quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Novas Frequências 2014: Highlights

Foto: Eduardo Magalhães























Após quatorze dias de shows, oficinas, conversações (Talking Sounds) e duas festas, chegou ao fim o Festival Novas Frequências. A programação intensa, diária, deixou muita gente perplexa e fascinada perante tantas opções e possibilidades. Alguns, como eu, caíram na estrada assistindo a tudo ou a quase tudo. Outros selecionaram cuidadosamente suas visitas, seja em busca de situações pontuais (como a Caminhada Silenciosa de Vivian Caccuri), seja para assistir um artista de interesse. Não importa a intenção, pois a economia de frequência em um festival desta natureza varia conforme tempo, disposição e interesse. Foram quatorze dias ininterruptos, desconheço festival com esta duração.    

Não configura um exagero afirmar que se trata hoje do maior festival de música exploratória e singular da América Latina. Música burilada por mentes que buscam ampliar horizontes, que desenvolvem uma escuta que não se resume ao já sabido e amplamente divulgado. Uma música não de "vanguarda" ou "experimental", mas singular em todos os seus trejeitos e maneiras. E para aqueles que professam o rótulo experimental em oposição à canção, ao pop ou aos sons consonantes, como classificam as melodias angelicais do piano de Lubomyr Melnyk? A cítara imponderável de Laraaji? O violão emocional de Bill Orcutt? A experiência com modulares de Keith Fullerton Whitman? Cada artista trazendo uma contribuição única e exclusiva, tornando a aplicação de qualquer guarda-chuva conceitual como um procedimento no mínimo injusto.  

Por fim, qual a contribuição de um festival desta natureza em uma cidade como o Rio de Janeiro? A auto-suficiência é um dos atributos mais caros aos cariocas, mergulhados em um mar de referências centenárias (o samba, a praia, o carnaval, o futebol, a rua), e outras mais recentes, como o funk. Esta auto-suficiência denota vigor e criatividade, mas também embota a imaginação, restringe a percepção, direciona as políticas públicas (?) e os mercados (??). Contudo, o público, para além do "público-alvo", esteve presente. O público sedento em busca de uma seleção musical que a cidade não oferece por uma série de motivos. Aliás, teria a ver com a ausência rigorosa e o silêncio parcial por parte de jornalistas, críticos, pesquisadores e produtores culturais que trabalham na cidade?

Que o Festival Novas Frequências seja um evento essencialmente carioca, deveria ser celebrado por todos os "nativos" como motivo de júbilo, uma vingança alegre por todas as ponte-aéreas e viagens tresloucadas em busca de shows de artistas que mal tiveram seus álbuns editados no Brasil. Mais do que isso, o Festival Novas Frequências fornece um punhado de estímulos e contribuições capazes de revolver o campo de referências e, assim, conectar a energia criativa da cidade com outras fontes criativas. De resto, festivais são festivais: servem para entreter e divertir, papel que o Novas Frequências vem desempenhando com sobras e méritos. (B.O.)

Ps.: Não cito o show do Quintavant Ensemble por estar envolvido com sua produção. Outros shows que valem ser citados: Laraaji, Lubomyr Melnyk, Jp Caron e Marcos Campello e Tarab Cuts.

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Rashad Becker. Foto: Eduardo Magalhães























02/12 Rashad Becker – Audio Rebel
Durante cerca de uma hora de apresentação, o alemão de origem síria Rashad Becker propôs uma experiência de trânsito entre dimensões subjetivas e espaciais. Não se trata de repetir uma "fórmula", mas de construir um território inexplorado. Com um punhado de sons particulares, Becker força a forma musical a acomodar uma profusão de "indivíduos": obras de arte, crenças, rituais, cores e valores. Movimentos geológicos, escalas de tempo milenares, multicamadas de corte e fluxo. Ritmos implícitos, imprevistos — alguns dançavam como que submersos no líquido amniótico das "espécies nocionais". A forma em constante mutação, remodelação. A imaginação selvagem contrasta com o maneirismo, o delírio com o rigor.


Aki Onda. Foto: Eduardo Magalhães.























04/12 Aki Onda – Oi Futuro Ipanema
Associo o zen não ao esvaziamento da mente através da meditação, mas ao controle do movimento. Nesta concepção, que assumo como imaginária, o zen corresponderia a uma arte do cálculo: cada gesto, cada ideia, cada dispositivo opera conforme um plano traçado rigorosamente. Neste sentido, a apresentação de Aki Onda foi uma demonstração de como precisão e imaginação podem se associar de muitas formas na música contemporânea. Com movimentos e gestos precisos, Onda proporcionou uma experiência de relativização e espacialização da percepção. O artista como demiurgo capaz de abrir caminhos, ampliar os modos de perceber as coisas, conjugá-los com a memória, desdobrá-los em outras combinações e produzir instabilidade sobre nossas mais caras certezas. A escuta não é auricular, mas também tátil, olfativa, visual — escuta-se com o corpo, com a memória. Os cães latem, os bêbados gritam, seus espectros se atualizam impressos na materialidade da fita cassete. Aki Onda, o homem errante, colecionador de campos e espaços, walkman.


DJ Marfox. Foto: Francisco Costa






















05/12 Som Peba/MauroTelefunksoul/Cut Hands/DJ Marfox/Omulu + Maga Bo – La Paz
Destaco a primeira festa do Festival por conta do corte curatorial preciso e atento aos muitos desenvolvimentos da música eletrônica quebrada, especialmente voltada para a pista de dança. Fosse somente uma pista, o panorama tornaria mais evidente o enfoque na presença africana: o Bahia Bass de Som Peba e Mauro Telefunksoul (que na minha opinião, tem muito ainda a contribuir para o que conhecemos como música eletrônica brasileira); a afrobatucada digital e os gravões acachapantes de William Bennett e seu projeto Cut Hands; o kuduro turbinado do contagiante DJ Marfox, que definitivamente "sabe quem é"; e o encontro de forças entre um dos principais remodeladores do funk carioca e um dos produtores que mais sacam de percussão brasileira e ritmos nordestinos: Omulu e Maga Bo. Vistos em forma de panorama, favorecem a percepção de que a África está em nós, reconstruída, reinventada a cada passinho de dança, a cada brincadeira, a cada festa em que nos entregamos ao transe e à dança.           


Mark Fell. Foto: Eduardo Magalhães.






















Keith Fullerton Whitman. Foto: Eduardo Magalhães.
08/12 Keith Fullerton Whitman – Audio Rebel
08/12 Mark Fell – Audio Rebel
09/12 Mark Fell + Keith Fullerton Whitman – Audio Rebel
Em duas noites das mais intrigantes do Festival Novas Frequências, o britânico Mark Fell e o norte-americano Keith Fullerton Whitman se apresentaram com seus respectivos trabalhos solo e em parceria. Música elaborada em tempo real, improvisada a partir de plataformas e sistemas analógicos (Whitman) e digitais (Fell), cada um lidando de maneira singular com a expressão rítmica e timbrística dos sons produzidos pelas máquinas. Mesmo quando assinalavam alguma regularidade, Fell e Whitman desafiaram nossa percepção ordinária do ritmo enquanto marcação contínua e abriram para modulações imprevisíveis. Com os sons orgânicos de seus modulares, Whitman construiu um set narrativo, conduzindo cada momento como quem conta uma história (do grave ao agudo, do elemento extático aos sons mais cerebrais). Com sua "música gerativa" (improvisada sobre softwares especialmente desenvolvidos para a performance em tempo real), Fell ateve-se à métrica, ainda que para criar fraturas e gerar um tipo de desconforto que seria supostamente inadequado para a dança. E, no entanto, o que se viu no espaço da Rebel foi uma plateia que aceitou dançar conforme a música, soltando-se ao som de um ritmo em decomposição, composto por células, fragmentos de ritmo multiplicados, desdobrados, interrompidos, granulados, picotados. A apresentação conjunta revelou uma convergência poderosa entre sons digitais e analógicos, fortalecida pelo sistema de som robusto que foi instalado na Rebel. O ritmo fora de controle, o ritmo fora da grade, dos andamentos regulares e previsíveis. O ritmo não-pulsado, o ritmo determinado por equações, algorítimos e sistemas matemáticos, por máquinas de ritmo atravessadas pela imprevisibilidade da ação humana.


Bill Orcutt. Foto: Eduardo Magalhães.























12/12 Bill Orcutt – Oi Futuro
Os sons não "despertam" lembranças, a memória não é um baú desativado. A memória, assim como o desejo, é uma força criativa, apta não somente a reinventar-se, mas também a reinventar o mundo a cada instante. Além da forte carga emocional que a acompanha, a música de Bill Orcutt também foi capaz de atualizar frases e momentos que desempenham um papel fundamental na minha forma de perceber as coisas. Lembrei de Fernando Torres, o homem do Plano B, quando ele disse: "não faço música experimental, pois sei exatamente o que estou fazendo". Lembrei da paixão — e do orgulho — com que Panda Gianfratti, após acompanhar Jorge Ben e Simonal, descreveu sua transição para o improviso livre: "cansei de ser escravo". Me emocionei ao perceber em cada palhetada que Orcutt aplicava sobre o violão, a máxima proferida por Morton Feldman (citada pelo queridoAlasdair Campbell nos Talking Sounds da semana passada): "In music, when you do something new, something original, you’re an amateur. Your imitators: these are the professionals." Recentemente, Paulo da Costa lembrou Lorenzo Mammi, quando este descreveu o "tempo indeterminado" da música de João Gilberto a partir de "um sutil descompasso entre o plano da voz e o plano da batida do violão". E, então, pude reparar, assombrado, que, para mim, a apresentação mais contundente de todas as quatro edições do Novas Frequências — um festival associado às muitas vertentes da música de vanguarda —, tenha sido realizada por um "bluesman" empunhando seu violão de quatro cordas. A questão talvez não se resuma a uma competição pela ponta da "música avançada", da "música experimental" ou qualquer outro guarda-chuva conceitual com o qual venham classificar tudo aquilo que não é comum e corriqueiro. Aliás, todas essas definições se encontram estritamente vinculadas às dinâmicas progressistas e cientificistas com as quais se procura interpretar tudo no nosso mundinho moderno, assombrado por uma concepção cronológica do tempo, pela objetividade e pelas muitas mitologias da finitude. Para nossa sorte, porém, vale lembrar: "nunca fomos modernos"! Ao encerrar as atividades do Harry Pussy, Orcutt passou anos longe da "cena", trabalhando com softwares e levando uma vida pacata e familiar. Enquanto isso, desenvolvia seu modo peculiar de tocar violão, independente de quaisquer concepções de "progresso", "vanguarda" ou "inovação". Como quando escutamos (ou lembramos) a música de Stockhausen, Cartola ou Jimi Hendrix, o violão de Bill Orcutt evoca uma memória, um tempo múltiplo e, ao mesmo tempo singular, subjetivo...


Vladislav Delay. Foto: Eduardo Magalhães.























12-13/12 Ripatti/Vladislav Delay – La Paz/Oi Futuro
Ao contrário de seu autor, avesso ao contato com o público, os animais e as plantas, a música de Sasu Ripatti se projeta no espaço, "comunica", afetando toda a matéria em volta, todos aqueles dispostos a se entregar ao turbilhão sonoro easy rider que ele propõe. Sua música é "viajante" em um sentido muito particular, abalando — literalmente! — estruturas moleculares e a percepção do tempo. Ainda que, nas duas apresentações, pudemos distinguir precisamente sonoridade presentes em seus últimos trabalhos (os EPs da série Ripatti e Visa, último álbum como Delay), o grande barato da sua música são os movimentos imprevistos, as timbragens modificadas, a maneira como a forma da composição ganha o espaço em paralelo a sua performance. Como Ripatti, ele investe toda sua habilidade de produtor em uma releitura ainda mais gaguejante do footwork, como se a batucada trôpega de Mark Fell servisse de trilha sonora para os passinhos frenéticos das ruas de Chicago. Como Vladislav Delay, revira sons orgânicos e frequências telúricas, extraindo do lap top, da bateria eletrônica e da mesa de som, sonoridades que muitos prometem e não entregam (a exemplo dos "hypados" Tim Hecker e Ben Frost). Apesar da versatilidade do autor, podemos perceber nitidamente que Sasu Ripatti se vale das aberturas criadas por grandes artistas da música eletrônica da década de 90 (Markus Popp, Mark Fell, Autechre) para produzir um manancial sonoro que se pode classificar como único e singular. 


Philip Jeck e Rádio Lixo. Foto: Eduardo Magalhães. 























14/12 Philip Jeck + Rádio Lixo
Um disco de vinil sempre conservará uma certa disposição material, que pode ser sentida de modo passivo, mas também produzida de modo ativo. O que os pioneiros dos soundsystems jamaicanos e norte-americanos tem em comum com Christian Marclay e com Philip Jeck? Um disco pode ser compreendido como suporte para uma canção, mas existe toda uma gama de sonoridade potenciais que, com um pouco de sorte e trabalho, se adaptam a múltiplos interesses. Philip Jeck expõe seu fascínio: o momento em que suspendemos o braço do toca-discos e o lançamos na regularidade acidentada da superfície do disco de vinil. Um mundo de estáticas, uma profusão de sons miúdos e irregulares se oferecem aos ouvidos e à manipulação. A materialidade do suporte ressoa no campo de atividades da vida comum. As fissuras e arranhões sobre quaisquer dispositivos materiais são concomitantes a determinados sons, testemunhando não somente a passagem do tempo, mas sua multiplicação. Multiplicando essas sonoridades-tempo, Philip Jeck desenvolveu um trabalho simultaneamente influente e exclusivo, que remodela de forma completamente diferente o legado de Cage e Marclay e impõe uma ética da invenção. Jeck, no entanto, compartilhou todos os seus segredos conosco, tanto nos Talking Sounds, como também na oficina que ministrou no Reduto, em Botafogo. Detalhou técnicas e procedimentos, revelou equipamentos, sem decréscimo de nem sequer um milímetro do poder evocativo e misterioso de suas composições. Os cariocas do Rádio Lixo, com quem Jeck fez questão de dividir a noite que encerrou o Festival Novas Frequências, demonstraram sintonia fina com o espírito exploratório e generoso de Jeck e fizeram uma apresentação ombro-a-ombro com o mestre.  






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