segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Voices From The Lake – Voices From The Lake (2012; Prologue, Itália)

























Batizada com a etérea fórmula poética Voices From The Lake, a parceria dos DJs e produtores italianos Donato Dozzy e Giuseppe Tillieci (tcc. Neel) remete a um tipo muito específico de experiência estética: percebe-se os artistas empenhados em compor dentro de uma sólida estrutura formal. Quase em sentido oposto, dificilmente se poderá negar a relativa ausência de timbres radicais (próximos por exemplo do IDM), atendo-se o trabalho a sonoridades mais suaves, acessíveis e, em alguns momentos, a alguns clichês do techno-ambient — os timbres de sintetizador, o bumbo seco e surdo, o temperamento melódico da percussão, o aspecto mais inteiriço dos módulos. Pois é a partir dessa condição limítrofe, sensível ao reaproveitamento rigoroso dos clichês, que se constitui o principal argumento sonoro do primeiro trabalho da dupla.

Com exceção talvez dos ruídos imprevistos de “Vega” ou das percussões em “Meikyu”, “In Giova” até o final sombrio, Voices From The Lake conta com uma sonoridade relativamente previsível, mas que aos poucos se revela ambígua. Isso porque sua maior qualidade, ou pelo menos a mais evidente, é a rigorosa precisão nas modulações, o nexo engenhoso que costura suas onze faixas, transformando o arsenal de clichês em um continuum forte e coeso. Mas há ainda um terceiro elemento digno de nota: ao lado da habilidade formal e do reaproveitamento dos clichês, convém ressaltar a estrutura narrativa que modula dentro de uma dinâmica fortemente ancorada na repetição.

Somos absorvidos pela repetição de um elemento isolado, seja uma trama percussiva, uma melodia, um ruído: é o caso do grave cavernoso da faixa introdutória, “Iyo”; da melodia grave que se repete durante os oito minutos de “ST (VFTL Rework)”; da percussão nos momentos mais próximos do “dub techno”, como “Manuvex” e “Circe”; ou da percussão mais “crua” na faixa mais fragmentária do trabalho, “Meikyu”. Desta capacidade de contar uma estória através da modulação dos motes que advém a sensação de transcorrência e movimento que impregna todo o trabalho.

É bem verdade que K, empreitada solo de Donato Dozzy, trazia já algo nesta direção, demonstrando a habilidade muito particular de seu criador em dosar batidas, linhas de baixo, percussões, sempre no sentido de extrair autenticidade de sonoridades mais redundantes. Em parceria com Neel, esta característica adquiriu uma forma ainda mais arrojada, seja em relação à transcorrência e continuidade da composição, seja na relação interna entre as partes. Ao final da audição, temos a certeza de que não se trata, como muitos discos de techno e dubtechno recentes, de uma compilação ou amontoado de produções esparsas. Ao contrário, trata-se de obra pensada, concebida, talhada cuidadosamente para emitir um conteúdo singular e intransferível.

Bernardo Oliveira

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