quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vermes do Limbo - Adeus Igapó (2013; Mamma Vendetta, Brasil)



Quando assisti à apresentação dos Vermes do Limbo, não pude deixar de notar a incrível capacidade do duo em fazer com que tudo ganhe forma de música. As pausas, as conversas trocadas entre uma música e outra, tudo parecia ser friamente calculado. A proximidade com os músicos se faz necessária, devido à quantidade de detalhes vocais balbuciados sem microfone, ruídos ambiente e conversas que pareciam fazer parte do campo musical, fazendo com que a interpretação (da música) parecesse mais fácil do que realmente é – culpa de sua fluidez.

A ausência (ou a perda de uma parcela considerável) de som ambiente fez com que eu passasse a encarar com receio qualquer tipo de registro da banda. Ok,  poderiam gravar quantos bootlegs quisessem, mas nada dentro de um estúdio. Acabei encontrando com o Adeus Igapó, e aí já não tinha como voltar atrás. Dessa vez em forma de trio, os Vermes abrem o disco com referências de free jazz e uma aparência mais formal, mas logo sapecam um sampler e a molecagem rola solta. Tem muito de erudição, mas também tem muita seqüela de quem passou a adolescência cheirando cola, bebendo dreher e ouvindo F.Y.P. - e essa que é uma das grandes sacadas. “Sim Mestre” (que divide a faixa 2 com a “Kayoriver”)  dá sinais de que a lentidão herdada do Flipper e dos primeiros trabalhos do Melvins também será uma constante no disco. E lá vem outro riff engraçadinho. Mesmo as faixas sendo tão curtas, eles não param um segundo, o que faz o disco parecer ser bem mais longo do que realmente é.

Definitivamente, todo o meu temor com um registro em estúdio feito pela banda se dissipa nos segundos finais da faixa “Castorina”. Vocalizações intensas parecem sair do chão, aproximando-se gradativamente do microfone, em uma demonstração de feeling que poucas vezes ultrapassa os limites das apresentações ao vivo. Tem algo de muito legítimo na performance e na interpretação desses caras, que extrapola os limites e a formalidade do ambiente de estúdio. Há muito tempo, li um texto sobre as limitações impostas à arte contemporânea dentro de um museu tradicional, invariavelmente limitado a quatro paredes brancas. Confinadas nesse espaço, a obra de arte perde uma parcela considerável de sua identidade, aproximando-se de um simples objeto de decoração. Não há diálogo entre obra e espectador. Infelizmente, as paredes revestidas do estúdio não são tão diferentes das paredes brancas de um museu. Dentro dele, tudo é frio (não só por causa do ar condicionado), o tempo é rigorosamente controlado e há um abismo separando o estúdio da “vida real” (entenda por vida real os espaços tradicionalmente utilizados para apresentações ao vivo). Enfim, os Vermes conseguiram com louvor subverter os limites desse espaço tão tradicional que é o estúdio, utilizando para o seu próprio proveito o que ele tem de melhor e levando para dentro dele o que eles trazem de mais podre – e por assim dizer, o que há de mais bonito no som dos meninos.

Thiago Miazzo

Ouça o Adeus Igapó na íntegra, direto do bandcamp da banda.

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