quarta-feira, 29 de maio de 2013

Rectal Hygienics - Even The Flies Won't Touch You (2012; Depravity Label, EUA)


Acordou uma madrugada e vomitou a bílis. Na manhã seguinte, pegou um coletivo e foi trabalhar. Conforme o ônibus balançava, o fígado seguia o ritmo, preparando-se para mais uma catarrada que subiria sua garganta, culminando com um jato quente em sua roupa branca.  – Fodeu, tô atrasado e não vou poder voltar pra me trocar. Sentiu seu fígado se contorcer e num espasmo cuspir tudo pro alto. Nas bochechas, saliva e caldo de bílis. Pensou na reação das pessoas ao redor, o que diriam daquele cara que vomitava pela janela do coletivo – e se respingar em alguém?  O ônibus seguia rápido demais, com certeza o vento vai provocar alguma reação imprevisível. Eles vão reclamar do cheiro – ele pensava com as bochechas infladas com um caldo verde, mas sabia que era a coisa certa a fazer. Controlou o nojo e engoliu. Rectal Hygienics é podre – o vômito de pura bílis que você é obrigado a engolir.

Toda a estética de Even The Flies Won’t Touch You remete a uma atmosfera de abandono, aquela descrença que beira a náusea. Quando ouvi falar na banda pela primeira vez, julguei tratar-se de um artista de harsh noise. Longe disso, mas não tanto. Trata-se de um disco extremamente ruidoso e com pouco primor técnico, o que já coloca um entrave em qualquer intenção de comparar aos conterrâneos do Eyehategod. Ao mesmo tempo, o som da banda soa distante das guitarras tortas e da sensação de confusão generalizada que o Brainbombs deixa no ar. Mesmo assim, são as duas referências mais comuns quando tentamos associar a sonoridade do Rectal Hygienics a alguma outra banda. Acrescente à mistura a depravação típica do GG Allin, leve ao forno por três minutos e sirva. Even The Flies (assim como a vingança) é um prato que se come cru.

Depois de traçar o perfil da banda e antes de o álbum chegar à metade, você já sabe o que vai encontrar em todas as outras faixas. Mas acredite, isso não é um problema. É um disco passional, para ouvir sem qualquer outro compromisso que não o entretenimento. Afinal, quem não gosta de fazer uma pausa naqueles álbuns que sugam nossa concentração e enchem nossa cabeça de informações e curtir um disco que traz de volta à tona aquela aura adolescente, música pra cantar acompanhando as letras. E é nessa hora que a banda se mostra um caso à parte. São letras degradantes, violentas, que chocam até mesmo àqueles que estão habituados com o gênero scum punk, a violência visual do Antiseen e as performances do já citado GG Allin acompanhado de seus Murder Junkies. Não há nada de novo em ser escatológico, mas poucas letras abordam esse tópico de forma tão transparente. Há algo curioso na maneira como abordam o tema sexualidade, dando maior enfoque à troca de fluídos, sujeira e ao contato corporal isento de glamour do que ao prazer propriamente dito. “Transvestite” é fascinante, complexa, explora a curiosidade humana e todos os questionamentos que partem dela. “Period Fuck” também é merecedora de destaque, com um riff poderoso e refrão marcante. No verso, a banda dá a letra: se você toma banho logo após consumar o ato, você não é do rolê.

Acho que eu já enrolei demais. Even The Flies é um disco sujo (das mais diversas formas), desbocado e feito pra assustar, mas que deixa nas entrelinhas a insegurança e os anseios do ser humano. “Minha vida é fazer merda, mas longe de mim fazer isso apenas pra te magoar. Esse sou eu”. E quem nunca dormiu sem tomar banho depois de uma bela trepada, que atire a primeira pedra.

Thiago Miazzo

Ouça o álbum na integra, direto do Bandcamp da banda.

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