segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Notas de Caderno e Melhores de 2014, por Thiago Miazzo


Trinta e quatro graus e dois ventiladores minúsculos. Foi assim que eu tive que lidar com uma das piores ressacas da minha vida. O dia virou noite e as nuvens formaram aquele temporal que apenas trinta e quatro fxcking graus podem proporcionar.

A chuva veio com força, levando a energia elétrica com ela. Por sorte, já estou acostumado e tenho uma luz de emergência sempre de prontidão. Estava parado na porta fumando um cigarro quando um sujeito com o rosto coberto por uma camiseta me chamou por detrás da mureta:

- Cê tem ganja?

Fiquei meio atordoado. Pensei em fechar a porta e fingir que aquilo não aconteceu, mas um impulso me levou até a mureta (porque é isso que qualquer um faria em meu lugar, creio eu):

- Mano, quê?!

- Quero saber se você tem cândida. Minha casa alagou e tem merda pra todo lado!

Nessa hora eu o reconheci. Era o cara que mora nos fundos. Me senti aliviado e no dever de emprestar-lhe a cândida. Fechei a porta e ouvi no rádio os quatro movimentos da nona sinfonia. No final da transmissão, o locutor desejou que 2015 fosse O MELHOR ANO DE MINHA VIDA! Fiquei emocionado, pois os desejos de "feliz ano-novo" não costumam ser assim tão objetivos.

2014 foi um ano de merda? Sim, um ano que merece ter seu calendário queimado, folhinha por folhinha. Mas seria eu a pessoa que merece atear fogo?  A canela suja de merda nem era a minha. No fim das contas, 2014 deixou no rastro álbuns muito bons (dez deles listados a seguir) e é através deles que eu quero me lembrar desse ano que já vai tarde. Muah *;

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10 - Yersiniose – 1911 (Seminal Records)


Tive o imenso prazer de dividir palco com Mario Brandalise no segundo dia da programação do XII Encun, realizado em novembro deste ano. E foi ali que eu pude sentir de perto o vigor de seu projeto Yersiniose, bem como entender melhor as monomanias e o funcionamento de 1911. Power Electronics ao molde europeu, que poderia facilmente fazer parte do catálogo da Tesco. Com uma forte influência de Con-Dom e Grey Wolves, o Yersiniose faz um dos lives mais altos que eu já assisti, com uma sonoridade clara e frequências graves de encher os olhos.




9 - Mania – Decrepit (Freak Animal)


A captação dos objetos e chapas de metal soa muito acima da média, e o toque final de Mikko Aspa garantiu uma conversão de áudio perfeita para o formato tape. É um álbum tenso, que tem sua carga potencializada pelos vocais peculiares de Keith, mais conhecido no universo industrial pelo alter-ego Taint. Como Mania, Decrepit é o primeiro álbum que realmente chamou a minha atenção e, de longe, o melhor de sua discografia. Um disco de produção impecável e ao mesmo tempo fiel à estética industrial fundamentalista.


8 - Bizarre Uproar – Live Humiliation (Filth and Violence)


Muito bem, sempre tive algumas ressalvas com relação aos lives do Pasi. Trata-se de uma performance muito mais visual do que musical, uma característica comum dentro do  industrial europeu, e nesse aspecto seu talento é indiscutível e acima da média. Mesmo assim, haviam alguns vícios e fórmulas que sempre me fizeram gostar mais da sua música em estúdio do que ao vivo. Compilando performances registradas ao longo dos dois últimos anos, Live Humiliation documenta Pasi em um dos momentos mais inspirados de sua carreira, rompendo com uma zona de conforto que poucos artistas com mais de trinta anos de carreira ousam romper. 


7 - Viper – I Sell The Best Crack 1-5 (Sem Label)


Mais conhecido como um mene do que como um artista propriamente dito, Viper é um fruto do post-internet, e sua música “Y’all Cowards Don’t Even Smoke Crack” atingiu o patamar de viral. O que poucos sabem é que o artista por trás dessa faixa alcançou a absurda marca de 333 álbuns lançados ao longo de 2014. A quintologia “I Sell The Best Crack” sintetiza muito bem esse momento tão inspirado de sua carreira, “rap de fita” cheio de afinidade com o chopped and screwed e o dirty south. Gênio ou mene, não importa. O que realmente vale é que Viper tirou o rap das mãos dos grandes produtores e o levou de volta aos estúdios precários e laboratórios clandestinos.


6 - J-p Caron – ST (Sinewave)


Quando comecei a esboçar essa lista, julgava que a obra de J-p Caron estivesse mais presente ao longo do ano na forma de memória do que através da música. Em uma rápida análise, seu trabalho me parecia um tanto incompatível com a minha personalidade inquieta, com a forma como eu me reconheço em minhas próprias limitações. Esse confrontamento é desvinculável quando se analisa a obra de Caron. Nem sempre é possível estar tranquilo para se ouvir um disco, as vezes a gente é preciso respirar e aprender a estar.



5 - Dedo - Rainha (QTV)


A música de contato do Dedo parece ser capaz de se adaptar aos mais diversos formatos, transitando entre o audiovisual e a performance propriamente dita. Se o álbum anterior 2xc32 permitia e estimulava a múltipla combinação de audições de uma forma quase lúdica, Rainha se divide em títulos e uma ordem previamente estabelecida, condicionando a música exploratória dentro de faixas relativamente curtas, mas que não soam inacabadas ou dependentes umas das outras.




4 - The Rita – Ballet Feet Positions 


















Disciplina sempre foi uma temática constante na música industrial, de maneira direta ou indireta. Atinge o seu ápice através das representações de um poder absoluto ou de formas mais singelas, igualmente enclausuradas em um arquétipo de condicionamento e repetição. Ballet Feet Positions é o mesmo The Rita dentro de um novo universo conceitual. Os samples retirados de vídeo-aulas de balé são interrompidos ou soterrados por texturas saturadas advindas do manuseio direto dos piezos. 





3 - Kurt Cobain – Montage of Heck (Sem Label)


Somente um ano maluco como foi 2014 para nos proporcionar uma mixtape de sound-art feita por Kurt Cobain. “Montage of Heck” foi gravada por volta de 1988 com um 4-track cassette recorder,  mesclando e sobrepondo músicas diversas, transmissões de rádio e algumas esquisites de autoria do próprio Cobain. Soa como uma mistura de Retard-o-Tron e Legendary Pink Dots, e o clima ‘weirdo’ da mixtape fez com que ela fosse vista mais como uma curiosidade do que como um trabalho propriamente dito.





2 - Forza Albino – Black Dog (Freak Animal)

















Um dos melhores discos de Power Electronics que eu já ouvi em toda a minha vida. Provocativo e escandaloso, como pede a velha escola pós-Whitehouse. Não é simplesmente um bom álbum, é um álbum que te dá vontade de ouvir e ouvir de novo. Se o Forza Albino já havia me chamado a atenção em suas demos posteriores, Black Dog me faz querer acompanhar os próximos trabalhos bem de perto. Power Electronics que, apesar de ser feito por jovens, é pouco recomendado para iniciantes.




1 - Sun Kil Moon - Benji (Caldo Verde Records)


Nos últimos 12 anos, perdi três primos de primeiro grau, os três da mesma forma. É algo tão improvável e as perguntas que eu escuto são tão parecidas que muitas vezes eu respondo rindo, e a pessoa que perguntou acaba rindo também. O fato é que tragédias acontecem e não é o choro que promove um acontecimento ao patamar trágico. Benji é um álbum sobre acidentes, abordando sentimentos como o inconformismo e o  “isso não é justo” de uma forma que me emocionou profundamente. O discurso de Kozelek - que já trazia um ar de deboche desde os tempos de Red House Painters - ganha ainda mais força ao compartilhar histórias e pontos de vista que transcendem o senso médio de luto e indignação. 


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