segunda-feira, 1 de abril de 2013

How to Destroy Angels – Welcome Oblivion (2013; Columbia, EUA)




...a heroína, decepcionada, se livra do presente comprado na lixeira mais próxima, a tela a enquadra enquanto se afasta de moto por trás da neve que cai antes de desaparecer dentro da cidade iluminada. A tela fica escura. Créditos. Ouvimos uma voz feminina que canta: "Just one step at a time/ and stranger than fantasy"... Que parece um comentário ao que acabamos de presenciar — stranger than fantasy. Enquanto a voz se aproxima a música cresce para o grave (um subgrave que só vi bem reproduzido em certas salas de cinema) e fala de um tipo de amor, não romântico, exatamente, mas de uma casa, um lugar para onde retornar, firme como uma rocha no oceano (“Is your love strong enough? “)

Assim termina o épico de David Fincher The girl with the dragon tattoo, com a releitura da canção de Bryan Ferry pelo How To Destroy Angels. O grupo é capitaneado por Trent Reznor (criador e único integrante fixo do Nine Inch Nails); Atticus Ross, seu parceiro de trilhas sonoras, com o qual, aliás, compôs o restante da trilha do referido filme; o antigo parceiro de NIN Rob Sheridan e Mariqueen Mandig, a vocalista, também esposa de Reznor. Para quem conhece o antigo projeto de Reznor, How To Destroy Angels guarda algumas surpresas, mas também algumas continuidades. 

O recentemente lançado Welcome Oblivion coloca ambas em perspectiva.  É bem verdade que a trajetória de Reznor já anunciava as diferenças aqui presentes. Desde The Fragile, as sonoridades mais distorcidas que mantinham o de-saída-questionável-vínculo de sua banda com o gênero industrial vinham gradualmente cedendo a uma sofisticação no uso dos timbres mais próxima dos trabalhos da Warp, aliada a uma confiança cada vez maior em um melodismo pop (retornando ao que se verificava no primeiro lançamento do NIN, o álbum Pretty Hate Machine). Ambos os elementos (timbres de synth sofisticados e menos distorcidos e melodismo pop) após os últimos discos do NIN culminam na obra do How to Destroy Angels, a ponto de talvez imaginarmos que a banda, ou seu mentor, possam ter gradualmente perdido a angst que caracterizou seu trabalho inicial. Minha hipótese é de que se trata da mesma personagem em circunstâncias diferentes da vida.

Dificil não notar, por exemplo, a semelhança de imagens entre as letras de "Ice Age" do HTDA e de "The Great Below" do NIN. Em ambas as canções uma figura permanece em uma praia diante do oceano, mas na primeira espera por algo como uma redenção ("Is there hope for me/ after all is said and done") para ao final sucumbir às ondas em um suicídio fantasiado ("ocean pulls me close and whispers in my ear/ the destiny i’ve chose/ all becoming clear (...) washes me away/ makes me disappear"). Em "Ice Age", temos a voz feminina a afirmar a passagem do tempo e a própria abertura ao mundo, como um desarme diante do inexorável  e a falta de resposta de uma natureza que permanece indiferente (“I see the color of your eyes turn to gray/I feel the wind is growing colder every day/Sometimes I open up the walls and disappear/Sometimes the crashing of the waves is all I hear”). O oceano aqui é um análogo do oráculo ao qual é pedido esclarecimento (“Ocean, help me find a way’) A frase seguinte indica uma possível recaída no pathos de "The Great Below" (‘Ocean, wash us all away”). Mas a partícula “us” diz mais do que parece. Estamos longe do solipsismo do NIN e ela se dirige a um outro ("I know that everything we did will come around/ I take the thought of you and burn it to the ground").



A parte instrumental de "Ice age" replica a letra sobre o tempo (sua “passagem”) com uma continuidade mecânica produzida por instrumentos acústicos e por aquele que era o instrumento favorito da dupla Reznor/Ross em The Girl with the dragon tattoo: o piano preparado.[1] Este era usado com destaque em várias cenas, um presente raro em trilhas sonoras poder abdicar dos velhos padrões de orquestração pós-românticos. Em uma entrevista recente[2], Reznor comenta o uso de ruídos em suas produções, como a referida trilha, como uma busca por timbres que devem se combinar a uma estrutura musical “que dê algo ao ouvinte para que ele possa retornar”, em outras palavras — a combinação de um elemento estranho em um contexto que seduza o ouvinte. Um mote que ouvimos já há vários anos e que justifica sua escolha por ter se afastado desde o início das correntes mais radicais da música eletrônica popular em favor de uma conjunção com uma musicalidade mais convencional — que tem pautado ao longo dos anos várias críticas e elogios ao Nine Inch Nails. Aqui, em "Ice Age", o piano preparado, juntamente com outros frágeis timbres fornece um apoio rítmico contínuo sobre o qual surgem sons e texturas sustentadas, sublinhando o que há de ameaçador na imagem proposta. E há muitas coisas ameaçadoras no disco, debaixo da superfície melancólica e madura.

É o que fica claro em faixas como Welcome Oblivion, que parece resumir um número de motivos unificadores do disco. A faixa não possui a mesma violência de clássicos da pena de Reznor, como "Mr.Self Destruct", mas, replicando o paralelo que fizemos entre "Ice Age" e "The Great Below", retoma o tema da auto-destruição em uma chave não-solipsista. Enquanto na antiga faixa do Nine inch nails havia um discurso dirigido ao sujeito por uma voz que seria exclusiva de sua experiência subjetiva (“I am the voice inside your head/ and I control you”), aqui, uma voz dirige-se a um outro para o qual não é completamente transparente (“I don’t know if you can hear me over this/ I don’t know if you can hear the sound”). Mais uma vez, quebra-se uma individualidade solipsista da canção anterior com elementos que perturbam a transparência de si a si mesmo: só um outro pode dirigir-se a você sem ter a certeza de que você seja capaz de ouvi-lo (mesmo sendo este outro um alguém em si próprio — Rimbaud e psicanálise dixit).  O par lembrança/esquecimento é claro no refrão (“You know what you have done/ Welcome Oblivion”), dando o tom para todo o disco. 

Em quase todas as letras o que está em jogo é uma permanência/dissolução sob pressão. “How long can we hold on? “ Reznor e Mariqueen perguntam-se. Uma das remissões mais claras se dá na faixa "Strings and Attractors", sobretudo perto do fim, quando a “I feel like I’m just disappearing” segue-se a estrofe “All these little strings/ holding us together/ all these precious things/ can make them last” mantendo-se implícita a óbvia continuação “forever” até a próxima repetição, como uma compreensível hesitação.

Lembro-me de uma antiga entrevista de Reznor em uma Spin que li em minha adolescência (e aqui me permito uma citação de memória) em que ele dizia que Nine Inch Nails era Teatro. Na época a frase me parecia difícil de entender, na medida em que havia uma fascinação pelas qualidades musicais do grupo, pela produção e o savoir-faire propriamente sonoro do projeto. Depois de todos esses anos parece finalmente claro que sua música sempre esteve a serviço de uma persona que pode ou não ser o próprio Reznor, mas que ao longo dos anos envelheceu com ele e aqui aparece como alguém que, tendo conquistado uma estabilidade ausente nos anos passados, não mais se vê à mercê de seus impulsos, mas que teme pela continuidade da resistência conquistada. Diferentemente de "The Wretched", onde víamos a mão de Deus descer dos céus e segurar a personagem abaixo presa à sua miséria, em "And the Sky began to scream" a suspeita de  um Deus inexistente se confirma ( “Somewhere sits an empty throne/ Like we’ve always kinda known”). Nada espetacular, apenas ausência, esquecimento, falta de sentido e a resignação que acompanha... os preços da maturidade. A arte imita a vida imita a arte.

J-P Caron

Notas:
[1] Um pequeno artigo sobre o uso deste instrumento pela dupla pode ser lido aqui: http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203893404577098391489803280.html consultado em 30/03/2013

Nenhum comentário: