quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013: 25 álbuns de música africana (Lucio Branco)

Dur-Dur Band























Irmãs e irmãos do Matéria, eis aí, para a vossa abalizada apreciação, um Top 25 daquilo que, na minha modesta opinião, foi o que de melhor se lançou no segmento de música africana neste ano que findará em breve, caso não nos surpreenda o Apocalipse.

Ao lado de cada álbum listado, informo, entre parênteses e em negrito, a “nacionalidade” dos artistas em questão. Nacionalidade vem necessariamente entre aspas por sabermos o quão alheio é o termo à autonomia das populações nativas. A África é uma vasta extensão territorial recortada cartograficamente por estados-nações impostos unilateralmente através da história. As etnias, as culturas, os idiomas, os dialetos, os mais diversos ritmos e outros traços característicos que impregnam estes álbuns estão para muito além do alcance da geopolítica colonial ou pós-colonial europeia.

Tudo isso é complexo. Mas também pode ser simples — basta fugir aos esquemas etnocêntricos de sempre. Ouvir estes álbuns pode ser um bom exercício.

Agora, breves comentários sobre o conteúdo parcial da lista.

William Onyeabor




















Há aqui muitas coletâneas e artistas sob o critério da referida “nacionalidade”. Ou, ainda, compilações de músicos africanos consagrados — como o nigeriano Fela Kuti — ou não suficientemente conhecidos. É neste último caso que se encaixa, por exemplo, o conterrâneo e enigmático William Onyeabor, presente em coletâneas mistas lançadas anteriormente, porém, agora, com um álbum sugestivamente intitulado Who is William Onyeabor?, que resgata exclusivamente o seu trabalho. Consta que este ás da música eletrônica abandonou a carreira por motivos nunca esclarecidos, e que renega o seu passado ao sintetizador. Pelo que se conseguiu levantar do seu paradeiro, está vivo, mas não apareceu para maiores explicações. (Inclusive, sabe-se que não reivindicou os direitos autorais do álbum a Luaka Bop, o selo de David Byrne responsável pelo lançamento.)

Numa linha muito similar está o nigerino Mammane Sani, que também envereda pelo primitivismo eletrônico na companhia de um órgão de batidas programadas que comovem pela singeleza.

Outro cuja dimensão se mede pelo nome é Le Grand Kallé. Gênio do soukous, estilo peculiar de guitarrada denominada também de rumba congolesa, Kallé comparece numa compilação em CD duplo que é uma fonte sonora inesgotável. 

Kenya Special, coletânea já resenhada no Matéria, é uma obra absoluta e cabal. Lamentável não ter ganho destaque à altura da sua qualidade na crônica musical que se pratica por aí. (Sim, isto também é uma autocrítica.)

Ebo Taylor




















Veteranos em atividade como o ganês Ebo Taylor e o etíope Mulatu Astatke surgem, respectivamente, com o relançamento de um álbum originalmente de 1980, e outro gravado este ano. “Atualidade”, “atemporalidade”, “permanência” etc são substantivos que a sua audição sugere espontaneamente. 

O selo alemão Analog Africa, do tunisiano Samy Ben Redjeb, foi além da conta com três compilações primorosas, reafirmando o raro empenho da sua busca pelo elo perdido da música africana dos 1960/70/80 (esta imagem pré-histórica já virou um clichê mais do que gasto na minha contribuição ao blog – peço perdão). O terceiro volume da Orchestre Poly-Rythmo, The Skeletal Essences of Afro Funk 1969-1980, o segundo volume da coletânea de pérolas ganesas Afrobeat Airways, subintitulado Return Flight To Ghana 1974-1983, e, para fechar o ano, o magistral Angola Soundtrack 2, trazem as pegadas das andanças de Samy pelo Continente-Mãe. Repetimos: a Analog Africa se superou este ano.

Owiny Sigoma Band


















A contemporaneidade (pode-se falar assim?) mereceu lugar com os lançamentos do projeto queniano/inglês Owiny Sigoma Band e os congoleses Jupiter & Okwess International. Estes últimos estiveram presentes na edição de 2012 do Festival Back2Black, no Rio de Janeiro. Uma passagem injustamente pouco comentada: — há quem assegure que foi a maior atração dos três dias do evento. Ouvir Hotel Univers e conhecer os outros artistas então escalados desfaz as suspeitas em contrário. (Infelizmente, o sul-africano Hugh Masekela não fez um show inesquecível na ocasião. Duro dizer isso.)

Termino aqui. Espero não desagradar. Não pelos títulos – eles, por si mesmos, tratam de calar qualquer oposição –, mas pelas omissões.

Lucio Branco

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25 álbuns


1. Fela Kuti – The Best of the Black President 2 (Nigéria)



























2. Ali Mohammed Birra – Ethiopiques 28: Great Oromo Music (Etiópia)



























3. Orchestre National De Mauritanie – Orchestre National De Mauritanie (Mauritânia)



























4. Bombino – Nomad (Níger)
























5. Dur-Dur Band – Vol. 5 (Somália)


























6. Owiny Sigoma Band – Power Punch (Quênia/Inglaterra)


























7. The Rough Guide to African Disco [Special Edition] (Várias “nacionalidades”)



























8. Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou – Volume 3: The Skeletal Essences of Afro Funk 1969-1980 (Benin, ou “ex-Daomé”)


























9. Kassidat: Raw 45s from Morocco (Marrocos)
























10. Mammane Sani Et Son Orgue – La Musique Electronique du Niger (Níger)

























11. Dieuf-Dieul De Thiès – Aw Sa Yone Vol. 1 (Senegal)

























12. Kenya Special: Selected East African Recordings from the 1970s & ‘80s (Quênia)
























13. Hailu Mergia – Hailu Mergia and His Classical Instrument (1985) (Etiópia)

























14. Assiyo Bellema: Golden Years of Modern Ethiopian Music (Etiópia)
























15. Ebo Taylor & Uhuru Yenzu – Conflict Nkru! (1980) (Gana)

























16. Femi Kuti – No Place for My Dream (Nigéria)

























17. Jupiter & Okwess International – Hotel Univers (República Democrática do Congo)

























18. Mulatu Astatke – Sketches of Ethiopia (Etiópia)

























19. Afrobeat Airways 2: Return Flight To Ghana 1974-1983 (Gana)

























20. Tal National – Kaani (Níger)

























21. Zambia Roadside 2 (Zâmbia)

























22. Voltaique Panoramique Volume 1: Popular Music in Ouagadougou & Bobo-Dioulasso 1968-1978 (Burkina Faso, ou “ex-Alto Volta”)

























23. William Onyeabor – World Psychedelic Classics vol. 5: Who is William Onyeabor? (Nigéria)
























24. Le Grand Kallé – His Life, His Music (República Democrática do Congo, ou “ex-Zaire”)






















25. Angola Soundtrack 2  (Angola)















Um comentário:

teko van kuyk disse...

muito bom os sons! só to achando difícil achar os torrents para baixar os discos.