terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Hiper-instrumento: entrevista com J.-P. Caron e Marcos Campello




























J-P Caron é músico, compositor e filósofo. Além de desenvolver um trabalho próprio, participa dos seguintes projetos de música eletrônica extrema: -notyesus> (com Rafael Sarpa) e Epilepsia (com Henrique Iwao). Lançou recentemente um álbum solo pelo selo paulistano Sinewave, e esteve por trás de alguns eventos e movimentos mais importantes de música experimental no Brasil — o Encontro Nacional de Compositores (ENCUN), o Festival Outro Rio, entre outros.

Marcos Campello é guitarrista do trio instrumental de free jazz/no wave Chinese Cookie Poets, além de improvisador solo. Seu trabalho com a guitarra envolve algo do suingue e do balanço do violão de João Bosco e a pequisa de timbres e métodos desenvolvida pelo guitarrista britânico Derek Bailey. Lançou recentemente um disco com o Chinese Cookie Poets pelo selo QTV.  

No disco Oco, lançado em 2014, Caron e Campello utilizam piano, guitarra e “objetos”. É todo material necessário para que dois dos maiores improvisadores da atualidade desenvolvam um diálogo entre múltiplas sonoridades, através de intercâmbios imprevistos e estratégias de tensionamento e relaxamento. Oco foi lançado em 2014 através do selo dirigido por Caron, o Seminal Records, e estreia em formato show no dia 10/12 como parte da programação do Festival Novas Frequências. A conversa abaixo foi realizada por email. 

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Falem um pouco sobre como nasceu essa parceria. Como vocês se conheceram, em qual contexto? Plano B? Clássico ou popular?
Caron: Nos conhecemos desde 2002, na verdade, no contexto de estudos de composição que fazíamos na época, eu na Unirio e Marcos na UFRJ. No entanto a distinção clássico e popular já na época não fazia sentido para a gente, cada um tendo tido projetos que se incluíam tanto no contexto “de concerto” quanto no contexto popular ou “underground”, como era o caso do citado Plano B, que ambos habitamos por muito tempo tocando e frequentando a partir de seu início em 2004, além de outros lugares que quebravam com essa polaridade.

Quais as principais ideias e materiais que estão por trás de Oco? Houve algum método particular? Alguma história acerca da sessão de gravação?
Caron: A história particular foi: encontrei o Marcos em um show na Audio Rebel, já não me lembro qual. Falamos: "tem um piano aí. Vamos gravar algo?" Se me lembro bem, uma semana depois fomos lá e gravamos o disco em 3 takes — cada um dos quais é uma faixa do disco. O piano estava convenientemente desafinado e com algumas teclas quebradas, elemento que foi importante para o som do álbum.

Marcos: Isso, tinha esse piano que estava de passagem por lá, durante uma mudança, e foi colocado na sala grande. E ele seria retirado no fim da semana, então não tínhamos muito o que pensar. Me lembro que usei um microfone pro som acústico da guitarra e outro no amplificador, que ficou escondido num canto pra não vazar muito nos outros microfones. Acho que isso foi o máximo de definição a que chegamos nessa sessão.



Caron toca objetos e ruídos? Qual seria a diferença?
Caron: Bom, quando digo ruído, não faço menção à fonte sonora. Quando digo objetos, me refiro à escuta do som típico de algum material: vidro, madeira, a caixa de ressonância do piano, etc... Acho que usei as duas palavras um pouco para me referir àquilo que comparece intencionalmente (os objetos usados) e aqueles sons que apareceram na gravação sem que eu tivesse muita consciência. Nesse sentido, ruído aqui é uma dimensão inconsciente de algo que penetra na mensagem a ser veiculada, mas sem interrompê-la.
  
Como vocês definiriam esse trabalho? Vocês tocam e trabalham muito,mas escolheram esse disco para editar. O que vcs consideram como pontos fortes do disco?
Caron: Na verdade, como dissemos, não escolhemos. O resultado nos escolheu. Foi tudo muito natural. Marcamos, tocamos, gostamos muito. E gostamos principalmente do fato de ter, no processo de gravação, ali, em tempo real, ter aparecido um hiper-instrumento. Era como se os sons de um instrumento viajassem para o outro, modos de ataque e de tocar de um e outro se comunicassem como se fossem uma coisa só, para depois se dividir novamente em dois. Isso aconteceu muito naturalmente, esse plano foi traçado através de nós, mas não sei o quanto ele resulta de nossa intenção individual.

Marcos: Esse disco é algo especial dentre as coisas que já fizemos, até porque foi a primeira vez em que tocamos em duo. Ele é especial porque nasceu mais de um interesse de tocarmos juntos do que da idéia da música que faríamos. Por isso também acho que ele já veio pronto. E na minha concepção ele é antes de tudo o registro físico da urgência de um encontro entre amigos numa situação muito específica.

Há uma necessidade "baileyana" de de-reconstrução não somente o som dos chamados "intrumentos tradicionais", mas de desafiar a própria expectativa que se tem deles. Falem um pouco sobre esse aspecto.
Marcos: Não vejo isso como necessidade, talvez mais como decorrência da quebra da hierarquia entre o som tradicional e o marginal. E certamente é um universo bastante rico esse que engloba os sons inauditos. Além disso, no Oco, o que acabou acontecendo naturalmente foi que o piano e a guitarra se fundiram. Isso fica muito claro no disco. Então, o uso não-ortodoxo dos instrumentos acaba servindo como ponte entre nós dois, um vão entre as coisas, um campo neutro onde eu sou o Jean e vice-versa. Acho que isso é uma das coisas interessantes desse disco.

Caron no Plano B
























Caron:  O Marcos tem o estilo específico dele de tratar a guitarra que estimulou que o mesmo acontecesse com o piano. Um outro elemento que favoreceu essa abordagem, como dito antes, foi o fato de o piano estar bastante desafinado e com algumas teclas quebradas. Isso me tirou do universo “uniforme” do temperamento igual, me forçando a encarar cada som como um som singular. A partir daí a inclusão dos objetos, da tábua, da caixa de ressonância, do DR-5 foi apenas mais um passo na diversificação das fontes e dos sons. E isso acarretou a saída das formas de estruturação melódico-harmônicas tradicionais: elas comparecem no disco, mas sem privilégio e ao lado de outras coisas.

Para Caron: vc acaba de lançar um selo especializado em música de ruídos. Como avalia o panorama nacional no que diz respeito a esse tipo de som. Por que abrir um selo?
Caron: O selo era um plano que já existia há algum tempo. Não sou apenas eu, mas também Henrique Iwao, Matthias Koole, Ale Fenerich e Marco Scarassatti. Não somos “especializados” em algo, na verdade. Nós fazemos questão de uma abordagem bastante aberta. Evidentemente o experimentalismo musical é um dos vetores que orientam a escolha das pessoas que lançam pelo selo. Mas acho que a coisa não é tão programática assim, fora o desejo de dar visibilidade a coisas de que gostamos. 
 
Para Campello: Sei que vc é um grande fã de samba e de Derek Bailey. De alguma forma você percebe no trabalho dos dois algo com o qual você pode formular seu próprio estilo. Como você definiria seu modo de tocar hoje? Quais são seus principais interesses no instrunento hoje em dia?
Marcos: Eu percebo, sinto quando ouço, que tanto o samba — mas depois vou citar uns nomes, porque posto assim fica muito distante — quanto o Bailey têm um balanço incrível, uma coisa que faz você querer ouvir aquilo incessantemente. Raphael Rabello, João Bosco... é incrível como acontece algo especial ali que você só pode experimentar, não dá pra transmitir verbalmente. E é algo muito pessoal. E falo do Bailey porque pra mim ele é especial dentre os nomes da música improvisada. Ele tem essa coisa, esse suingue que tá ali, na sua cara. Não sei como ele conseguia isso. Talvez por ter sido jazzista.

Mas no meu caso, quem fez a coisa toda fazer sentido foi o compositor norte-americano Alvin Lucier. Quando conheci as coisas dele entendi por onde eu queria andar. Já o meu jeito de tocar eu não sei definir. Tem essas coisa de tocar com a unha, meio sujo, que dá toda uma outra sonoridade e intenção mesmo. E de usar afinações semi-aleatórias, isso te deixa muito atento ao som, ao que está acontecendo naquele momento. Com relação ao instrumento, desde que saia algum som tá tudo bem.

Marcos Campello (foto: Douglas Lopes)

























Uma frase acompanha o disco é: "Oco é o vão entre as coisas". Parece uma definição redundante, descritiva, mas também um tanto quanto abstrata — já que, efetivamente, há muita coisa entre as coisas. Contudo, o som, também abstrato, não é tão descritivo quanto a frase, pelo contrário.
Caron: Sim, bom, o som não tem conteúdo proposicional, não é o mesmo que uma asserção. De cara um som “descritivo” portanto se vale de outros artifícios que não são os mesmos da linguagem verbal. Mas também eu acrescentaria que a frase em si, apesar de aparentemente descritiva, não descreve o disco. A frase foi proposta pelo Marcos na verdade e é uma idéia poética que nos pareceu adequada a se acoplar (mais do que descrever) ao disco. E como acoplamento poético, ela funciona mais de forma a sugerir do que a descrever.  O ziguezague entre as coisas ocasionado pelo oco entre elas as separa e reúne ao mesmo tempo. E entre essas coisas, está a linguagem verbal e aquilo que fazemos com o som.

Marcos: Bem, essa definição de "oco" é diferente da tradicional, que considera oco o espaço vazio interno de algum objeto. Por isso acho válida como definição, por expandir essa idéia. Além disso, apesar de sua carga abstrata, ela é muito clara ao evidenciar o vão, e não as coisas. Isso aponta muito pra forma como o piano e a guitarra se relacionam no disco, com o que o Jean chamou de hiper-instrumento, e com as pontes criadas entre os dois, no território da ambigüidade de referencial sonoro, que é esse vão, onde o bicho pega, onde coisas indistintas se relacionam de forma fantástica e surpreendente.

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