quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Cadu Tenório – Cassettes (2014; Sinewave, Brasil)

























Tenho duas perguntas sobre o ato de nomeação deste disco. O que está em jogo ao nomear um disco "cassettes", sendo um lançamento virtual, possivelmente digital? Cadu Tenório responde que se trata de composições baseadas em loops de fita, procedimento que usa e usou amplamente em suas criações como Victim! e Sobre a Máquina. Mas há um poder evocativo em se chamar um disco virtual de cassettes, que não se resume ao procedimento composicional utilizado. Cassettes passam por um revival entre os colecionadores de música underground. Há o fetiche do objeto ultrapassado, analógico, irredutivelmente físico neste fascínio. Para além do som efetivamente digital de cassettes, e de seu procedimento composicional como manipulação de fitas, há um resto na escuta, resto esse que evoca um meio tecnológico ultrapassado e uma marca de um passado sonoro (uma marca d’água do meio técnico utilizado, como diria Rodolfo Caesar). Este passado da escuta expresso no grão do som é replicado nas categorias composicionais propostas por Cadu Tenório neste disco. E isto para além da obviedade de se tratar fundamentalmente de composição com loops

Já falei antes que a categoria essencial da música do VICTIM! era a de lugar. Eu havia dito que essa lembrança afetiva ligada a "lugar" afastava a música do Vitcim! de uma noção abstrata de "espaço". Lugar não é espaço. Por isso, o "lugar". Como uma casa de um parente, uma paisagem marítima, uma praça com um prédio antigo, os acontecimentos associados aos lugares. Em Lacuna, do Victim! havia uma presença de um sujeito que observava os lugares, corporificado nas gravações de campo presentes no disco. Ao ouvirmos as fitas gravadas com as marcas dos lugares, o que sobressaía era o ato daquele que apertava o rec. Daquele que registrava o lugar por onde passava. E o lugar por onde passava era o índice da presença deste sujeito da escuta e da vigília.

Aqui, em “Cadu Tenório” o lugar não é mais o de um voyeur que observa o mundo, mas a própria lembrança evocada pela subjetividade. Não mais o lugar que evoca a lembrança, mas a lembrança evocando o lugar.

Este processo de rememoração é, paradoxalmente, exibido nos processos repetitivos e cumulativos da música. Digo paradoxalmente porque a rememoração teria por complemento uma conservação da lembrança, como um depósito em que nossas lembranças ficam armazenadas. Não me refiro a esta imagem de folk psychology. A rememoração aqui é um processo, por essência, falho. E a repetição funciona não como retomada de um algo armazenado, mas como passagem por esta lembrança, criação de um ambiente para que a lembrança “emerja”. O som da fita remete ao registro, mas a um registro que pode sempre ser apagado ou apagar-se ao longo do tempo. 

Apesar da stasis desta música, a lembrança é dinâmica. E a música oferece a stasis, mas a escuta se ocupa em relembrar. Como Tarkovsky uma vez disse (em Esculpir o Tempo, ou foi Deleuze em Imagem-Tempo ou fui eu mesmo sobre seus filmes, não me lembro): A imagem parada oferece uma imagem do tempo, na medida em que ela permanece, mas a forma essencial do tempo continua a mesma- enquanto passagem. A imagem estática exibe a forma dinâmica do tempo. Em outras palavras, e estas fui eu mesmo quem disse: O que vejo é estático, mas eu envelheço enquanto vejo. 
Antes falava da lembrança, agora falo do presente. Do ponto móvel que passa, mas a lembrança está lá, sempre, dando ao ponto a sua profundidade (seu “sentido”).

O disco é didático em sua sequência. “Prematuro”, a primeira faixa, composta originalmente para a coletânea NMEchá#2 (que conta também com a minha Matchá-noisecomposition II e foi lançada pelo coletivo paulistano de música experimental NME- http://nmelindo.bandcamp.com/) é a que exibe a forma básica do loop enquanto memória. Pouco mais de doze minutos com uma lenta deriva de texturas em feixe formando harmonias que são funcionalizadas por um bordão que aparece periodicamente. “Valsa”, por sua vez, começa a abarcar uma dimensão de “evento”, ou de “acontecimento”. Loops que aparecem e desaparecem depois de poucos segundos sem explicação causal dentro do mundo proposto pela música. Este terreno movediço em que coisas aparecem e desaparecem nos lembra mais uma vez Tarkovsky e seu Stalker, a Zona em que Stalker leva os visitantes, caracterizada por uma topologia (ou “grafia”) mutante, na qual lugares mudam uma vez que se passa por eles. Não mais se pode tomar o caminho de volta uma vez passado por um mesmo lugar. Aparece aqui mais uma vez essa palavra, e condizente com o sentido dado aqui: lugar agora não mais como aquele que evoca a memória, mas aquele evocado pela memória, e, como tal, mutável e ressignificado pela lembrança... ou quase-apagado. 

“Redoma” retoma em parte uma estabilidade maior, ao manter-se sempre num nível dinâmico médio-suave. A dinâmica (ou as intensidades) é muito importante no disco, ao remeter com frequência a um som ouvido à distância. A baixa intensidade da maior parte do disco, associada aos ambientes reverberantes das faixas remetem à ideia de distância. Mas uma distância íntima, quase sem espaço entre o sujeito de escuta e aquilo que escuta/lembra. Num certo sentido é como se o espaço da escuta se transformasse no tempo, na figura da reescuta de algo há tempos esquecido. Aqui invertemos a famosa máxima adorniana da “pseudomorfose com relação à pintura” enquanto espacialização do tempo. Poderíamos falar de uma temporalização do espaço, comum entre o disco de Cadu Tenório e outras iniciativas em músicas da estaticidade. 

“Ventre”, a última faixa do disco apresenta um processo no qual aquilo que estava atrás vem para a frente. Jogo de figura e fundo. Destaco a mudança operada a partir de 4: 55 na faixa, na qual um elemento que compunha a totalidade da textura, estando mais ao fundo da mesma, passa à dianteira, com um delay que multiplica os seus pulsos. 

Posso agora perguntar sobre a segunda questão que me acometeu na nomeação deste disco: Por que “Cadu Tenório”? Cadu diz que se sente mais seguro em assumir subjetivamente a responsabilidade pelo disco ao assiná-lo com seu nome. Mas o que é um nome, neste contexto? Cassettes é, por isso, mais “genuíno” do que suas outras produções? Cadu Tenório não passaria a ser aqui meramente e mais uma vez um índice de mais um projeto, um sinalizador de mais uma prática dentro do conjunto que sempre fez e continua fazendo a subjetividade daquele que criou. E que sempre foi responsável por ele? Ou seja, que sempre o criou?

J-P Caron

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