um certo descontrole, como se nos pusesse em contato com o ar orgânico das ruas, marcado cada vez mais por devaneios e sobressaltos, pela presença impregnada de sons imprevisíveis, melodias doces e sombrias: tudo revestido por uma concepção elegante no sentido mais abrangente do termo. Ainda chove ao sul do Tâmisa. 

Bernardo Oliveira

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