segunda-feira, 19 de maio de 2014

Of Montreal – Skeletal Lamping (Polyvinyl; 2008, EUA)

























Começando no final da década de 90 como parte do coletivo Elephant 6, o grupo Of Montreal, liderado por Kevin Barnes, foi de grande importância para a consolidação do revival sessentista na cena indie durante sua primeira fase e, consequentemente, essencial para o entendimento do estilo nos últimos 10 anos. No entanto, o desdobramento que essa tendência apresentou em grande parte dos grupos que a adotaram difere daquele que Kevin Barnes, como compositor, arranjador e cantor, possibilitou que o Of Montreal apresentasse no que se pode chamar de uma segunda fase na carreira da banda (mais claramente a partir de 2004/2005).

Como pode ser notado em grupos que emergiram também do Elephant 6, desde a segunda metade dos anos 2000 até o início dos anos 10, refletia-se no som daqueles o folk e o pop dos anos 60, o synth pop dos 80 e o indie dos anos 90 de maneira que cada uma dessas influências se fazia presente nos arranjos e nas composições da cena, direcionando majoritariamente seu desenvolvimento. É, contudo, exatamente no período citado que Barnes consolidou a diretriz artística que levaria o Of Montreal para um lugar radicalmente distante daquele de seus contemporâneos. Em 2007 o grupo lançou o que seria o marco dessa mudança de paradigma, o disco Hissing Fauna, Are You The Destroyer? e, com ele, a exposição das características decisivas da nova fase de criação musical de Barnes. No ano seguinte, em 2008, a banda leva a proposta do disco anterior ao seu desenvolvimento mais pleno. Skeletal Lamping é a mais pura forma que as ideias consolidadas em 2007 por Kevin Barnes tomaram no decorrer de sua carreira, sendo, então, objeto de análise indispensável para o entendimento dessa guinada, de caráter ímpar, que o Of Montreal apresentou na segunda metade dos anos 2000. Na composição da obra citada, podem ser analisados aspectos musicais e aspectos metamusicais, nos quais os sons e a estrutura evidenciada no disco são aliados para que haja uma melhor exposição dos conceitos e ideias de Kevin Barnes acerca do seu trabalho. 

No que concerne aos aspectos musicais em si, as influências que se projetam de forma direta através das invenções de Barnes em Skeletal Lamping já apresentam um aspecto importante para a diferenciação do Of Montreal em relação à cena da qual o próprio foi um pilar importante. Como afirma Kevin Barnes, o disco aponta para todos os lados. Apresenta aspectos importantes baseados no pop, tanto o pop psicodélico dos anos 60 e início dos 70 como o afetado e dançante pop do Prince, e o funk norte americano dos anos 70. O Krautrock alemão, em especial do Can, a música clássica contemporânea, com enfoque no movimento minimalista e nas sonoridades de Krzystof Penderecki e as colagens esquizofrênicas de Merzbow podem, também, ser facilmente notados como diretrizes que as faixas do disco tomam, as vezes em conjunto e as vezes separadamente. A lente através da qual todas essas influências são enxergadas, no entanto, é que tem maior peso na interpretação vocal de Barnes e possibilita a exploração do material poético tal como ela é feita. Durante toda a obra, Barnes interpreta o seu alter ego, criado e primeiramente citado em “Hissing Fauna”, Georgie Fruit, um músico de funk rock do final da década de 70, bissexual, estadounidense, de quarenta e poucos anos, que já passou pela prisão duas vezes e o mesmo número de vezes trocou de sexo. É através de Georgie Fruit e sua afeminada esteria que Kevin Barnes afirma ter maior desenvoltura ao tratar de forma explícita a sexualidade burguesa e, como faz transparecer o desenrolar da obra, utilizar-se dela como metonímia dos valores culturais da burguesia e o seu significado na contemporaneidade.

Aliados da grande variedade de sons e influências que são expostos no disco e, em certas instâncias, responsáveis por essas características tais como apresentadas por Barnes, existem outros dois aspectos essenciais a serem analisados para a compreensão da relevância artística de “Skeletal Lamping” para a música pop (e não só para ela) atual: a estrutura musical das faixas, separadas e em conjunto, e a relação que esta guarda com o material sonoro propriamente dito. Quanto ao primeiro aspecto, para uma análise mais clara, é interessante que a estrutura de cada faixa, que se repete incessantemente ao longo do disco, seja o objeto em foco num primeiro momento. 

Em “Skeletal Lamping”, Barnes optou por levar ao extremo uma característica que já tinha certa relevância no processo de composição da fase pós 2005 do Of Montreal. Cada música do disco é constituída de partes claramente perceptíveis e inteiramente diferentes entre si. Uma resenha de música por música seria de pouca relevância reflexiva exatamente porque cada faixa do álbum é, por si só, constituída de diversas pequenas partes. Cada um desses fragmentos tem uma “personalidade” muito definida e distinta dentro do conjunto de cada música ao passo que, de uma parte para a outra, podem ser percebidas mudanças de ritmo, arranjo, melodia e do estado de espírito que Kevin Barnes deseja imprimir nas mesmas. Vale frisar que essas mudanças não são paralelas à esquemática pop tradicional “introdução – verso – refrão” pois cada parte inaugura uma nova intenção, muitas vezes um novo tom e o retorno a uma “melodia principal” anterior é quase inexistente. Um exemplo significativo desse proceder estrutural já se faz completamente explícito em “Nonpareil Of Favor”, a primeira música do álbum. O pop dançante e animado, adornado de harmonias vocais e um cravo, em menos de dois minutos, dá lugar para um metal minimalista que martela a mesma nota em um ritmo incessante até o final da faixa. É interessante notar que a inconsistência de cada música enquanto uma unidade fechada dá lugar para a unidade do álbum baseada na inexistência de núcleos musicais característicos no seu decorrer. A mudança é constante e a estruturação das letras e “moods” contemplados por Barnes guardam um paralelo estético, e somente estético, com o “fluxo de consciência” na literatura, no qual o processo de criação de um texto (no caso, texto e música) não apresentaria uma estrutura de pós organização, o pensamento seria impresso de maneira direta no material artístico.


O segundo aspecto citado apresenta não apenas características musicais, mas uma rede de conceitos que dialoga com as últimas. Kevin Barnes, de maneira expositiva, contempla a indústria cultural, suas consequências e, por mais controverso que possa parecer, se utiliza da mesma para tentar escapar de seu aprisionamento. O processo de fetichização musical, decorrente da reificação dialética entre público e obra dentro do mercado, se desdobra em dois aspectos que são imitados, expostos e, no entanto, utilizados como material de exploração artística afim de serem evitados.

Primeiramente, a valorização de melodias e momentos isolados em contrapartida com a apreciação da totalidade de uma obra. Esse processo, como descrito por Adorno, se dá pois a fragmentação puramente numérica e objetificante das obras de arte , consequência do papel que estas adquirem num contexto de comercialização, as reparte em “pedaços” que se projetam melhor ou pior no mercado (a “verdade” da totalidade artística é desprovida de prestígio). Mimetizando esse processo, Kevin Barnes constrói “Skeletal Lamping” a partir de uma junção de fragmentos que, num primeiro momento, aparentam não apresentar nenhuma coerência entre si e se sucederem de maneira abrupta. Cada um deles se projeta sobre o outro como numa batalha pela atenção do ouvinte e é apresentado como uma ideia autossuficiente. É a necessidade compulsiva da produção de hits, tanto por parte do público quanto dos produtores, que Barnes imprime de maneira radical na obra. Ele a leva a um ponto extremo no qual o proceder de um artista ,degrado e coisificado, para com um público que apresenta uma apreciação fetichizada e regressiva resulta na completa compartimentação e descaraterização de sua obra. Ela perde o seu caráter auto significante para se tornar um objeto de troca e, com isso, ter seu valor e sua finalidade determinados pela projeção que estes fragmentos possuem na lógica do espetáculo e do consumo.



O segundo aspecto do qual Barnes se utiliza é colocado com muita clareza por Rodrigo Duarte, quando faz alusão à estética idealista clássica de Kant, nos seus escritos sobre a indústria cultural no Brasil. Analisando o inversão que a mentalidade burguesa causou na valorização artística e, consequentemente, na sua produção, o filósofo brasileiro esquematiza esse processo da seguinte maneira: a estética idealista toma a arte como “o proposital sem propósitos” e a estética burguesa como “o desproposital com propósitos”. É interessante notar como Kevin Barnes se utiliza dessa ideia ao inverter a própria inversão, se utilizando do desdobramento material e contemporâneo do conceito que ele deseja quebrar. A mimetização da extensão “palpável” e contemporânea da inversão exposta por Rodrigo Duarte toma um papel central na recusa de Barnes a esse modelo. A já citada exploração da sexualidade burguesa e a estética que permeia o álbum na sua totalidade, incorporada através de Georgie Fruit, conferem ao “Skeletal Lamping” semelhanças inegáveis com a música pop de massa atual. Tanto o baixo quanto os vocais são exemplos esclarecedores em se tratando desse aspecto. O que Barnes realiza ao formar ambas essas partes de sua criação musical é conferi-las uma aparência enganosa, uma semelhança superficial com as convenções estilísticas que dominam a música pop comercial no século XXI. Essas características principais são mimetizadas em sua sonoridade, mas o que há por trás delas se constitui como outra coisa, um pop abrangente e elaborado que projeta Kevin Barnes como um dos maiores inovadores da música pop contemporânea. É nessa dualidade, então, que Barnes põe em prática a inversão citada. Ele se utiliza da sonoridade de um fenômeno musical, expõe a teorização acerca do mesmo e, utilizando-se dos aspectos puramente estéticos desse tipo de música, tenta criar algo que visa romper com essa teorização. 

Em “Skeletal Lamping”, Kevin Barnes contempla o pop atual em sua decadência ontológica para construir uma nova diretriz para o mesmo. Apoiado na possibilidade contemporânea de apreensão de uma enorme gama de referências musicais, o músico resignifica os problemas que a “música ligeira” enfrenta enquanto fenômeno artístico legítimo e canta as suas ruínas para poder reconstruí-las. 

Gabriel Marques

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