quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A imaginação como potência

…me lembro que mencionei, citando o pensador francês Gilbert Simondon, que a imaginação, ao contrario do que afirma uma pluralidade de correntes filosóficas, é a realidade do potencial, um registro motor da invenção e da experimentação.

Simondon: Imaginação é uma das dimensões da psicologia geral. Um modo de ser da psicologia humana como a percepção e as sensações.

Imaginação, percepção e sensação são dimensões irredutíveis umas às outras, mas, ao mesmo tempo, necessariamente relacionadas.

Percepção: ponto de partida de uma teoria acerca do organismo e seu meio.

Sensação: variação interna, o que chamamos de afetos.

Imaginação: teria o poder simultâneo de baralhar e sedimentar as imagens da Percepção e da Sensação em novas imagens. A imaginação possuiria uma função entrópica fundamental, manifestando a realidade do porvir, do desconhecido, a realidade do que ainda não existe, mas que se manifesta como potencial, como possível… A imaginação para Simondon é a realidade do potencial.

E retomo isso pra dizer que, em uma visão de conjunto, os filmes brasileiros dos últimos dez anos são muito fortes sob esse ponto de vista, quero dizer, sob o ponto de vista de um cinema que virá, um cinema do porvir.

Com destaque para Egum do Yuri Costa, Cantos dos Ossos, do Jorge Polo e Petrus de Bairros, Cabeça de Nego, do Deo Cardoso.
Estamos falando de um cinema novo, de um cinema que, inclusive, parece ainda não ter encontrado lugar no sistema cultural hegemônico — cheguei a essa conclusão lendo algumas críticas sobre Canto dos Ossos, e acompanhando a imprensa e a crítica, a ausência de textos mais consistentes sobre um filme forte como EGUM. 

Imaginação: registros na filosofia, na literatura e nas artes dramáticas.

1. A Imaginação na filosofia:

a) Para Espinosa, filosofo holandês de origem portuguesa do XVII: a imaginação está associada ao primeiro gênero de conhecimento, o registro das “ideias inadequadas”, ou conhecimento por experiência vaga — isto é, a imaginação é o estado de quem vive as experiências do mundo sem lhes conhecer as causas.

b) Sartre: a imagem é uma consciência espontânea e não uma imagem consciente; a imagem ela mesma manifesta uma consciência. E a imaginação é uma "função irrealisante”, pois relacionada ao consciente, e desprovida de objeto real, em contraste com a consciência perceptiva e a ação que visam a um objeto real. Para Sartre a produção imaginativa tem como objeto o nada.

Whitehead: A tarefa de uma universidade é unir imaginação e experiência.

2. A Imaginação na literatura.

a) fabulação, contar histórias.

b) a diferença do griot para o storyteller.

Mas mesmo o griot é um caso particular de cultura oral. Essa cultura oral não se limita a fatos, lendas, relatos mitológicos, etc.

A palavra é fonte de magia, mas não magia no sentido pejorativo europeu: magia como “controle das forças naturais”. A imaginação do griot como suporte para uma sociabilidade expandida, corporal, etc.

3. A Imaginação no cinema.

a) não há preeminência de um registro sobre o outro: a imaginação se articula à percepção, às sensações e à acão para reembaralhar o jogo. A imginação produz entropia que, por sua vez, pode viabilizar a invenção, isto é, o acréscimo de realidade objetiva.

b) A imaginação no cinema, portanto gera novas imagens, já reformuladas por uma articulação com a percepção, as sensação e a ação, isto é, uma concepção da imagem não mais simplesmente endereçada aos olhos (não mais “retiniana”, como observava Duchamp), mas a outras formas de sentir, pensar e agir.

Postulados provisórios:

A imaginação como realidade do potencial, como motor da invenção

Imaginação como magia, magia como “controle das forças naturais”.

O cinema pensa e seu pensamento é capaz de evocar uma outra sensibilidade.

Esse cinema popular brasileiro que descreve sua trajetória desde as experiências de Valter Filé, na TV Maxambomba, até as oficinas em comunidades e no, na expressão do Daniel Castanheira, cinema “fome zero”, o cinema que eclode entre 2003 até o golpe, são filmes que se produzem não como a confirmação da linguagem hegemônica, tampouco de seu movimento contraditório.

FILMES:

“Aluguel, o filme”, de Lincoln Péricles, todo aquele jogo com as legendas no início, o uso das imagens de TV…

“Fantasmas”, de André Novais: duas bandas, uma de som, outra de imagem, aparentemente desacopladas…

“Ilha” de Glenda e Ary, outros registros do teatro e da alegoria cinematográfica no Brasil.

Os filmes de Juliana Rojas, sobretudo o musical Sinfonia da Necrópole: musical com aparência de filme televisivo de baixo orçamento, imbricado no tema crítico ao neoliberalismo urbano.

Os filmes de Affonso Uchoa, que através de suas histórias evocam os sentidos de uma posição da juventude negra no apocalipse político e policial…

O Kbela de Yasmin Thainá que ao invés de contar uma história, produz uma série de esquetes relacionados direta ou indiretamente com as experiência negras com cabelo. Outra forma de se pensar a alegoria…

Egum e Canto dos Ossos são nitidamente registros cinematográficos que usam a imaginação para embaralhar os sentidos, não para simplesmente contar uma história.

Uma “ecologia das imagens” pode se afigurar aqui como um termo provisoriamente adequado, se percebido como um registro “onde não se pode [mais] separar o natural, o técnico e o biológico, e sim pensá-los em conjunto” — como observa a filósofa Anne Sauvagnargues. Trata-se de imagens que abrem mão de tematizar ou fabular os corpos dados, para acrescentar novos corpos, corpos monstruosos, à realidade objetiva.

Este cinema indireto e monstruoso se propõe, antes de arriscar novas formas e expressões, a operar deformações nos registros considerados propriamente cinematográficos, fazendo proliferar modalidades impróprias de expressão.

Relações definidas por deformação das partilhas categóricas ou, ainda, “exformações”, isto é, movimentos de instabilização da forma que indicam a superação da interpolação entre métricas e ritmos resguardadas em termos genéricos, como mise-en-scène, cinema de fluxo, etc.

RESPOSTA 1
O que quero dizer é: o discurso hoje se compromete com a ideia de que é preciso contar nossas próprias histórias. Mas o cinema vem mostrando que não queremos apenas contar histórias, mas produzir outras formas de ver e sentir, outra sensibilidade.

A imaginação no cinema, o conceito de imaginação pensado pelo cinema, produz não apenas imagens, não apenas sensações ou narrativas, mas uma outra sensibilidade…

RESPOSTA 2
O pensador, escritor e griot malinês Hampate Ba chama a atenção para a ligação entre o homem e a palavra, pois, segundo ele, nas sociedades orais, não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação do homem a palavra é mais forte.

A palavra empenha o corpo, o corpo empenha a palavra: a reciprocidade corpo-palavra é radica. A palavra está acoplada à vida daquele que enuncia de uma forma diferente da impessoalidade que caracteriza as sociedades que giram em torno da língua formal ou comunicacional.

O indivíduo que enuncia a palavra está comprometido com ela, nas palavras de Hampate Bá, ele é a palavra que enuncia. A palavra falada perde o peso no mundo eurocêntrico, seu peso é transferido para a palavra escrita, que muitas vezes, inclusive, testemunha contra aquele que diz. Dentro da tradição oral, por exemplo, não se separa espiritual e material. A tradição oral encarna a grande escala de valores que orientam a vida comum. A tradição oral revela concepções do humano, mas tbm a ampliação de sua presença no mundo através da invenção, daquilo que Hampate situa como “poder da criação da fala humana”: pensamento, som, fala.

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