terça-feira, 8 de abril de 2014

Henrique Diaz – Coalhado (2014; Desmonta, Brasil)

























As possibilidades de confluência entre estilos e sonoridades diferentes são, hoje mais do que nunca, infinitas e imprevisíveis e cada vez mais a noção moderna de artista se desenvolve ao redor delas. O autor de uma obra não é mais aquele que tem um mundo interior oculto e magicamente inspirado, mas sim o que é capaz de absorver os fenômenos — artísticos ou não — que chegam até seu conhecimento e ressignificá-los de maneira implícita ou explícita. O guitarrista e compositor Henrique Diaz realiza esse processo de maneira sutil, tudo que serviu de base para a sua criação musical está insinuado nas suas particularidades enquanto autor. Como integrante do Baobá Stereo Club, trio instrumental do qual faz parte ao lado de Bruno Gold e Paulo Soares, Henrique apresenta grande versatilidade e originalidade na guitarra, utilizando-se muito de tonalidades suaves e com pouca distorção, influência direta do jazz, mas com uma interpretação que abrange desde as oitavadas de Wes Montgomery até o simplismo bucólico de Vincent Gallo. Em 2014, porém, o músico realizará um projeto de solista. Coalhado será uma série de quatro discos instrumentais, que serão lançados ao longo do ano, nos quais Henrique compõe, executa, grava e mixa todas as faixas.

Ainda que suas idiossincrasias não tenham sido deixadas de lado, o primeiro disco do Coalhado, lançado em 21 de Fevereiro, apresenta uma nova diretriz para Henrique Diaz. As faixas do álbum são específicas, existem determinadas sonoridades que constituem a maior parte da obra e essas fragmentam a mesma na medida que se fazem mais ou menos presente em cada música. No entanto, todas atingem uma atmosfera igualmente onírica, o que parece ser a característica comum entre elas ao ponto que, mesmo com arranjos, ritmos e identidades distintas, constituem uma obra singular e una. Como em um sonho, as mudanças e contrastes internos da obra são evidentes e facilmente percebidos, mas existe uma bruma de indeterminação no ar, cada momento é vivido como se não houvesse diferença entre eles. É como se o ambiente fosse uma ilusão, o que importa é o ser momentâneo, a multiplicidade é desprovida de consistência. Mas essa característica não dá ao disco um tom repetitivo, ou monótono, muito pelo contrário. As diferentes facetas que a essência do trabalho toma carregam muita autenticidade e singularidade, é o rearranjo desse ponto em comum que as torna envolventes.
 
“Oração pra Alguém” é a música de abertura e uma amostra representativa das novas diretrizes que Henrique toma em Coalhado. As batidas eletrônicas sobrepostas que se acumulam progressivamente dão o tom minimalista que será mais explorado ao longo do álbum. Em “Damascos Frescos lá do Natural” e “Última Dança” essa característica também norteia os seus desenvolvimentos, porém, dessa vez com arranjos de piano no qual notas e frases repetitivas são usadas para criar esse efeito. A primeira segue uma linha semelhante àquela do compositor americano Steve Reich no que concerne à dinâmica entre notas repetitivas e ritmadas e melodias fragmentadas que permeiam o decorrer da música. A segunda não se diferencia tanto disso, porém, dessa vez o intuito do músico parece mais pop ao se utilizar de melodias mais lineares e fazer mudanças harmônicas de escala maior para menor. Nesse caso, a identidade da música se constitui mais a partir dos diferentes entornos da linha melódica principal do que diferentes melodias que modificam uma base constante.

Outro par de faixas que podem ser analisadas de maneira semelhante é “De Alguma Maneira Existe Ali” e “Pra Onde Aponta a Lua”. Em ambos os casos, existe a sensação de um andar confuso construído através da relação entre o ritmo, a harmonia e suas texturas. Os pés, caminhando quase automaticamente, são representados pelo ritmo constante, percussões eletrônicas que mantém o resto do arranjo progredindo ininterrupto a vagar. Os teclados eletrônicos, acústicos, violões e guitarras distorcidas ou em reverso contemplam a paisagem também quase imutável que é percorrida. O olhar em volta é o seu próprio objeto, o que há para ser visto permanece no campo da indeterminação e o ambiente etéreo persiste enquanto finalidade estética.

Nas composições para violão “Muito Ruído Enfim” e “Tarde de Chuva no Cabo Polônio” a influência principal parece ser o progressivo inglês, em especial, os músicos Steve Howe e Robert Fripp. Logo no começo de “Muito Ruído Enfim” é perceptível a exploração do som das cordas de aço na linha da fase clássica do Yes e, posteriormente, há um desenvolvimento mais particular da alternância do baixo acompanhado de uma harmonia mais estável. “Tarde de Chuva no Cabo Polônio” é um dueto de violões que se utiliza do intervalo entre notas, assim como da sobreposição das mesmas, e uma percussão inconstante como aspectos principais criando, como explicitado no título, um ambiente de tarde chuvosa e singularizando-a enquanto única faixa do disco que não se insere totalmente na estética abstrata que permeia a obra. Voltada para um lado menos acústico, ainda que conferindo importância rítmica para o violão, “Estrada de Terra e Lama” também apresenta aspectos da linha progressiva. É no trabalho de guitarra, no entanto, que esse lado se faz mais perceptível. O ritmo constante e a repetição incessante do curto tema apresentado lhe conferem um peso comparável àquele que Tony Duhig tornou uma característica marcante do duo inglês Jade Warrior.

A música “Fim” é o término do primeiro volume do Coalhado e consiste de uma sobreposição de uníssonos fragmentados e um teclado rítmico, ambos eletrônicos e o último contínuo. É interessante notar que o final da obra explicita o que parece ser a sua característica principal. O lado onírico do disco não se faz presente através de elementos concretos ou imagens que remeteriam aos sonhos. É a momentaneidade que o caracterizam como tal, as imagens que podem emergir desse contexto são infinitas e, ao mesmo tempo, não tem nenhum significado em si mesmas. No final, não é um elemento definido e alheio ao processo que determina o término da obra, mas o seu próprio acabar. Ainda mais hoje, quando a radicalidade da forma é tão bem vista pelos experimentalistas, Henrique Diaz surpreende com sua sutileza, particularidade e sem deixar de inovar sob a luz dessas características.

Gabriel Marques

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