quarta-feira, 28 de agosto de 2013

VICTIM! - Reality Cut (2013, Fusty Cunt Tapes, EUA)


Sempre bati na tecla de que o pré-requisito para um bom disco de noise é o autocontrole. Ironicamente, essa qualidade falta na vida da maioria das pessoas, principalmente a turminha torta envolvida com a música experimental.  O conceito de “controle” se faz presente na música de vanguarda de N formas, da mais explícita à mais subjetiva:  A dominação psicológica, tão explorada pelos pioneiros do industrial inglês e a cena 00s dos guetos de Nova Iorque ajudaram a moldar o estereótipo do gênero:  exploração física e psicológica elevadas à milésima potência. No campo da subjetividade, podemos destacar a nítida compulsão que acompanha a produção e o comportamento de grande parte dos envolvidos com o nicho industrial. Para mim, fazer noise é desafiar minhas próprias limitações, e um dos poucos momentos da vida em que eu sinto ter pleno domínio de minhas ações.  Tenho dificuldade em conversar com as pessoas, pois não sei respeitar o silêncio que existe em um diálogo. Você já parou pra pensar sobre o significado do silêncio em uma conversa?  Permita-me desenhar: o silêncio é como sentar-se às margens do Tietê com uma vara de pescar: você pode não tirar nada dele, mas se algo “morder a isca”, com certeza será um peixe feito de merda.

Já o bom noiseiro, esse sim respeita o silêncio. Não apenas o respeita como estabelece uma relação de parceria e faz do mesmo o instrumento-base de sua música.  Sem ele, não seria possível atentar aos detalhes que passariam facilmente despercebidos pelos tímpanos de um ouvinte-médio. Atente à água despejada de um recipiente ao outro com uma paciência budista em “Wash my Face, Awake”. O que promove a água a instrumento é o silêncio. Do contrário, seria um erro de gravação, tal qual o telefone que toca durante a gravação de The Ocean, do Led Zeppelin (se você nunca havia se ligado a esse detalhe, ouça a música outra vez e atente ao espaço entre 1:38 e 1:41). Enfim. Reality Cut não traz ruídos jogados a esmo, nem almeja agredir de forma gratuita. É justamente nos momentos mais quietinhos que o álbum azeda com a sua vontade de viver. Os intervalos para reflexão e constrangimento se encontram nas interrupções, nas guinadas nada sutis, no final de “Spasms” que de tão brusco, assusta.Outro detalhe que merece uma menção honrosa é a qualidade de captação das sucatas em “The Day Will Brighten Soon”, faixa que enfatiza o ritmo, sem perder a truculenta veia industrial. Enquanto as sucatas são processadas pelo delay, o violino costura o silêncio de um intervalo e outro, lembrando aquela casa abandonada que você visitava na infância escondido dos seus pais e que volta e meia ressurge naquele pesadelo que te faz acordar de madrugada encharcado de suor.

O toque arabesco de “Hollow” remete imediatamente ao Muslimgauze e  Vatican Shadow. Mesmo assim, considere a comparação apenas um ponto de partida e atente aos pormenores: a percussão feita com objetos improvisados – bem bedroom music  - a marcação dramática das teclas e os experimentos vocais. Por fim, “Sleep”. Tudo gira em torno de uma base feita em piano elétrico, vocalizações e microfonias controladas. De longe, uma das faixas mais acessíveis da já extensa discografia do VICTIM!, mas que preserva o diálogo entre ambiente interno e externo presente nas demais faixas da tape: objetos sendo arrastados pelo chão, portas e gavetas que se abrem e fecham com violência, vontade de dormir, mas sem ter um pingo de sono. Em tempo, Reality Cut foi lançado apenas no exterior, via-Fusty Cunt Tapes. Arte assinada pelo Matéria honorário, Lucas Pires.

Thiago Miazzo

Assista em primeira mão ao video de "Wash my Face, Awake".


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