sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jacob Kirkegaard - Conversion (2013; Touch, Reino Unido)

























Por muito tempo, chamamos de arte aquilo que era (indiscutivelmente) harmonioso ou belo.  Pinturas e esculturas acompanharam o renascimento do comércio na Europa no século XV e ganharam espaço nas coleções particulares, tornando-se um item obrigatório entre a burguesia em ascensão. Curiosamente, a indústria da arte nasceu antes do artista propriamente dito. Somente na primeira metade do século XX, diante de obras que desafiavam todas as ideias pré-concebidas sobre beleza e obra de arte é que se fez necessária a discussão: afinal, o que define um artista? Para muitos, o artista está associado à miséria e ao trabalho pesado, beirando a obsessão, condenado a uma existência dopada e solitária. Como disse o poeta Bukowski: “os grandes poetas (artistas) morrem em penicos fumegantes de merda”. Diante dessa aura degradada que acompanha o artista e pegando carona nas vertentes mais radicais nascidas no século passado, surgiram novos conceitos como a anti-música e a arte marginal, problematizando ainda mais a questão.

Do ponto de vista estético, não existe uma arte marginal, pois a arte não mais se limita ao que é harmonioso e belo. Logo, o conflito se limita à indústria em si. Todavia, existe um mercado para a antimúsica, assim como existem consumidores ávidos por arte marginal. Afinal, sobre o que estamos discutindo? Tanto questionamento e debates que parecem não levar a lugar algum me fizeram largar o curso de artes, por volta do quarto semestre. Eles (professor e alunos) falavam demais, e eu só queria encher a cara e produzir meus trabalhos, envolto em todo aquele imaginário do artista trancado em seu quarto enfumaçado, saindo dele apenas para uma corridinha até o seu bar favorito. Hoje, sinto falta dessa formação.

Rompendo com os paradigmas, Jacob Kirkegaard é de fato um artista. Trata-se de um pesquisador disciplinado, com uma invejável bagagem e carga teórica. Em paralelo às suas composições, Jacob realiza leituras na Academia de Arte de Copenhagen, tendo como tema predominante o som. Conversion, seu trabalho mais recente, foi lançado pela Touch, selo inglês focado em sound art e field recordings. Seu trabalho não é emocional ou (propositalmente) intenso, é fruto de longas horas de pesquisa, onde cada som tem o seu devido lugar. Ao mesmo tempo em que novas frequências surgem para completar a estrutura de suas peças, tudo fora previamente calculado.

Conversion consiste em duas releituras: “Church II”, uma das quatro peças que compõem o LP 4 Rooms, de 2006 e “Labyrinthitis”, da peça homônima lançada em 2008. A primeira foi gravada em uma área isolada dentro da “zona de alienação” localizada em Chernobyl, na Ucrânia, na qual o som de cada sala foi captado e reproduzido em seguida para gravar novamente. Esse processo se repete por dez vezes, resultando em uma textura densa e rica em detalhes. O projeto “Labyrinthitis II” é ainda mais audacioso, explorando o universo da octoacústica: quando a soma das frequências de dois sons primários atinge os ouvidos, o mesmo gera uma terceira frequência conhecida como “tom de Tartini”, fazendo dessa o ponto de partida de “Labyrinthitis II”, que caminha em graduada progressão.


É importante (e ao mesmo tempo desnecessário) ressaltar o quão ambicioso é o conceito de ambos os projetos, transcendendo os limites da música e do som e agregando referencias que vão da medicina à geofísica, temas pouco comuns na metodologia de trabalho da esmagadora maioria dos músicos e artistas do som. Enfim, um trabalho minucioso que merece uma audição igualmente cuidadosa, no devido estado de espírito e com fones de ouvido adequados.

Thiago Miazzo




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