terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Bemônio - Serenata (2012; Dissenso Records, Brasil)




No que se refere à produção de música experimental em terras brasileiras, 2012 foi um ótimo ano. Foi bom para os veteranos da Elma e do Test, que criaram bolachas destruidoras (Elma e Árabe Macabre, respectivamente) e puderam dar um giro pelo país em apresentações ao vivo e foi ótimo para o Sobre a Máquina e os conterrâneos do Chinese Cookie Poets, que se afirmaram como duas das melhores bandas brasileiras da atualidade. Também foi um ano legal para o Hurtmold, que deu as caras depois de um longo período de hiato e projetos paralelos. Selos que possibilitaram o lançamento de artistas voltados a um formato de música não-convencional também surgiram: Meia-Vida, TOC Label, Mansarda Records, só para citar alguns.

Em todos esses anos nessa indústria vital, não me recordo de um selo brasileiro totalmente voltado para o noise, o drone e a música eletrônica extrema. É claro que houveram lançamentos anteriores, a maioria deles bancado por selos especializados em grindcore ou goregrind, partindo da lógica do “igualmente barulhento”. Isso gerou um impasse: não é todo fã de barulho que sente tesão por feedback e microfonia controlada, da mesma forma que nem todo fã de barulho se amarra em guitarra e bateria. O que assistimos no ano que se passou foi o distanciamento dos artistas vinculados à música experimental brasileira daquilo que antes era simplesmente compreendido como “anti-música” e a consequente formação de sua identidade, através de um trabalho coletivo entre artistas, a mídia especializada e o público. E como é variado esse público: Fãs de free-jazz e avant-garde, post-rockers, potheads, artistas visuais e demais aficcionados por cultura weirdo convivem em harmonia com o pessoal das antigas, que já produziam muito antes de se formar uma cena: Gengivas Negras, Zumbi do Mato, Mortuário, Adipocera, Ajax Free, entre outros.

E quanto ao Serenata, mais recente trabalho do Bemônio? Vamos por partes, não dá pra falar em Bemônio sem traçar um paralelo entre artista e cena, pois um auxiliou no desenvolvimento do outro. Em um ano mais “morno” para o drone, é provavel que Paulo Caetano (o idealizador do projeto) não se sentisse estimulado ou confiante a ponto de produzir suas músicas, mas no momento propício criou o Vulgatam Clementinam, debut-álbum que eu tive o prazer de lançar via-TOC Label. Esse lançamento abriu muitas portas não só para o Bemônio, mas para todo o nicho envolvido com a música experimental, angariando elogios tanto de dentro como de fora da cena, elevando o Bemônio ao patamar de “artista-revelação” e uma das grandes promessas da música instrumental brasileira. Hoje, com três lançamentos na bagagem, o Bemônio é formado por Paulo Caetano (synths, drum loops e pedais) e pelo baterista Gustavo Matos, que chegou a tempo de co-assinar o Serenata, lançado em formato virtual pela renomada Dissenso.

Tanto o Paulo quanto o Gustavo alertaram para um direcionamento cada vez maior para o experimentalismo e a música de improviso, mas a expectativa de um trabalho desnorteado e vertiginoso se desfaz logo na primeira audição, graças às baquetadas precisas de Gustavo, influenciado por uma gama de estilos, do sludge ao hip-hop. Todavia, essa estrutura sólida criada pela bateria proporciona ao Paulo o ambiente necessário para criar ruídos de uma forma mais livre, de maneira mais intuitiva. Ao todo, foram duas sessões de gravação e o resultado pode ser ouvido na íntegra em Serenata, pois o material original sofreu pouquíssimas alterações. Alguns resquícios da aura podre e do odor de morte provenientes de seu debut-album podem ser identificados, mas predomina o clima sludge-doom que hoje pode ser reconhecida como a principal influência do duo. Algumas passagens de músicas como “Ose” e “Cimeries” parecem preparar o terreno para a entrada de um vocalista gritando feito bruxa na fogueira, já “Barbatos” poderia ser eleita a música de elevador entre a terra e o inferno, com seu tom opressor e delay viajante.

Enfim, Serenata possui alguns indicativos que a chegada de Gustavo e, consequentemente, a transferência da responsabilidade pela estrutura do som, tirou Paulo Caetano de sua “zona de conforto”, pressionando-o a experimentar timbres diferenciados e novas ideias. Com um ar descompromissado e jeitão de jam session, Serenata não é um registro definitivo, mas o fim de um ciclo e o início de um novo, e nessa altura é simplesmente impossível imaginar o que há de vir.

Até o presente momento, Serenata não possui um lançamento em formato físico, mas você pode ouvir o álbum na íntegra via Dissenso Records.

Thiago Miazzo

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