segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Anvil FX - Anvil Machine (2013; YB Music, Brasil)



Quando o Papa abdicou de seu cargo em pleno carnaval, pensei que a vida nunca mais voltaria ao normal. Imaginei um mundo onde os blocos nunca mais deixariam as ruas, e as pessoas que (como eu) não gostam de carnaval, nunca mais deixariam suas casas. Mas tudo voltou ao normal, e eu voltei ao batente na quarta-feira de cinzas. Nesse dia, deparei-me com um anúncio da Locomotiva sobre um LP que havia acabado de chegar à loja, um artista brasileiro que se aventura em um mix entre Kraftwerk, música espacial e minimal wave (o post dizia mais ou menos isso). Capitaneado por Paulo Beto (ou PB), o Anvil FX está na ativa desde 1998, e no seu currículo constam três discos, além de uma apresentação no Sónar SP.

Logo de cara, fiquei surpreso com os timbres gordos e a precisão cirúrgica com a qual o artista manipula os modulares. O fetiche por equipamentos analógicos não passa despercebido ao ouvinte-médio, e suas peripécias remetem aos primeiros experimentos com a música eletrônica. Certamente, o item mais curioso de seu arsenal é o sintetizador Anvil Machine, que dá nome ao disco e foi desenvolvido especialmente para o artista pelo amigo Arthur Joly. Como deixar de parabenizar um artista que abdica dos confortos do pós-internet para desenvolver o seu próprio equipamento? Trata-se de um sinal de comprometimento tão raro nos artistas de hoje, que chega a dar um nó na garganta.

Distanciando-se das influências de música brasileira que permeiam seus primeiros trabalhos, PB desenvolveu um trabalho coeso, uma espécie de releitura da produção musical focada em sintetizadores ao longo das décadas de 70 e 80. Fundamentalmente eletrônico, Anvil Machine flerta com outros gêneros, aumentando ainda mais o poder de alcance de sua música mas sem comprometer a harmonia das oito faixas que compõem a obra, ora arriscando faixas com uma forte inspiração na cena kraut alemã, ou aproximando-se das trilhas sonoras do cinema giallo, como é proposto em “Paranoid Assassin”. Os arranjos acústicos de “Shinemartyrs” flertam com o prog e são acompanhados por um sintetizador manhoso. “Kraker Bumb” traz um quê de ‘funky’, remetendo à trilha sonora de antigas séries de TV aos moldes de “Knight Rider”. Mais referências ao sci-fi e à música espacial são encontradas na irônica “The Fake Landing on the Moon in 1968”, faixa que encerra a bolacha. Muitíssimo recomendado para aficcionados em minimal wave, electro e fãs não-ortodoxos de prog. O lançamento físico é limitado a 200 cópias, mas você pode ouvir o disco na íntegra na página do Bandcamp do artista.

Thiago Miazzo

Um comentário:

pb disse...

Caramba, Thiago!
curti demais sua resenha pq vc realmente ouviu o meu disco.
Me sinto muito honrado com sua atenção.
Muito obrigado!
Grande abraço!