segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013: 7+1 (J-p Caron)






































O três, em latim tres, se ele remete ao TRANS- da 'transcendência', indica a vocação da circuminsessio trinitária para superar a si própria. Em que sentido? Na direção do Quatro. Mas a Trindade torna-se então tri-unidade: segundo o axioma de Maria, a profetisa, ‘Um engendra o Dois, o Dois engendra o Três e o Três, o Um enquanto Quarto.’ (...) Mas se o Um 'quarto' não se contenta de olhar para o passado, se ele se dobra sobre si próprio para decifrar o seu futuro, o que obtemos? O Sete. E o ciclo septário se combina ao ciclo ternário, eis o que, segundo Jacob Boehme, funda o universo. “ (Daniel Charles, Musiques Nomades, p. 38)

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Não gosto de listas de fim de ano. Todos os meus amigos sabem. Sim, fazem-se listas de coisas desde que o mundo é mundo e eu sou um desses, com meus paideumas.  A discussão sobre o paideuma foi uma das primeiras que tive com o Bernardo, cujo texto me incitou a fazer esta lista e deixar estas questões. 

Mas há uma diferença. Paideumas não pressupõem uma limitação temporal. Não há paideuma do ano. E mais: claro, a lista é uma tentativa de delimitar não apenas o que é retido como relevante em um determinado contexto, como também de selecionar histórias possíveis- linhas a serem desdobradas do que foi uma vez selecionado. Penso que essa história é avessa a listas de-final-de-ano, resolvendo-se em um tempo mais estirado, porém simultâneo. Somos simultâneos do passado que escolhemos. Não há porque deixarmos que o calendário defina nossos limites.

A lista de final de ano também pressupõe a categoria sobre a qual ela versa. Em outras palavras, listas de discos, listas de shows, listas de listas. Penso que isso ao invés de propor uma nova história confirma o hábito: por que diabos em plena era da internet ainda ouvimos música empacotada em álbuns, simulacros do antigo LP de vinil? É bem verdade que começam a aparecer outras formas (podcasts, vídeos do youtube, peças isoladas, etc) nas listas. Mas ainda é minoria. A lista se torna assim refém da situação e, ao invés de nadar contra a maré, a confirma. 

Faço aqui portanto minha lista de acontecimentos musicais do meu ano. Não necessariamente os melhores. Melhor” é um termo pobre de sentido. Prefiro dizer que foram os que me fizeram viver.
Acontecimentos, bem entendido, pode ser qualquer coisa. Neste sentido, é também pobre de sentido. Mas sua pobreza abre para o comparecimento de quaisquer particulares.

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Antimatéria (08/09/2013, Superuber, RJ)























Iniciativa de Chico Dub e Bernardo Oliveira, o Antimatéria se propôs a reunir alguns dos projetos mais “expressivos” da cena  carioca. As aspas são minhas, já que entrei de gaiato com meu (e do amigo Rafael Sarpa) notyesus>  nessa, em hiato havia algum tempo.

O fato é que o festival foi incrível, com shows intensos e tecnicamente bem resolvidos. 

Destaco os shows do Ceticências e do Baby Hitler.


Baby Hitler. Filmagem: Gabriela Caldas (Olhos Cozidos)

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Perturbe (vários locais, Curitiba/PR)





Se eu fosse escolher um evento, seria este. Por motivos vários. Organizado pelo pessoal do selo Meia Vida e do Espaço Cultural P.A. em Curitiba, o evento se propunha a trazer a música de ruído e a performance a um mesmo espaço.  Vale a pena uma visita ao site para conferir o que foi programado e à página do Meia Vida (destaque meu para o projeto Cama Desfeita. Se esta fosse uma lista de discos, eles estariam na lista). 

Pude conviver por três dias com os amigos de São Paulo (Ugra, Afro Hooligans, Paralyzed Blind Boy, Thiago Miazzo, colaborador deste blog) que foram tocar e curtir o empadão, em casa de Mario Brandalise Brail (o yersiniose), a quem devo um bocado este ano.

O show do Corpo Código Aberto foi memorável. 

A lua estava cheia.



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Conversas com Guilherme Vaz

Conheço Guilherme Vaz há cerca de dez anos, quando fomos apresentados por uma professora minha da faculdade, Carole Gubernikoff. Mas demorou um tempo até que eu me engajasse em discussão com ele, o que aconteceu por email no ano passado 2012, estendendo-se até este ano de 2013. Tudo isso se transformou numa conversa que fui um dos acontecimentos do ano para mim e que foi publicada aqui no Matéria. Agradeço a ele pelos insights e pela música.



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Karlheinz Stockhausen em Paris


Meu amigo Claudio que sentava ao meu lado me diz:

- É o fim dessa forma de arte.

Talvez. 

Mas Trans permanece um monumento. Tudo está errado, tudo deveria dar errado, é arriscado é esdrúxulo, é estranho. E tudo fica de pé. Meu amigo Valério me disse que deveríamos sempre ir até o fim nas ideias. Ele diz que Stockhausen o ensinou isso.



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Lançamento  do Tannenbaum 

Sem ele eu não estaria escrevendo aqui. Foi minha primeira crítica feita para o Matéria porque me concernia pessoalmente. Kevin Drumm sempre foi, para mim, a boa competição. Aquele cara no qual você se espelha tentando fazer melhor (de novo este vocábulo problemático!). Enquanto praticante de música de longas durações com sonoridades prolongadas (vulgo drone) os discos de Drumm vem funcionando  para mim como verdadeiros tratados nesta arte, desmentindo aqueles que falam em um esgotamento da forma. Tannenbaum não é exceção. Se querem saber mais leiam a crítica.



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Encun
























Muitos não conhecem o Encun. Existe há dez anos, e a edição de 2012 inclusive foi feita no Rio de Janeiro, sob o total silêncio da imprensa e da cena da cidade. Este ano foi feito em João Pessoa, sob iniciativa do compositor e amigo Valério Fiel da Costa. Não se deixem enganar pelo nome Encontro Nacional de Compositores Universitários, o evento nada tem de oficialesco e é um verdadeiro antídoto a tudo o que há de coxinha na cena da música de concerto brasileira. Vale a pena pesquisar a história do Encun, que, juntamente com outras iniciativas, como o Ibrasotope, o Plano B, o Música Livre de Floripa, fizeram na última década a história da música experimental no Brasil (recentemente menciono também o Eimas, realizado anualmente em Juiz de Fora).

Encun 2012, no Rio de Janeiro: http://encun2012.wordpress.com/cronograma/

Destaque este ano para o show do Hrönir, grupo de Recife, que fez o que talvez seja o meu show favorito do ano (se esta fosse uma lista de shows): Massacre de golfinhos em Taiji.  



De chorar e trincar os dentes.

Disseram que a peça do parceiro Paulo Dantas foi demolidora, mas perdi o primeiro dia.
Pude bater pratos e fazer meu 8³- instalação/peça de oito horas e meia de duração (8x8x8)- pondo em prática a extensão temporal das peças drone anteriores (8’ para Giacinto Scelsi, ). Sanannda Acácia criou o ambiente visual, o que eu havia previsto desde que nos conhecemos no Perturbe. Não imagino mais a música sem ela.



Trecho da performance de 8³ em João Pessoa.

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Zbigniew Karkowski (1958-2013)

Giacinto Scelsi era obcecado pelo número 8. Caiu doente no dia 08/08/1988. Ele se dizia um meio para a realização de sua música, ao invés de o compositor da mesma.

Reservo aqui este oitavo lugar que é a unidade para além da multiplicidade do 7 (e também o primeiro sinal do infinito ∞) a um amigo que pensava parecido. Tenho certeza de que sua morte, assim como a sua vida, a despeito de toda a dor, foi uma experiência musical

In a very real sense then, at the core of our physical existence we are composed of sound and all manifestations of forms in the universe are nothing else but sounds that have taken on a visible form.

Para repetir as palavras de John Duncan:

Zbigniew always seemed utterly without fear. His final gesture, traveling for hours in a canoe into the Amazon jungle directly after flights from Europe lasting nearly 24 hours, to be treated by a Shipbo shaman is perfectly in keeping with everything else he did. All the way, no compromise. His final wish, if the treatment failed, was to be left in the jungle to be eaten. No ceremony, no grave. If it succeeded as he hoped, he said he would bring back stories of the adventure. Somehow, I still expect to hear them.

“De alguma forma, ainda espero ouvi-las.”

Talvez as ouçamos como música.

PS>
Alguns amigos a quem mostrei esta lista me cobraram a inclusão do I Festival de Ruído, que organizei na Audio Rebel no último dia 15, juntamente com Cadu Tenório. Normalmente não incluo minhas próprias produções nas minhas críticas, mas me parece conveniente pontuar que tanto o Festival de Ruído quanto o BHNoise, ocorrido na semana anterior em Belo Horizonte, organizado pelo Henrique Iwao e pela Seminal Records, teriam sido bons tributos a Zbigniew Karkowski na semana de seu falecimento.

Deixo os links para ambos os eventos:

J-p Caron

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