quinta-feira, 17 de abril de 2014

geocities.com/vaporwave


Seria o vaporwave uma crítica ao modelo neoliberal 2.0 que domina a política ocidental em defesa do capitalismo global ou seria uma ferramenta de propaganda desse sistema?

Em Meltdown, Nick Land faz uma estranha analogia entre o calor e as megalópoles: a cada passo, somos atingidos por rajadas de calor, e o encontramos em aglomerados, nos meios de transporte, em um deslocamento incessante entre o concreto e a biosfera. Não se trata de deter esse processo ou questionar-se: “devíamos detê-lo?”. É assim que as nossas grandes cidades se estruturam -  exatamente como elas foram planejadas.  Gradativamente, a tecnosfera avança sobre a biosfera, sem qualquer sinal de disposição para negociar um meio-termo, uma relação harmônica entre ambas as partes. A identidade cultural e individual é esmagada por um modelo global que emerge como uma grossa nuvem de fumaça. Vapor em tudo que nos rodeia, emanando do asfalto quente e de nossos aparelhos de inalação. Não se parece em nada com os romances cyberpunk, tampouco o que idealizávamos em um viés puramente dedutivo com base no desenvolvimento técnico-cientifico. Ano 2000, esperávamos mais de você.

Nem Jetsons, nem ‘Chemical Plant Zone’:  se a guerra fria serviu para alguma coisa, foi para alavancar as produções que flertavam com a ficção científica. Em suma, era mais fácil especular sobre o século XXI em 1970 do que faze-lo nos dias de hoje. Como explicar para nossos entes queridos (e já falecidos) que ultrapassamos a barreira do ano 2000 sem um carro voador, um apocalipse nuclear ou uma revolução dos ciborgues? E mais do que isso, como viver sem uma data para que isso aconteça?  O futuro é o hoje: a prótese robótica e a usina radioativa que vaza sem sair nos jornais. Mas para nós, ninguém voa e ninguém morre.

Para entender o vaporwave, é imprescindível mergulhar de cabeça em dois discos: Eccojams Vol 1, de Chuck Person (alter-ego de Daniel Lopatin) e Far-Side Virtual, de James Ferraro.  Ambos desenvolveram ao longo de sua formação musical uma notável capacidade de explorar, coletar e reproduzir sons do espaço urbano e ruídos que acompanharam a revolução técnico-cientifica das duas últimas décadas, criando loops e beats que vão do hipnótico ao sensual, flertando com a estrutura do pop e do RnB. A perspicácia que envolve a coleta de samplers denota uma elevada sensibilidade artística: são sons e ruídos tão comuns ao cotidiano moderno que acabam por se tornar imperceptíveis ao ouvinte médio. Não é futurista, tampouco nostálgico. Pertence genuinamente ao presente. 

Capitalismo global: a gente se liga em você! – Seria o vaporwave uma ode ao sistema vigente ou um opositor? Nem um, nem outro.  Partindo da filosofia pós-kantiana, o cientista deve abster seus valores do objeto de estudo, o que se torna um tanto delicado quando o assunto em pauta é o capital. Aparentemente, o vaporwave encara a hipermodernidade como uma ferida que não pode (e nem deve) ser estancada - qualquer intervenção cirúrgica tem como consequência o desencadeamento de uma hemorragia. A ausência de uma solução ou a impossibilidade de interferir no objeto de análise anula por completo a necessidade de ser contra ou a favor. As técnicas oriundas das field recordings se fazem presentes, substituindo o meio rural pelo espaço urbano. Ao invés de um estúdio, um home-studio. Um pedal de reverb que simula não uma catedral ou um corredor, mas o que se escuta no alto do maior prédio de hong kong ou na vida noturna de Bangkok. REAL LIFE AWAITS US.

Thiago Miazzo

Um comentário:

Gustavo disse...

Genial, me deixou mais interessado ainda sobre esse gênero emblemático e cheio de significados.