terça-feira, 27 de maio de 2014

Croatian Amor - Genitalia Garden (2014; Posh/s/g, Dinamarca)

























O novo álbum do Croatian Amor começa com loops de vozes falando um idioma estranho, após o que aparece um som grave de synth. À textura das vozes e o synth adiciona-se a percepção do caráter antiquado do som, um discreto tape hiss vem emprestar uma aura suplementar à música. As vozes se multiplicam e um beat com delay aparece até a entrada de um tema de três notas permutadas. O cenário está montado. De resto, variar, ampliar e reduzir.

Croatian Amor é um dos inúmeros projetos de Loke Rahbek, figura por trás do selo dinamarquês Posh Isolation, especializado em projetos de noise/power electronics e punk/raw black metal que tem feito inúmeros adeptos ao redor do mundo, dentre os quais conta este que vos fala. Além do Croatian Amor, Rahbek assina trabalhos solos como LR (destaco o heteróclito The Bullfighters of Rhonda, coleção de field recordings e peças inacabadas), tocou na banda black punk Sexdrome, além de compor o Damien Dubrovnik com seu parceiro de Posh Isolation, Christian Stadsgaard, entre outros.

Ezra Pound dizia propor um método de composição ideogramático para a poesia. Neste, diferentemente de um discurso articulado por cláusulas subordinadas — como orações que dependem umas das outras — haveria como que a construção de um todo por justaposição de elementos sem hierarquização mútua. Este tipo de construção seria uma tentativa de, a um tempo, pela proximidade dos elementos díspares, exibir algo que estaria escamoteado nos elementos isolados individualmente e que se tornaria manifesto somente no ato de justaposição; de outro lado, de compor uma nova totalidade com estes elementos. 

Algo deste método permeia as produções do Croatian Amor e, ousaria dizer, de boa parte da produção da Posh Isolation. Mas enquanto em Pound o método é usado para articular toda uma paideuma — uma seleção retrospectiva e histórica que procura criar novas sínteses de pensamento para o presente histórico — nas produções do Croatian Amor são universos íntimos que são recriados, com o ajuste de escala que isto exige. As faixas não são longas, não excedendo os seis minutos e pouco de duração. Em uma entrevista recente publicada na Distort (revista australiana de cultura underground e filosofia que indico), Loke diz que nunca foi à Croácia. Os nomes utilizados são como gatilhos para um universo imaginativo particular. 


Em Croatian Amor, algo de sórdido espreita por entre as melodias fofas e sobreposições de gravações de campo. Faixas como “Archers in the Balcony”, “The Mermaid Trade”, “Slim Stomachs” parecem apontar para um universo fetichista de festas, tráfico humano e turismo sexual. A idéia de uma cidade portuária (Dubrovnik, que dá nome ao seu outro projeto), a densidade de idas e vindas, e os encontros sexuais que isso proporciona parecem ser alguns dos motes do Croatian Amor. O ruído de fita destas faixas insinua o caráter particular delas — algo como uma gravação íntima, não masterizada para a audição pública (caráter inacabado cuidadosamente acabado, claro. A maior parte dos lançamentos da Posh Isolation sai em cassettes) — o som de vozes, de pedras sendo jogadas umas contra as outras, o som do mar, do burburinho de uma festa, como registros de uma memória individual que se confunde com um determinado universo externo. A subjetividade representada como agenciamento de figuras estranhas umas às outras.



A posição hedonista está presente musicalmente pelo constante flerte com o pop. Cada faixa possui sua identidade bem determinada como uma justaposição de elementos que incluem quase sempre uma melodia de sintetizador — como uma referência a um universo musical de fácil mercantilização, mas que é tornada estranha pela relação com os outros elementos. O hedonismo presente no Croatian Amor é ele próprio uma imagem e não uma realidade. A facilidade pop é apresentada, sim, para seduzir, mas, em seduzindo, apresenta a própria sedução. Operação típica de uma geração para quem o aspecto de intimidade não necessariamente revela intimidade. 

Uma foto íntima exposta na internet é ainda uma foto íntima? De certa forma sim, é uma janela para um mundo ao qual publicamente não se teria acesso. Mas a apresentação pública daquilo que não pertence à esfera pública revela um desejo de estetização da vida, e no caso do Croatian Amor, esta estetização pode abranger seus aspectos mais pornográficos, problemáticos e até grotescos. Mas não estamos tampouco ouvindo uma produção de power electronics na qual a violência sexual é exposta como um soco na cara do ouvinte. Aqui é o aspecto casual das relações de poder é que se sobressai. 

A relação entre a exposição íntima e a troca comercial parece permear toda a música e visual do projeto, como uma versão pornográfica da ética do vaporwave que Miazzo tão sucintamente expôs anteriormente: enquanto este se apropria dos símbolos públicos do capitalismo tardio interiorizados na música, aqui são os sintagmas de uma intimidade perdida que são tornados públicos e acessíveis para compra e venda. 

Haveria também um discurso de gênero escondido por entre estas faixas? Estas operações simbólicas parecem exatamente quererem escapar a um discurso. Um elemento não fecha com o outro uma totalidade lógica, ainda que apresente uma espécie de totalidade, fraturada e aberta a associações. Uma referência a um lugar aonde nunca se esteve é ainda uma referência a um lugar? 

Ouvindo Genitalia Garden a pergunta se torna: que espécie de lugar é este?

J-P Caron



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