sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ceticências – Issamu Minami (2013; s/g, Brasil)

























Parto de uma pergunta subjetiva: o que o autor almeja quando desdobra sua persona sonora em tantas outras? Evito aqui reproduzir uma psicologização da criação artística, mas o fato é que, se tratada como um sintoma, esta diversificação permite entrever conflitos e conformações inesperados. A fórmula “eu é um outro”, escrita por Rimbaud em carta a Paul Demeny [1], atribui um caráter fragmentário à subjetividade, desfazendo certezas que sustentam a moderna concepção de sujeito — entendido como uma mônada racional fechada em si mesma. Sim, é possível imaginar uma crítica da identidade (do Eu) a partir da fórmula rimbaudiana, mas isso não esgotaria o assunto. Sendo assim, nos resta a música.

Por exemplo, há um certo grau de contiguidade entre as diversas facetas de artistas como o americano Dominick Fernow, que desdobra tendências semelhantes em uma série de trabalhos, seja no Prurient, no Cold Cave ou no Vatican Shadow. Supõe-se que, em cada um desses projetos, o artista se proponha a explorar afinidades entre experiências particulares, buscando fazer com que esta “faceta desdobrada” adquira um mínimo de coerência dentro do formato álbum. Da mesma forma, o carioca Cadu Tenório comanda o ambient sombrio do Sobre a Máquina, o noise rascante do VICTIM! e opera sua persona eletrônica desde 2008 através do projeto Ceticências.

Retornando ao assunto do início, me pergunto: o que garante, no entanto, que a faceta desdobrada, tomada como um território isolado, não se deixe penetrar por influências, contradições, acasos, possibilidades? No caso do último trabalho do Ceticências, batizado Issamu Minami — nome do protagonista de Kamen Rider Black, uma série japonesa — fica fácil perceber as motivações centrais do projeto. Inspirado por uma interpretação deveras peculiar do techno-industrial (a combinação da marcação 4/4 do techno com os sons “industriais”), o álbum revela paulatinamente a emancipação de certos traços da sensibilidade do artista, que se multiplicam no interior de cada uma de suas oito faixas.

Esta condição torna propícia toda e qualquer fragmentação da personalidade, favorecida pelo caráter intimista do trabalho. Produzido, composto e gravado por Tenório, Issamu Minami, foi todo construído a partir de amostras sonoras extraídas do cotidiano, registradas com gravador de cassete: gavetas, armários, rangidos, sons de diferentes objetos de aço e alumínio, tais como roda de bicicleta, carcaça da máquina de lavar, de fogão (o restante foi produzido com bateria eletrônica). Tenório visita com personalidade o techno construtivista, no qual se pode escutar harmonias produzidas por intervencões de sintetizadores (“Hospital”, a “Shadow Moon” e “Ending”); o techno sem batidas, repleto de timbres saturados, estruturalmente análogo ao Kuopio de Vladislav Delay em “Patrol Hopper” e “Gorgom”; além da presença subliminar de Trent Reznor em “White Jacket”, “Motorcycle Gang” e na sugestiva “With Gloves”.



Por fim, vale notar que os desdobramentos internos, relativos à persona Ceticências de Cadu Tenório, se exprimem através de um duplo aspecto. Podem ser interpretados como um esforço que leva da liberação que emana da pista de dança em direção às limitações do quarto de dormir, onde o disco foi gravado (e vice-versa). Mas não se furta a problematizar a memória através de uma celebração estritamente musical. Atualizando toda a fugacidade dos encontros diários (a gaveta, o fogão, a porta…) através de sua reordenação na composição, Tenório extrai ambientes sonoros dançantes e evocativos, como que conservando os acontecimentos através de uma instância artificial. A regularidade rítmica fornece a impressão de movimento, ao passo que os objetos, ressignificados, acionam a memória. Este procedimento ressoa no título do álbum: no desenho animado, Issamu Minami é o personagem que luta para não se tornar um “homem-gafanhoto”, conservando a memória de si mesmo e, assim, aquilo que ele pensa que é.

Bernardo Oliveira

[1] “Car je est un autre. (...) Cela m´est évident: j´assiste à l´eclosion de ma pensée: je la regarde, je l'écoute: je lance um coup d´archet: la symphonie fait son remuement dans lês profondeurs, ou vient d'un bond sur la scène.”


Nenhum comentário: