terça-feira, 13 de agosto de 2013

–notyesus> – Preto Sobre Preto (2013; TOC Label, Brasil)

























Em 1969, o compositor Morton Feldman escreveu um texto intitulado Between Categories, no qual relata um diálogo com seu amigo poeta Brian O’Doherty. Baseado na busca de pintores, iniciada por Cézanne e culminante nos Expressionistas Abstratos, eles conversavam sobre “como seria uma música de superfície?” [1]. O’Doherty acaba por concluir que, nesta busca, ele reconhece apenas a música de Feldman. Mas creio que a resposta, atualmente, seria diferente pelo menos se tivermos em vista o que emergiu no entre-categorias do metal extremo e a música eletroacústica, o Noise ou Música Extrema. Desta tendência faz parte Preto Sobre Preto, o primeiro álbum do –notyesus> (duo composto por Jean-Pierre Caron e Rafael Sarpa). Mas uma tendência é muito pouco para dizer o que é este álbum.

Ele é composto de três faixas. A primeira, B-Alúria, é baseada em um poema de mesmo nome escrito por Gabriela Nobre (que vem com o download do disco). A faixa mescla a exploração dos sons texturais — em geral saturados, distorcidos, longos e contínuos -, com um áudio da declamação do poema no limiar da reconhecibilidade de suas palavras devido ao volume e ao tratamento timbrístico que lhe é dado. Já no poema, uma sintaxe específica ajuda a bloquear significações semânticas mais fluentes de nível frasal, tendendo a valorizar as sonoridades resultantes dos enlaces entre as palavras.

A segunda faixa, Suprematismo: Hiperícone é a uma espécie de monólito, um objeto absoluto. Uma única textura sonora, algo próximo de uma variação do ruído branco com distorção, distribuída ao redor de 9 minutos, com uma filtragem final retirando os graves do espectro. Imagine-se deslizando levemente a ponta dos dedos sobre uma folha de lixa de pintura tão vagarosamente que se perca, em meio a tal movimento, a memória de quando o iniciamos e a perspectiva de quando o terminaremos. Pois o movimento é a própria sensação do tempo enquanto a lixa é uma analogia potente para descrever a qualidade “tátil” do som que se apresenta. Na medida em que o tempo passa, resta a percepção de que este todo inquebrável e homogêneo possui nuances, como as nuances de mais preto e menos preto das Telas Negras de Rothko. Ou nuances de relevo desta superfície áspera, as maiores ou menores “pedrinhas” que tornam o papel áspero. Tais oscilações são ainda potencializadas quando, na escuta em concerto ou com grandes alto-falantes, mexemos a cabeça e inserimos pequenas quebras na homogeneidade do objeto, dotando de dignidade ímpar a qualidade de imersão proposta pelos autores do trabalho. A comparação, não gratuita, revela, na verdade, o próprio conjunto de capa e encarte do CD — um fragmento da lixa negra nº 180, com o logo do duo impresso em preto sob uma tira retangular de plástico autocolante no canto direito inferior da capa, sem mais nenhuma informação adicional, assinado por Thiago Miazzo, muito competente em traduzir em imagem e tato o que ocorre na dimensão sonora.

A terceira faixa, Hum (For A Body), começa com o que poderíamos reconhecer como mais uma variação possível da textura negra presente nas faixas anteriores. Mas aos poucos, pequenas modulações timbrísticas vão se mostrando como resquícios de melodias altamente distorcidos. São como traços figurais arruinados incrustados no que parecia ser um puro timbre. Ela apresenta, então, uma maior variação entre sons graves e agudos, sempre com passagens gradativas de um conjunto textural ao outro a não ser na entrada de se seu trecho final ao redor dos 9 minutos. A aspereza das texturas se mantém como na faixa anterior.

Sons ruidosos, ásperos, distribuídos de forma longa e contínua, distorcidos, saturados, muitos próximos ao ruído branco. Tal impressão geral causada por Preto Sobre Preto me põe a lembrar alguns conceitos que ajudariam a discutir a absorção de tais obras: o lirismo absoluto, a superfície e o sublime.

Lirismo absoluto é uma idéia utilizada por Safatle, em remissão ao que Adorno diz á respeito de Webern: 

(...) a procura em dissolver (...) toda matéria da música e todos os elementos objetivos da forma musical no som puro do sujeito, sem que se oponha a ele o menor resíduo, corpo estranho, abrupto, inassimilável (...) O som puro para o qual, como suporte de sua expressão (...), o sujeito tende, é liberado da violência que a subjetividade inflinge ao material sonoro ao lhe dar forma. [2] 

Neste tipo de expressão haveria uma “atrofia” da gramática musical corrente que resulta, na música de Feldman, em uma tentativa de captar a experiência do tempo antes de nosso controle mental sobre ele. Ouço tal busca radicalizada em Preto Sobre Preto na experiência onipresente das texturas, em um estancamento do desenvolvimentismo formal em favor da percepção de um tempo liberado.



Mas este estancamento não se dá pela utilização de silêncios desarticuladores do discurso musical, como vemos na linha Webern-Cage-Feldman, e nem pelo recurso das variações como em Webern-Feldman. O estancamento ocorre pela presença excessiva dos ruídos, pelo preenchimento integral do espaço auditivo através da onipresença sonora das texturas estáticas. As nuances de negro e a construção de objetos monolíticos traduzem, contemporaneamente, a superfície que Feldman admirava em Rothko e que a música instrumental captava com dificuldades. Já com o recurso eletrônico, a poética do noise, em especial do –notyesus>, pode proporcionar a mesma experiência do tempo de Feldman, propondo-se que excesso de silêncio ou excesso de ruído se equivalem em alguma medida. Se por um lado os dois possuem uma diferença absoluta de sensibilidade, por outro, tanto ruído (presença extrema) quanto silêncio (ausência extrema) nos ajudam a perceber dados imperceptíveis nas condições cotidianas de exposição sensível.

Sem dúvida esta é uma expressão do sublime estético contemporâneo, de caráter fragmentário e excessivo. Fragmento porque o supérfluo e o superficial aparecem autônomos, não carecem de integração a um corpo representativo maior para possuir legitimidade. Excessivo porque baseia-se na saturação das texturas sonoras de modo extremo — e porquê não dizer, supremo — para a exposição da superfície. O título do álbum não poderia ser melhor e, talvez, o todo da obra condense muito do que se deseja dizer tanto no ambiente noise quanto no ambiente da música experimental acadêmica. Neste ponto, permitirei-me um comentário de cunho político. É notável como esta manifestação poderosa de uma estética do sublime, continuadora, portanto, de algo do modernismo musical, emana com influências claras das poéticas do chamado “underground” do rock (aqui, no caso, oriundas do metal extremo). Isso nos mostra o quanto a emancipação sonora, tão desejada nos meios vanguardistas do século XX, está ocorrendo, muitas vezes, longe de suas origens amarradas nas salas de concerto. 

João Paulo Nascimento

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Notas
[1] FELDMAN, M. Give My Regard To Eight Street, Ed. B. H. Freeman. Cambridge: Exact Change, 2000.

[2] ADORNO apud SAFATLE, V. Morton Feldman como crítico da ideologia: Uma leitura política de Rothko Chapel, in http://zagaiaemrevista.com.br/morton-feldman-como-critico-da-ideologia-uma-leitura-politica-de-rothko-chapel/ (grifos meus)

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