O jovem Uday Vellozo — pronuncia-se Udaí — nasce em uma família numerosa, oriunda de Nova Friburgo/RJ, um dos 15 filhos de Seu José Velloso, chorão e violonista, e Dona Maria da Silva Velloso. Tendo saído de casa aos 16 anos e levado bomba nos testes para o serviço militar obrigatório (única maneira aparentemente possível de alguma estabilidade financeira para um jovem recém-emancipado), transfere-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde se instala na Tijuca, mais precisamente no Morro da Formiga. Arruma um emprego em uma boate de Copacabana, trabalhando com o que realmente sabia fazer: cantar e tocar violão. Em uma dessas noitadas de trabalho, um casal paulistano admira sua voz e o convida a morar em Santos, que nesta época já abrigava uma cena musical repleta de orquestras e pianistas. Uday percebe que o piano lhe permitiria ter mais oportunidades de trabalho e passa a estudar o novo instrumento, desenvolvendo um método próprio que consistia em usar a armadura da mão esquerda, projetando as inversões e os baixos do violão sobre as teclas do piano, ajustando uma nota aqui e ali até soar de acordo com o acorde desejado. Assombrado, percebeu que dava certo e nunca mais parou.
Anos mais tarde, já o artista célebre conhecido pelo nome artístico Benito Di Paula, gravava com o Maestro Gaya numa época em que, segundo ele, “produzia um disco inteiro em apenas uma noite”. Durante a gravação, Gaya estranhou um acorde que vinha do piano de Benito e constatou que era um acorde em lá menor, mas que devido a armadura singular, omitindo ora a terça, ora a quinta, soava a cada momento de um modo diferente. Benito conta que, a partir deste caso, Gaya costumava se referir a este acorde instável como o “lá menor Benito”.
Pode-se dizer que o espírito aventureiro e inventivo habita a música de Uday desde seus primórdios; sempre foi um modificador das coisas comuns. A aura clássica de maestro, reforçada pelo uso contumaz do piano e pela beca caprichada, sempre marcante em suas capas de disco e apresentações, se articulava a características até então problemáticas, tanto do ponto de vista da “linha evolutiva” da MPB, como dos critérios rigorosos empregados na avaliação do samba tradicional. Sob o guarda-chuva pejorativo do “sambão-jóia”, que nivelava em um mesmo patamar obras muito diferentes como as de Agepê e Luiz Ayrão, Benito Di Paula se destacou pela criação e disseminação de um samba conduzido ao piano, situando-se numa posição particularmente estranha entre a Bossa Nova e a Escola de Samba — o que o diferenciava de outros mestres do gênero, como Johnny Alf e Tom Jobim. Estranha, sim, mas extremamente popular, carregando consigo a energia explosiva do samba exaltação, do bolero desbragado, do chiste, da paródia e de uma série de mitologias sambísticas relacionadas ao êxtase da roda de samba, da avenida em dia de carnaval e ao brado típico do folião em quarta-feira de cinzas. A música de Benito se caracterizava por modos de interpretação, letras e arranjos que variavam da intensidade dramática de "Retalhos de Cetim" ao samba exaltação de "Mulher Brasileira”, da ironia escrachada de "Assobiar e Chupar Cana" ao ufanismo ambíguo de “Charlie Brown” (marco importante de seu posicionamento e expressão política no período ditatorial), sem jamais abandonar o registro da música popular de amplo espectro.
Irreverência e autonomia em relação aos circuitos da MPB não o impediram de tornar-se um grande vendedor de discos, atingindo fama e popularidade na formação do samba paulista dos anos 1970 e 1980. Em suma, a despeito de todo o preconceito em torno de sua presença e de atributos como "brega" e "cafona", a música de Benito ecoa ainda hoje nas rodas de todo o país, demonstrando que sua influência vai além do pagode paulista dos anos 1990. Particularmente, costumo frequentar rodas de samba no Rio de Janeiro e lhes digo que dois artistas marcam presença ainda hoje no repertório do pagode carioca, mesmo sem se identificarem plenamente com seu cânone: Djavan e Benito Di Paula — é bem provável que você escute “Do jeito que a vida quer”, do álbum Benito di Paula (1976), em alguma roda de samba no Rio.
Este longo preâmbulo biográfico e interpretativo de sua obra tem como objetivo apresentar O Infalível Zen, álbum gravado durante a pandemia em parceria com seu filho, o cantor, compositor e instrumentista Rodrigo Vellozo. A data de lançamento pode até sugerir uma efeméride comemorativa, afinal dia 28 de novembro de 2021, Benito completará 80 anos. Porém, não há nada de indulgente nesta celebração. Em tudo O Infalível Zen transpira a aura do risco, da aventura, do desacordo, do erro e do acerto. A direção artística de Rodrigo Vellozo juntamente com o cantor e compositor Romulo Fróes, imprimiu no álbum uma atitude criativa em nada contemplativa, na esteira de novos clássicos também produzidos por Romulo, como A Mulher do Fim do Mundo (2015) de Elza Soares e Besta Fera (2019), de Jards Macalé. Como em muitos dos seus discos, particularmente os lançados durante os anos 1970 e início dos 1980, Benito se jogou de cabeça, apostou em novas parcerias, improvisou ao violão e ao piano, cantou, gritou, sussurrou: se reinventou.
O disco começa com a contagem do maestro: 1, 2, 3, gravando… “Dona Já da Baiana” (Benito Di Paula) traz uma combinação inusitada de violão e berimbau afinado pelo próprio Benito, enquanto a estrutura cancional evoca as reminiscências ancestrais do samba baiano de Riachão e Batatinha. A transição para a coda instrumental ao final da faixa, arranjada pela banda base do disco, formada por músicos com destaque na produção musical contemporânea — Allen Alencar, Igor Caracas, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Thiago França — introduz uma espécie de salto atmosférico que caracterizará a sequência do disco. A faixa-título, cantada em parceria com Vellozo, traz a inspiração poética delirante de Rodrigo Campos associada à melodia ligeira criada pelo próprio Benito. Assumindo contornos marcados por uma cadência do samba chorado, porém arranjada com um balanço mais funky, “O Infalível Zen” (Benito Di Paula / Rodrigo Campos), soa de uma maneira diferente, quase distante, daquela que Benito costumava levar para os seus discos clássicos dos 1970 e 1980, mais ligados ao samba e ao bolero. “O Infalível Zen” é, talvez, a canção-signo do álbum, que sinaliza “o meio do caminho”, o dualismo simbólico que marca toda e qualquer trajetória humana. Um par de anjos sempre nos aguarda na esquina, envoltos em uma atmosfera de encruzilhada, entre a vida e morte, entre o passado e o futuro, entre invenção e reinvenção.
A sequência de faixas traz um Benito Di Paula um tanto quanto diferente daquele a que o povão brasileiro tem notícia. “Uma Onda No Tempo”, parceria de Benito com Romulo Fróes e Clima, novamente cantada com Vellozo, destila o romantismo trágico do Breton de Amor Louco (“a veia do meu coração estourou”, “vou jantar com a morte”), conjugada à citação de “Ela Disse-me Assim”, da cêpa de um mestre da poesia coloquial, Lupicínio Rodrigues. Noto a perspicácia do arranjo de Thiago França, intensificado pelo clarone de Maria Beraldo, que tocam uma quiáltera de gafieira, malandreada. Na sequência, o baião “Um piano no forró” (Benito Di Paula) que, segundo Benito, aguardava há mais de 30 anos em seu baú — pois, segundo ele, as gravadoras não entendiam a importância de Luiz Gonzaga na construção desse ritmo tão brasileiro. Ouçam a sanfona de Lulinha Alencar embalando a pisada do forró, enquanto Benito suspira: “ai que saudade do Luiz, o Rei do Baião!”
O pagodão abolerado “Meu Retrato” (Benito Di Paula), composto para Nelson Gonçalves, que infelizmente não teve a oportunidade de gravar, aparece duas vezes no disco; primeiro com o auxílio da banda, que transpõe a convenção orquestral criada por Benito ao piano e depois, mais para o final do disco, reaparece executada desta vez somente pelo próprio, numa interpretação emocionada que funciona como reiteração dramática do tema principal do disco: uma visão aberta, quase paródica, sobre a vida e a morte. “Aurora” (Benito Di Paula), composta em homenagem à sua primeira neta, filha de Rodrigo Vellozo, por sua vez, sugere a presença virtual de um futuro materializado através da construção sonora: violão expandido gravado pelo próprio Benito, com direto a batuque no corpo do instrumento (Benito se disse inspirado pelo “Concerto de Aranjuez”), coabitam as sonoridades telúricas do cavaquinho com efeitos tocados por Rodrigo Campos, e, novamente, os arranjos de sopro assinados por França.
As texturas abstratas em “Voz Calada” (Benito Di Paula / Rodrigo Vellozo / Romulo Fróes), preparam para uma das canções mais pungentes do álbum. Por todo o trabalho, sua voz se mostra portadora de uma qualidade ambígua, que irrompe de maneira acentuada, justamente na canção batizada como “Voz Calada”: se por um lado já não se expressa com o vigor de anos atrás, é inegável que conserva, indelével, a potência comunicacional, a inclinação ao diálogo direto com o ouvinte, a qualidade capaz de atingir em cheio o coração da rua. Em “Voz calada”, sua voz contracena com o clima sombrio, envolto pelos efeitos de reverb e pela microfonia da guitarra de Allen Alencar, assim como os ruídos do sax de França, criando uma sonoridade improvável em discos anteriores. Tão improvável quanto a faixa “Improvation” (Benito Di Paula), que traz, nada mais nada menos do que Benito se lançando de cabeça no free improv, sob a sugestão de Fróes. O resultado se traduz em arabescos, clusters e melodias catadas ao léu. O tom dramático, extravagante, do bolero “O Jantar”, faz um par interessante com a faixa título: encarar a morte com altivez e, por que não, uma certa disposição de enfrentamento, o que se prolonga na forma enérgica com que ele executa o piano em sua longa introdução.
A citação à imagem do inferno na poesia de Dante Alighieri, em meio à apoteose free jazz de “Nel Mezzo Del Cammin” (Benito Di Paula / Clima), canção que encerra o álbum, remete à ideia da vida como uma viagem cujo sentido se encontra durante a caminhada. “Ninguém sabe qual o fim, nel mezzo del cammin”, pois, como escreve Clima, “não há saída a não ser viver”. A vida como viagem, que, ao contrário de dobrar-se sobre si mesma, privilegia a arte do encontro. Aos 80, Benito topou aquela que talvez tenha sido uma das empreitadas sonoras mais ousadas de sua carreira, ele que tanto experimentou em suas gravações, com naipe de metais, percussão de samba, orquestra e tudo o que um estúdio podia oferecer na época. Um breve passeio por sua discografia, através de álbuns como Um Novo Samba (1974) e Que Brote Enfim o Rouxinol Que Existe Em Mim (1984) e percebe-se a variedade de arranjos e sonoridades.
Em Amor Louco, Breton escreve “Hesito, devo confessá-lo, em dar este salto, temendo cair no ilimitado desconhecido”. Esta fórmula parece seguir o caminho contrário do escolhido por Benito, homem simples, nem devoto, nem ateu, porém persistente. Investe-se do inusitado, do irônico, do trágico, de um popular autêntico e, ao mesmo tempo, por uma liberdade convicta de, mesmo a contragosto, experimentar aquilo que ainda não conhece. Rodrigo Vellozo e Romulo Fróes, diretores artísticos do disco, não conseguem dizer com absoluta certeza se Benito teria ficado plenamente satisfeito com o resultado final de O Infalível Zen, o que me parece belo, plausível e em conformidade com sua personalidade inquieta. Um artista que olha para frente com ímpeto e curiosidade, sem necessariamente render-se à satisfação, ao sucesso ou àquilo que dita a juventude. Não por desprezo, mas por uma convicção praticada por quem nunca cedeu às expectativas da elite cultural. Como ele diz, em tom de justificativa, no sambão confessional “Meu Retrato”: “Se eu errei, foi do meu jeito, sou assim, o que vou fazer?”
***
Texto de apresentação sobre O Infalível Zen _ Benito Di Paula e Rodrigo Vellozo (2021)
Nenhum comentário:
Postar um comentário