quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

My Bloody Valentine – M B V (2013; s/s, Reino Unido)

























Aleluia, Irmãos! Disco novo do My Bloody Valentine! Enfim, aqui está, e estou ouvindo há quase um mês: 22 anos de espera, fato inédito em minha experiência — e, talvez, fato inédito na história da música pop: alguém conhece incidente semelhante? Vários amigos, em particular os na casa dos 40 — gente que, como eu, muito esperou esse disco — celebram e falam bem. É um disco que me agradou muito: tudo nele me agrada, me conforta, é familiar, uma música amiga que eu não encontrava há muito tempo, e que aparece sem aviso prévio, portadora de bons fluidos e good vibes. O disco me agradou e, no entanto, ao contrário de meus amigos, acho que é um disco ruim.

O que me leva a afirmar isso está ligado, por um lado, aos tais 22 anos que vem na frente desse objeto como condição mesma de sua fruição. Prestar atenção nesse disco é levar em conta essa espera, essa expectativa, e usar como contraponto a experiência de, lá em 91, ter experimentado o evento que foi Loveless. Não se trata de algo que se pode simplesmente cancelar, como se fosse adventício, espúrio, fora de questão: essa música é tributária da história de seus autores e sua audiência. Seu principal artífice, Kevin Shields, disse famosamente (era, claro, uma blague) que buscaria o suicídio como saída caso não aparecesse com um disco no ano seguinte — e isso foi há uns dez anos. Ou seja: essa demora, esse uso do tempo na fatura da obra, é um de seus elementos, é parte do jogo no qual essa obra aparece pra gente agora.

Nesse jogo entre autor e audiência produzido pela banda, levando em consideração essa escala de tempo, julgo esse disco insignificante, um arremedo do que a banda já produziu e um investimento em uma continuidade fácil que é incapaz de produzir qualquer modulação da atenção: eu não tenho que aprender a ouvir nada aqui, tudo já está controlado pelo meu repertório prévio, tudo é da ordem do dia. Minha aposta é que tal produto recebe elogios justamente por isso: pelo conforto da audiência que, condescendente, meramente agradada pelo que ouve, se sente elogiada e recompensada e, em devolução, elogia a banda. E é claro que esse disco nos agrada: nosso gosto foi em certa medida formado pelo seu antecessor, cuja anomalia e força perdura. O que há de valor no disco recém-lançado é o que nele remete à força que havia lá, no disco lançado há mais de vinte anos. 

Quero dizer, portanto, que aqui a banda não faz nada que mereça elogios se comparado ao que a banda já fez. A alternativa é puramente especulativa, pois não há como ouvir esse disco a não ser na perspectiva que o transforma em um evento interessante, e isso depende da história da banda e do caráter único dessa demora no lançamento, dessa gestação longeva. Mas, ao tratar da música, o que se ouve é algo que, em uma faixa como “Is this and yes”, não estaria deslocado em um disco do The Sundays: um órgão manso e um clima inequivocamente bom, um título que sugere uma ligeira anomalia semântica, e um produto final que parece ser algo “influenciado” pelo My Bloody Valentine. Ou tome “Only tomorrow”: você já ouviu aquilo antes — mas ouviu melhor. É isso então que você, fã do MBV que sai por aí elogiando esse disco, queria? Pode bem ser, e va bene... Mas pra que eu julgasse esse disco bom eu precisaria de algo mais — algo que a banda já me ofereceu e que, agora, reduzida a uma versão edulcorada de si mesma, não me dá mais. Esse disco que estou ouvindo agora não vale, não merece entusiasmo.

Compare a miséria dessa faixa que mencionei com uma faixa menor de Loveless, como “Touched”: aquele gemido em loop é portador de uma emoção imprecisa, oscilando entre uma agonia extrema e um êxtase em tom menor, e essa ambivalência enriquece a experiência, que perdura na memória por força de sua indeterminação e, também, claro, por força desse quantum de algo misterioso que constrói o sucesso na arte. A faixa funciona e, embora mínima, é eloquente — e há bem pouco dessa natureza nesse disco de agora. Veja bem: selecionei para comparação o que é quase uma vinheta, uma faixa mínima. Seria grotesco submeter a maioria das faixas desse disco novo ao massacre de uma comparação com “I only said”, ou “Soon”.

O que há de valor no disco recém-lançado é o que nele remete à força que havia lá, no disco lançado há mais de vinte anos

















Nem tudo é desgraça, e concedo que há pelo menos uma faixa excelente, instrumental, seca como seu título, “Nothing Is”, cujo punch me força a cancelar tudo de ruim que eu disse sobre o disco, pois seu uso particular da repetição e seu descaso com a melodia coloca em suspenso a ideia de que tudo aqui é derivativo. Aqui estamos em um terreno que, se não é inédito, pelo menos é coisa que a banda não explorou a contento, tem frescor, não é cadáver: a faixa termina e eu imediatamente a repito, insatisfeito, desejando mais. E daí seguimos para a faixa final, “Wonder 2”, na qual tudo funciona, miraculosamente, num clímax diabólico, absurdo, urgente. É um final de disco do caralho, e me pergunto qual seria minha reação se eu tivesse que lidar apenas com essas duas faixas — essa resenha seria outra coisa, certamente. Esses caras deviam ter lançado um single.

Ouvi de um amigo que o disco é bom sim, que ele temia que convidassem o DJ Shadow pra uma faixa, ou que saíssem com um disco produzido pelo Timbaland — eu ri, ele riu, todos rimos, e isso é muito justo, pois o que ele disse é ridículo. Mas todo risco em arte corteja o ridículo, e a arte, penso, só avança assim: partindo de um certo “sem saber”, podendo dar errado, podendo naufragar e, assim, ser ridicularizada pela pretensão falida. Ao imaginar o que eu esperava desse disco, não encontro nenhuma resposta pronta, e acho que não esperava nada preciso: o próprio lançamento do disco foi uma surpresa pra mim. Mas com certeza eu preferiria algo que me provocasse como Loveless, ou que simplesmente me levasse a dizer o que disse ao ouvir “Nothing Is”: um murmúrio inarticulado que indica que preciso aprender a falar sobre aquela música, que não tenho discurso pronto sobre aquele evento estético. Continuo ouvindo o disco, e ele me agrada mesmo. Mas é ruim.

Antonio Marcos Pereira

***

Fruto de um processo de composição que durou teoricamente 21 anos, o “sucessor do Loveless chama a atenção pelo simples fato de ganhar vida, o que torna por si só a sua audição obrigatória. Longe de chegar ao público por conta da exaustão, mais ou menos como ocorreu com a Chan Marshall (Cat Power) em seu último trabalho — “terminei essa merda” — M B V é fruto da persistência e da personalidade obsessiva do mentor Kevin Shields, que se tivesse um pau tão grande quanto o seu ego, seria capaz de copular com a lua sem tirar os pés do chão. Dos arranjos de guitarra às paredes de ruído que caracterizam o som da banda, todo o processo de criação do disco foi meticulosamente elaborado, e se assim chegou ao público, foi por conta da aprovação de Kevin Shields. Doses cavalares de perfeccionismo permeiam a obra em sua totalidade, o que torna uma tarefa um tanto ingrata tecer qualquer tipo de crítica negativa.

Um personagem de On The Road, que citava frequentemente o bordão “não se pode ensinar uma nova melodia a um velho maestro”

























Deixando de lado a mania de perfeição do Shields e focando na obra da banda como um todo, posso dizer com convicção que não correspondo ao ouvinte-padrão da banda. Gosto do Loveless, mas adoro os EP’s, especialmente o “You Made me Realise”. Me derreto ouvindo o ‘tchutchudu-tchudutchududu’ sussurrado pela Bilinda em “Cigarette in Your Bed”. Sem me deixar intimidar pelo fanatismo e o respeito imposto pela marca de “melhor disco do mundo”, esperava desse M B V algo que justificasse tanta demora, sem qualquer vinculo com o seu antecessor. Macaco velho que é, Kevin Shields fez questão de gravar todo o disco exatamente como sempre fez, chegando a recusar os confortos do universo digital e optando por uma gravação puramente analógica. Poucas referências fora da zona de conforto da banda podem ser detectadas. Trata-se de uma cópia do Loveless? As primeiras músicas conduzem a uma espécie de déja-vu, sensação que se desfaz lá pela segunda metade do disco, quando texturas oriundas da música ambiente e do dream pop tornam-se mais palpáveis.

Lembro de um personagem de On The Road, que citava frequentemente o bordão “não se pode ensinar uma nova melodia a um velho maestro”. Acho que essa citação se aplica muito bem a Kevin Shields, que respeitou não apenas a sua linha de criação, mas também o seu passado musical. M B V não desestrutura a sólida discografia da banda. Pisando em ovos, o My Bloody Valentine conseguiu botar para jogo um disco honesto, muito superior a grande parte do que vem sendo produzido nessa linha. E, antes tarde do que nunca, mostrou ao mundo que Kevin Shields é um homem de palavra. Prometeu, cumpriu.

Thiago Miazzo





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