quinta-feira, 11 de abril de 2013

Victim! – Lacuna (2013; Sinewave, Brasil)


























A categoria básica que orienta a música do VICTIM! é a de lugar. Trata-se de uma música de lugares- lugares por onde ela passa e de onde ela foi retirada (via registros) e lugares que ela cria. Como diz o seu criador, Cadu Tenorio, em entrevista:

"estou sempre com um gravador de fita na mochila, e gosto de gravar a ambiência de locais variados do dia-a-dia com ele, acho que o som da fita enriquece muito a minha proposta, não é high fidelity mas talvez esse seja o ponto." [1]

Eu poderia dizer “espaços”, mas sinto que há uma carga formalista nesta palavra que não cabe na música do VICTIM!  Espaços poderiam se referir a sistematizações abstratas de sons (o espaço intrínseco da música), ou a posicionamento de caixas em um evento de música eletroacústica. Entendo “lugar” aqui como um espaço-já-ocupado por lembranças, afetos, presenças... “um lugar...”. A música do VICTIM! se orienta por ligações afetivas com sons, de forma análoga à ligação que se possa ter com um lugar, que é preenchido, como nas gravações de campo que preenchem as faixas. Pessoas falam, carros passam. Ouvir o disco do VICTIM! significa também refletir sobre o dia a dia de cada um na cidade, as conversas ouvidas, e, mais profundamente, o lugar da subjetividade nisso tudo, que se resolve nos outros elementos sonoros do disco.

Uma maneira muito eficaz de trabalhar esta distinção interior/exterior aparece na forma como são sobrepostas gravações de ambientes completamente diversos. Como em "Círculos", onde paisagens sonoras impossíveis são criadas desta forma, expondo também os clicks e a marca d’água do próprio aparelho de gravação/reprodução. O ato de gravar torna-se sujeito neste contexto, apontando para um olhar voyeurístico sobre o mundo. Alguém que grava, observa. Pela gravação o olho que olha passa a fazer parte do cenário, contrariando a analogia que Wittgenstein traça entre sujeito e olhar (“O sujeito não pertence ao mundo, mas é um limite do mundo” e, mais adiante, “(...) o olho você realmente não vê. E nada no campo visual permite concluir que é visto a partir de um olho” [2], equalizando ambos). Aqui o olho/ouvido se coloca dentro da moldura, apontando para a presença do sujeito que olha/ouve. Por outro lado o sujeito não comparece como um elemento separado do que ouve/vê. Os lugares impossíveis propostos na música do VICTIM! poderiam ser pensados como lembranças/presenças, coisas disparatadas que constituem a subjetividade enquanto presente. Como alguém que anda em uma rua movimentada e pensa em um outro lugar, a polifonia se coloca como lugar de habitação de um sujeito não unívoco e inequívoco.

O uso de melodias, como em "Lacuna" e "Afeto", sugere uma influência das produções do Prurient e do Cremation Lily (projeto que, inclusive, foi o próprio Cadu Tenório que me apresentou), confirmando uma tendência a mesclar o ruído e a melodia em camadas separadas. No caso do Prurient esta tendência teria se iniciado sob influência das bandas de Black Metal, na qual saturação sonora convive com a melodia, que responde pela épica presente naquelas músicas. Aqui, esta épica é intimizada. Como se ela imprimisse afeto sobre paisagens sonoras brutas, a princípio neutras. Paisagens que podem, seja constituir aquele que nos fala neste disco, seja apresentarem-se como hostis a ele (em "Círculo", mais uma vez, as paisagens são interrompidas por um refrão melódico- o elemento de conforto aparece em oposição ao resto das texturas. Ou seria ele, justamente, o elemento de desconforto?).  Em "Lacuna", a letra sublinha a oposição lugar/espaço ao afirmar o espaço vazio do sujeito em oposição ao lugar habitado, ao mesmo tempo em que afirma sua constituição pelos mesmos (na íntegra: “Inside yourself/ you are everywhere./Inside me/The echoes goes further and further.”).

Formalmente o disco é pensado como uma diminuição alternada de intensidade sonora de faixa a faixa- na qual faixas mais agressivas alternam-se com faixas gradualmente mais meditativas. O início de "Superfície" exibe a violência sonora (enfatizada por uma masterização em níveis bem elevados) característica do Power Electronics. Nas primeiras faixas as gravações atuam como instrumentos indutores de feedback a serem transformados, acelerados, sob os quais já se insinuam as melodias. Uma da relações estruturais mais interessantes se verifica entre "Circulo" e "Lacuna": na primeira a presença ocasional de um refrão melódico tocado em um sintetizador alterna com agressivas sobreposições de gravações. Em Lacuna ambos os elementos coexistem simultaneamente, como se a segunda fosse uma espécie de resolução sem síntese daquilo que se mostrava em oposição mútua na primeira. À medida que o disco avança, as faixas tornam-se mais meditativas, e, com elas, a relação de nosso sujeito com o mundo se torna menos obstruída pela violência sonora. Destaco a faixa "Vácuo", com sua melodia hesitante (como se alguém tocasse só para si) e a letra que sublinha estas relações (“O contato é visível e invisível ao mesmo tempo/O virtual e o real, próximo e distante. /Afastados por paredes invisíveis e pelo tempo das coisas, /Falar.”), culminando em uma afirmação daquilo pelo qual nosso observador-voyeur busca- um objeto não enunciável, inalcançável (“Concebemos que a fantasia é infinitamente superior a concretização./Desejamos outra coisa.”) Também a faixa Farto em que a não-obstrução da expressão se mostra pelo fato de se conseguir distingir mais claramente o que é dito. Como se a expressão emotiva das faixas restantes, sem ceder o aspecto do clima, procurasse expressar-se finalmente em uma fala articulada, que reaparece em "Vácuo", agora com esforço para se fazer ouvir em meio a distorções advindas. Coincidência ou não, este momento de enunciação está no centro do trabalho.

O disco insere-se desta forma em uma certa história do Noise/Power electronics que podemos ver delineada a partir dos anos 80, com os temas brutais e uma subjetividade extrovertida que se expressava pela violência em ato (Whitehouse, Sutcliffe Jugend) até os anos 2000, quando mais e mais a “mensagem secreta” ganha proeminência e, com ela, o sujeito que imagina e deseja. Prurient é, mais uma vez aqui, uma referência a lembrar. Em uma recente matéria sobre o projeto na revista As Loud as Possible , este aspecto é ressaltado: “Os lançamentos de Prurient tornam-se menos PE (embora eles ainda sejam PE) e mais como quebra-cabeças, cada som, vocal, letra, e representação visual (...) requerendo uma desconcertante combinação de lógica dedutiva, instrução e pensamento associativo por parte dos ouvintes”.[3] E segue, dizendo: “Embora eu ainda chamaria o que Fernow faz de ‘Power electronics’, ele está, assim como muitos veteranos da forma, expandindo seus parâmetros ao ponto em que a definição original possa não mais ser aplicada”. Descontadas as críticas que tenho aos ultimíssimos lançamentos do Prurient, parece que o Victim! se coloca no mesmo movimento de afastamento com relação às origens do gênero e refinamento formal e de conteúdo. A última faixa, ponto de término do processo do disco, tem mais em comum com certas produções do Lustmord, do que com qualquer projeto advindo do PE (lembro aqui do álbum Heresy do referido projeto). Mas, enquanto Lustmord propõe uma música dessubjetivizada, concentrando-se na captação de sons naturais (no caso, de origem vulcânica) e de uma correlação destes com uma simbologia mítica, no Victim! , mais uma vez, é uma subjetividade que podemos entrever na faixa, na figura de uma escuta de sons que pretendem imprimir um certo “ambiente” íntimo. Como o próprio Cadu afirma na entrevista citada: “o clima pra mim é o mais importante dentro de uma peça. Aliás, o clima pra mim é o mais importante em qualquer manifestação artística”.[4]

A faixa não possui letras. Mas aqui se completaria o processo de identificação de nosso protagonista com o mundo-tal-como-ele-vê, e com a impossibilidade que o caracteriza. No limite o solipsismo se identifica ao realismo.[5]

Um disco pensado, sensível, sutil. Goste-se ou não, leve-o a sério.

J-P Caron


Notas

[1] Entrevista concedida por Cadu Tenorio a Bernardo Oliveira. http://oesquema.com.br/chicodub/2013/03/11/aquecimento-cornucopia-2-entrevista-cadu-tenorio-sobre-a-maquina/ consultado em 30/03/2013.
[2] L. Wittgenstein. Tractatus logico-philosophicus, respectivamente, proposições 5.632 e 5.633, na tradução de Luiz Henrique Lopes dos Santos. Edusp, 2010 (3ª edição).
[3] As loud as possible n. 1 p. 141. Nesta seção da revista são abordados os discos Cocaine Death, Arrowhead, The Black Post Society e Crossbow, do Prurient.
Idem, p. 142.
[4] Entrevista citada, consultada em 30/03/2013.
[5] “Aqui se vê que o solipsismo, levado às últimas consequências, coincide com o puro realismo. O eu do solipsismo reduz-se a um ponto sem extensão e resta a realidade coordenada a ele” L. Wittgenstein, op.cit. proposição 5.64.

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