sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Hurtmold – Mils Crianças (2012; Submarine Records, Brasil)
























A proximidade entre artista e público, propiciada pelas ferramentas virtuais, responde por formas cada vez mais perspectivas de partilha estética. Uma que me ocorre com frequência deriva do contraste, intensificado pelo contato online, entre a percepção do artista e a do crítico. Deveria este último submeter-se à suposta preeminência do artista sobre a obra e avaliá-la conforme os critérios estabelecidos pelo criador? Ou ele pode (e deve) se desembaraçar desta influência e, com liberdade, esmiuçar o trabalho a seu modo? Diante de Mils Crianças, último trabalho do Hurtmold, e da entrevista com Guilherme Granado publicada ontem no Matéria, me flagrei no meio deste suposto descompasso: para além da percepção pessoal, não seria bem possível identificar em Mils Crianças traços nítidos que indicam um passo a mais na carreira do grupo?

Na minha perspectiva sobre Mils Crianças, sobressaem a forma límpida e arrojada das estruturas, as tramas minuciosas que sustentam a dinâmica das composições. Esta preocupação é perceptível principalmente em momentos em que há polirritmia (dois ou mais instrumentos tocando em tempos diferentes), como em “Cleptociprose” ou “Hervi”, ou nas variações de volume, como é perceptível também em “Cleptociprose”, “Naca” e “Pigarro”. Inevitável observar que este gosto pela burilação da forma contrasta não só com a linguagem anarco-jazzística que marcou o último disco do grupo (homônimo, 2007), mas com toda uma onda de free-improv que se alastra mundo afora, inclusive no Brasil. Convém também notar a precisão na execução, cada instrumento jogando para o outro, funcionando como engrenagens de uma mesma máquina sonora.

E então ocorre algo improvável: a despeito das estruturas rigorosas, sobrevém o caráter eminentemente rítmico e suingado das composições. Neste caso, vale relembrar as palavras de Granado: “o Hurtmold é uma banda basicamente percussiva”. Além da polirritmia, em Mil Crianças percebem-se compassos compostos (como, por exemplo, “Joji”, “Beli”, entre outras) e manipulação do andamento (como na guitarra que introduz “Hervi”). Sublinho também dois momentos em que o grupo desenvolve uma espécie exitosa de “afro math rock”: as texturas rítmicas formada pelo riff e os tambores no “refrão” de “Tomeletomele”; e algo similar à uma costura da precisão do Tortoise com o espírito da Congada, na primeira modulação de “SNP” (lá pra 1:40 de faixa).

A síntese de estrutura rigorosa e experimentação rítmica em Mils Crianças contribui para demarcar um outro momento estético no trabalho do grupo. Se até então elaboravam uma sonoridade cerebral com descontração punk, desta vez desenvolveram um trabalho punk com uma consciência profunda de estrutura, timbre, composição, instrumentação, etc. Improvável que, em troca, esta complexidade transpirasse algo de mais acessível, como a pegada surf pop de “Chavera”. Como é igualmente improvável pensar que por baixo de algumas melodias assobiáveis subjaz uma instrumentação intrincada. Esta discrepância de possibilidades e opiniões, a possibilidade mesma de que os ouvintes admirem o trabalho por motivos bem diversos daqueles manifestados por seus criadores, testemunha a riqueza de Mils Crianças e a importância perene do Hurtmold no cenário da chamada música brasileira.

Bernardo Oliveira

Leia a entrevista com Guilherme Granado

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