segunda-feira, 25 de março de 2013

Nick Cave & The Bad Seeds – Push The Sky Away (2013; Bad Seed Ltd., EUA/Autrália)

























“Breathe, in it, there is no need to forgive…”: crueldade, arrebatamento…

Quando soam os primeiros acordes de “We No Who U R”, primeira faixa e primeiro single de Push the Sky Away, salta aos olhos o clima sombrio que nos acompanhará por todo o álbum. “Grandes novidades”, pensará o leitor acostumado aos versos fervorosos deste bardo outrora inquieto e estridente.

Em Push The Sky Away, as tonalidades acinzentadas das trevas existenciais encontram-se com a melancolia romântica manifestada em trabalhos como The Good Son e Henry’s Dream: se à última convém satisfazer-se com as contradições do espírito, ao primeiro não é dada a mesma colher de chá. O desespero existencial oscila, não sob a forma de um “vazio” (como, parece, é hábito secular), mas nos detritos e excedentes da linguagem, entre a miríade de acontecimentos e a opacidade veloz da percepção. Puro delírio, notas mentais transformadas em canção popular (folk song, blues). O rock’n’roll vigoroso de Dig, Lazarus, Dig!!! dá lugar a uma inflexão poética mais densa e concentrada.

“The night expands, I am expanding
I watch your hands like butterflies bending
All among the myths and the legends we create
And all the laughing stories we tell our friends
Close the windows, clear up the myths
It's gettin' late
It’s darker and closer to the end…” (“Wide Lovely Eyes”)



O estranhamento não advém somente da fragmentação do exercício poético, mas da indistinção entre universal e particular, entre mito e corpo, entre crença e perecimento. O mundo se desfaz todos os dias, moral e materialmente quebradiço, mas a solução não se encontra na transcendência, nem no ódio à existência. 

O poeta sopra com o vento: “push the sky away”, “empurre o céu”, expanda-se para além das constrições morais, sociais. Não se resumiria o ato poético ao domínio ritual dos delírios? Acompanhado do coral, Cave parece em estado de concentração litúrgica:

“I got a feeling I just can’t shake
I got a feeling that just won’t go away
You’ve got it, just keep on pushing, keep on pushing
Push the sky away.”



Consta que o CD físico vem acompanhado de um livro reunindo escritos que Cave produziu ao longo das gravações. Conduzindo o leitor para o centro de uma “autópsia com bisturi veloz”, os cadernos (como se pode observar nos vídeos) conservam dezenas de versos não-utilizados, títulos alternativos de músicas, “digressões embaraçosas”, fotografias, desenhos, etc. Com esse material, o autor pretende inserir o leitor nas dinâmica e manias inerentes ao processo de composição. 

Expandir-se, então, corresponde ao ato de ultrapassar, não só pela efígie orgânica dos loops de Warren Ellis, mas também pelas impressões e palavras inauditas, mutiladas, apagadas, esquecidas. Memórias de versos que multiplicam máscaras, indicando fortes ressonâncias intertextuais entre as canções.

Por exemplo, no blues/canto de trabalho altamente estilizado que é “Finishing Jubilee Street” em relação à balada rock’n’roll “Jubilee Street” (Lou Reed, fantasma):

“I’d just finished writing ‘Jubilee Street’
I lay down on my bed and fell into a deep sleep
And when I awoke, I believed I’d taken a bride called Mary Stanford…”



O canto falado-dramático alinha-se à teatralidade dos arranjos, carregados por uma mescla de instrumentos convencionais, eletrônicos e sons de objetos não-musicais. Não servem como mero acompanhamento para as canções, muito menos se inclinam a “vestir” os versos como no caso de Bisch Bosch e Manafon. A sonoridade sutil e, ao mesmo tempo, encorpada de Push the Sky Away, mais do que dialogar com as palavras do autor, abraça, incorpora-se à palavra, transforma-se em palavra.

Reparem na economia aparentemente aleatória  de “Water’s Edge”: a saturação do contrabaixo distorcido sustentando o ritmo, a sequências de notas ao piano, o acordeom acompanhando o refrão, a bateria que corta o espaço sonoro com pratos descordenados e rufadas velozes, melodias se repetem, outras se desfazem no ar… Como se a consciência se esvaísse, posta em suspenso ao narrar impressões sobre a cegueira violenta da religião. Reparem na possível, imprevisível citação de Cole Porter ("Hate for Sale"?)

“They dismantle themselves by the water's edge
And reach for the speech and the wide wide world
Ah, God knows our local boys
It's the will of love
It's the thrill of love
Ah, but the chill of love is coming on…” (“Water’s Edge”)



“Mas o que se esperava de um songwriter rebelde de 50 anos, se não música como expressão de satisfação pessoal, como cântico em homenagem a si mesmo e a uma obra digna de nota?” Assim eu terminava a crítica para Dig, Lazarus, Dig!!!, o disco que Nick Cave lançou com os Bad Seeds em 2008. Comparado a Dig, Lazarus Dig!!!, Push The Sky Away pode ser avaliado a partir do foco sobre a canção, ao passo que o anterior seria um trabalho mais ligado ao rock’n’roll básico e direto. Diagnóstico injusto e apressado, como se não houvesse a menor chance de coelho algum sair dessa cartola. Hoje sei por experiência: não se dá por morto (criativamente morto) gente da cepa de Lou Reed, Leonard Cohen, Caetano Veloso, Nick Cave, etc.

Nos deixamos levar por estereótipos... Quem sabe é o poeta, e às vezes a prova vem à cavalo. Este é o caso de Push The Sky Away.

Bernardo Oliveira

2 comentários:

Chris Calvet disse...

Demais, Bernardo!

Bernardo Oliveira disse...

Valeu Calvet!