quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sutcliffe Jügend - Blue Rabbit (2012; Crucial Blast, Reino Unido)























Com três ou quatro anos de idade, meu principal interesse era desenhar: desenhava casas, paisagens, personagens de desenhos animados e, para desespero da minha mãe,  desenhava o diabo. Não era nada parecido com a figura  imponente das gravuras medievais,  estava mais pra um carinha de bochechas coradas, sorriso debochado, portando um tridente e ostentando um par de chifres e um rabo em forma de flecha. De qualquer forma, mamãe não gostou do desenho e estipulou uma proibição: nunca mais desenhe isso.  Foi a primeira vez que eu percebi (dentro das limitações da mente de uma criança de tão pouca idade) que a arte não se limitava ao belo e ao feio, ela poderia ser simplesmente ofensiva. Quando a arte se cruza com a ofensa, ela deixa de ser avaliada, ela é desprezível e não merece a avaliação de qualquer critério. Percebi que da mesma forma que certas coisas não deveriam ser ditas, algumas ideias não deveriam sequer chegar ao papel.

E quando essas ideias ganham vida? Bobby Beausoleil (músico e integrante da família Manson) e o Throbbing Gristle arranharam a superfície da chamada música “maldita”, mas foram os primeiros trabalhos do Whitehouse os responsáveis por romper a barreira: criaram um novo estilo, uma nova forma de direcionamento temático e serviram de inspiração para artistas como Marco Corbelli (Atrax Morgue), Dominick Fernow (Prurient) e Justin Broadrick (Godflesh, Jesu, JK Flesh). Bebendo da fonte dos assassinos em série, pornografia hardcore e ‘obscure shocking’,  o Whitehouse é uma das principais nomes do power electronics, termo que ajudou a criar. Mas essa contribuição não se limita à longínqua década de oitenta: os três personagens “principais” ainda hoje gozam de prestígio e reconhecimento através de seus side-projects: William Bennett explora as possibilidades do ‘afro-noise’ com o seu Cut Hands, Philip Best dá continuidade ao trabalho desenvolvido desde os anos 80 sob a alcunha Consumer Electronics e, por último, Kevin Tomkins toca o barco com o Sutcliffe Jügend.

Bem diferente do power electronics, Tomkins aposta em texturas mais leves e referências spoken word, mais ou menos como fez na faixa “Lucky”, um dos carros-chefe do antecessor “With Extreme Prejudice”. Enfim, “Blue Rabbit” é um disco consistente, com um direcionamento previamente definido. Utilizando-se de microfones de contato, ruídos-ambiente, microfonias sutis e uma voz livre de efeitos que pouco varia o tom, o SJ direciona a angústia e tensão exposta em seu passado power electronics de uma forma mais primitiva e visceral para algo mais climático, no qual a tensão se desenvolve através da expectativa e do desenrolar de sua narrativa. O total de referências utilizadas na confecção de seu instrumental é incalculável: instrumentos acústicos, improvisados e ruídos eletrônicos convivem em harmonia e criam um instrumental rico.

Explorando a maldade de uma forma menos explícita ou provocativa do que em seus trabalhos anteriores, mas igualmente desconfortante, Tomkins acertou na mão com o seu coelhinho azul.  As faixas não variam muito, mas trata-se de um disco muito fácil de ouvir — é como assistir a um filme sem precisar manter os olhos pregados na tela, basta encostar a cabeça no sofá e relaxar.

Thiago Miazzo

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