quinta-feira, 22 de maio de 2014

J.-P. Caron - ST (Sinewave; 2014, Brasil)

























A melodia que rodeia a casa não se faz escutar dentro dela. Do lado de dentro, a sensação de segurança que encontramos em nossa poltrona favorita cria o ambiente perfeito para alcançar o devido grau de relaxamento e imersão que algumas músicas exigem do ouvinte, auxiliado por um bom par de fones. Pode ser uma limitação minha, mas não alcanço esse estágio longe do meu velho cinzeiro e daquilo que não apenas decora e reflete o meu gosto, mas que me complementa e protege. Para uma desatenta audição fora de casa, dou preferencia aos padrões rítmicos e fones com pouco isolamento. Logo, um fone que suporte as surras do meu desleixo aliadas aos transtornos de uma megalópole atende aos meus caprichos. Para o cotidiano, priorizo aquele que eu não sinta tanto remorso ao guardá-lo embolado no bolso, enroscá-lo na bolsa alheia em um ônibus lotado ou arrancá-lo acidentalmente ao tirar a camisa. Eu vivo dando dessas.

 Como uma consequência da praticidade advinda da era digital, adotamos uma postura mais defensiva com relação à música. A ideia de programar as suas rádios favoritas não existia até um passado relativamente recente.  Ao mesmo tempo em que elas oferecem um mínimo de prazer para suportar as longas jornadas que permeiam a nossa rotina, acomodam e alienam. Sem perceber, estamos cada vez mais atrelados a uma bolha de conforto que nos afasta de novas experiências e descobertas musicais. Mesmo aplicativos como Spotify e Last.fm, supostas pontes entre o indivíduo e novas músicas, reproduzem esse modelo alienante e limitam o ouvinte a aquilo que lhe é familiar. É importante ressaltar que a carga pessimista contida neste parágrafo não retrata o meu pensamento em sua totalidade. A rede oferece a liberdade de escolha através de seu mecanismo de busca e encontra na inércia de seus usuários uma forma de se assentar. A era digital não opera com base no risco, tampouco tem fins educacionais. Eles sabem muito bem que fugir desse modelo poderia acarretar em um suicídio comercial, e girar dinheiro é a única regra do jogo.

Nem a vida e tampouco a música podem ser voltadas apenas para o prazer. Pode parecer obvio, mas na prática não é bem assim. O tempo é curto e algumas pessoas são cruéis com aquilo que lhes parece incerto. Não manjo da vida da mesma forma que manjo de música, mas aprendi que o desafio  é um denominador comum. Por mais que você esteja habituado a angariar elogios, sempre haverá alguém pra te dizer que “ficou uma merda”. Dói, mas o mundo não gira ao redor do seu umbigo. Infelizmente, também não orbita o meu. Nem todos os músicos buscam entreter. Ao mesmo tempo, todos (sem exceções) querem ser ouvidos, fazendo de seu público aquele que supera o estranhamento e o mal-estar iniciais, aqueles que simplesmente se deixam levar. Por mais viva e imponente que essa música pareça ser, se dissipa como um fantasma se algo interfere. E esse algo pode ser estridente como um telefone residencial ou pode se apresentar como o mais sutil dos ruídos externos. Não é sólida, mas desmancha no ar. Não tem jeito, um disco de drone pede bons fones e algum tempo sozinho. Não é e nunca será música para socializar.

Apesar das ressalvas, o debut de J.-P. Caron se trata de um registro delicioso, cheio de microdetalhes para esmiuçar, que só pede em troca pouco mais de uma hora de sua mais completa dedicação. Arrisco dizer que ele soa muito melhor com ritalina. Estar tranquilo é um fator importante para desfrutar o trabalho de uma forma mais adequada. Evite as pausas e distrações paralelas. Ignore os gifs de gatinhos. Deixe seus olhos percorrerem toda a sala e o Caron mostrar para que veio. A longa duração de 8² pode assustar os ouvintes mais despreparados, mas que ao mesmo tempo que se desenrola, suga toda a sua atenção, sem abrir brecha para o tédio. Movimenta-se com cadencia, sem pisar em falso ou perder seu caráter contemplativo. Esse clima se faz presente até os instantes finais de "Momentum I (Para Giacinto Scelsi II)", que guarda uma das passagens mais bonitas do álbum, quando um quarteto de cordas conduz o álbum ao derradeiro fim. Não é musica de replay, tampouco cabe em um excerto. Não atende aos seus caprichos nem se preocupa com o seu precioso tempo. É o tudo ou o nada. Nem sempre amada, mas jamais domada.

Thiago Miazzo


O debut de J.-P. Caron encontra-se disponível para download na pagina da Sinewave

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