quarta-feira, 6 de agosto de 2014

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Casino Night Zone e o advento do late night lo-fi


2,55 segundos: esse é o tempo que Sonic, o porco-espinho mais rápido do mundo, leva para apresentar seus primeiros sinais de tédio quando não manuseamos o joystick .  A seguir, confere o relógio quatro vezes e, após dezesseis segundos de inatividade, deita-se no chão.  

10 minutos: é o tempo limite para concluir qualquer estágio em Sonic 2. Uma lei natural e imutável dentro do jogo, contra a qual não se pode lutar. Parece uma eternidade quando se é criança, mas o tempo passa de uma maneira diferente dentro da Casino Night Zone. Em um mundo com pouquíssimos inimigos para se abater e muitas formas de se ganhar (ou perder) anéis e vidas extras, o relógio parece trabalhar contra nós.

No poema épico “A Odisséia”, Ulisses e seus marinheiros se deixam envolver pelos encantos de Circe, vivendo por alguns anos em sua ilha e ignorando por completo o objetivo de sua viagem e o passar do tempo. Circe representa a destruição e o desejo como os dois lados de uma moeda – mais do que isso, possuí a capacidade de desvincular o homem de sua habilidade de reconhecer e organizar a ocorrência do tempo através de sua percepção. Circe não foi a única, no decorrer da história documentamos um sem-número de relatos envolvendo “estranhos lapsos temporais”, eventos que por muitos séculos foram explicados através da magia e das criaturas fantásticas. Com o advento da sociedade pós-industrial, percebe-se a ascensão de um novo tempo social de caráter disciplinador, totalmente oposto ao modelo biológico. Em suma, o tempo se tornou um dos mecanismos de opressão mais cruéis ao qual somos sujeitos, representado através do relógio que não mais se limita ao ambiente de trabalho, mas também se faz presente na arquitetura dos grandes centros urbanos. Não muito diferente do conceito de ‘arquitetura hostil’, tão comum nos debates recentes sobre urbanização. De forma mais sutil, o relógio desempenha o mesmo papel dos bancos Camden, muros com cacos de vidro, espetos, lanças e da ‘arquitetura antiskate’: tornar o espaço público uma ponte entre a sua casa e o mercado de trabalho e minimizar o comportamento tido como antissocial e a interação entre as pessoas.

Late night lo-fi:  a noite é um estado pleno, sem nuances. E é exatamente assim como o late night lo-fi se propõe a soar. Tendo o Luxury Elite como um de seus principais representantes, o subgênero deriva do glo-fi e do hypnagogic pop, recorrendo com frequência às linhas de baixo calcadas na italodisco e sintetizadores. Conceitualmente, foca-se no imaginário da vida noturna nas grandes cidades – o caminhar apressado e atento pelos bairros comerciais, chegando finalmente às casas noturnas, com seus salões de jogos e ambientes desprovidos de janelas e relógios. Nota-se que a ausência do relógio não tem qualquer preocupação em criar um ambiente aconchegante, livre das mazelas urbanas pós-industriais, tudo faz parte do jogo: Não há relógios na Disneylândia. Não se diferencia o dia e a noite dentro de um cassino em Las Vegas. Não são poucas as casas noturnas que desligam sorrateiramente seu sistema de ar condicionado, levando seus frequentadores a beber mais por conta do calor. Tais ardis e armadilhas relacionadas à existência noturna parecem ser um objeto de fetiche no universo do late night lo-fi, abordadas com elegância e sutileza. Invariavelmente urbano, o late night lo-fi retrilha uma cidade sem nome, com a qual todos os habitantes dos grandes centros conseguem se identificar. E é justamente a existência de uma “cultura noturna global” que permite a ascensão de um subgênero de conceito tão limitado, mas aberto a infinitas interpretações.

Thiago Miazzo

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