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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Às vezes mil, às vezes um: Submarine Records 15 anos

Arte: John Herndon























O texto abaixo não se resume a uma entrevista. Trata-se mais de um relato de sobrevivência, narrativa autobiográfica ou memórias (quase) involuntárias. Conta em detalhes as peripécias, articulações e realizações da Submarine Records, selo que nasceu há 15 anos na ponte entre São Paulo e Minas Geraes. Sob a direção dos mineiros Frederico Finelli (37) e Angela, a Submarine se organiza de forma independente e estratégia própria, fazendo valer a máxima punk “faça você mesmo” como poucos na seara dos selos alternativos brasileiros.

Digo “como poucos”, porque a Submarine não cresceu somente em termos comerciais. Nem chama a atenção somente pelo êxito do modelo de organização em um ambiente asfixiante como o mercado para música no Brasil. Para medir a importância do selo, é necessário observar que a Submarine cresceu conforme seus artistas foram se destacando pela concepção musical. Não seria exagero afirmar que a atividade dos artistas ligados ao selo acrescentou outras sonoridades à música brasileira, particularmente no que diz respeito à chamada “música instrumental”. Trata-se uma evolução em conjunto, organização, independência, pesquisa, trabalho, amor e obsessão pela música.

Casa da banda paulistana Hurtmold e projetos derivados (MDM, Bodes & Elefantes, M. Takara), foi através do trabalho da Submarine que se pavimentou a ponte transnacional com o jazz/rock de Chicago, através da presença Rob Mazurek (São Paulo Underground e solo) e do trio The Eternals. A confluência do post-punk-rock harmônico do Hurtmold com a cabeça aberta do jazz-rock de Chicago resulta hoje em uma das mais reconhecidas vertentes do jazz contemporâneo. Com um vocabulário que abrange muitas influências e estilos, que vão desde a muitas cores da música brasileira até o noise japonês, foram responsáveis por discos fundamentais, incontornáveis para aqueles que pretendem compreender e debater a música no Brasil do Século XXI. Me refiro a discos fundamentais do Hurtmold, São Paulo Underground, Bodes & Elefantes, MDM, Maurício Takara, Rob Mazurek, entre outros.

Desde 2008, Fred e Angela também dirigem a agência de booking Norópolis, responsável pela organização de concertos com artistas do selo, tais como como o punk cerebral do Elma, os ruídos abstratos do Objeto Amarelo ou a brutalidade do Test, além de colaborações com Pharoah Sanders, a dupla Spectralina (Dan Bitney / Selina Trepp), e com artistas que fazem a cabeça dos produtores como Roscoe Mitchell, Kevin Drumm e Matana Roberts. Vale notar que teremos quatro apresentações do Tortoise em São Paulo entre os dias 12 e 15 de dezembro.

As comemorações começam neste domingo, 01/12, na Serralheria em SP, em um show que reunirá MDM Duo, Objeto Amarelo e Guilherme Granado e seguem hoje, sexta 29/11, com Elma no Festival Eletronika 2013 em Belo Horizonte, São Paulo Underground na Sala Olido em São Paulo (grátis) e no Festival Novas Frequências/RJ na próxima sexta (06/12). Dia 07 de dezembro, será lançado o vinil de Mils Crianças, último disco do Hurtmold (veja aqui). E, pelo que Fred nos conta, ainda há muito por vir.

Bernardo Oliveira

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Fred Finelli. Foto: Guilherme Granado.


























PRIMÓRDIOS

A Submarine começou baseada numa idéia de colocar na rua produções musicais que eu gostava. Era 1996/97, eu editava um zine (Needle) e estava muito envolvido com o mundo da música independente/alternativa, louco com a constante troca de informações, o vai-e-vem de fitas cassetes, vinis e cds independentes. Tudo era feito através de cartas (entrevistas, trocas de materiais como zines e k7’s). A noção de tempo era outra. Às vezes você levava dois meses pra enfim conhecer tal banda. Lembro de fazer divulgação de shows por correspondência, mala direta em carta social (na época custava um centavo cada). Essa mala direta era construída de forma impressa e manual. Ficava na banquinha de materiais ou na porta dos locais de shows pra quem quisesse se cadastrar, daí eu levava pra casa aquela papelada e “passava a limpo”, tentando entender as letras das pessoas! (risos). Frequentando mais e mais shows na época, aumentando os contatos e amizades, com a cabeça fundida pelo Fugazi/Dischord Records e, logo na sequência, pela cena de Chicago (Tortoise, Isotope 217, Chicago Underground, The Eternals), a coisa foi se formatando na minha cabeça. Em 1998 eu dividia meu dia entre a faculdade de comunicação, o trampo de funcionário público e ainda tentando entender como era ser pai aos 22 anos.

E em volta disso tudo uma energia enorme pra “fazer coisas” (relacionadas a esse mundo da música independente), misturado também a uma certa inocência/romantismo em alguns sentidos (coisa de quem está tateando as coisas na vida, se apaixonando a todo instante...). E isso, de certa forma, foi uma mola propulsora para dar vários passos. Nessa época eu já estava há alguns aninhos comparecendo a shows, escrevendo resenhas de cassetes/cds/vinis, que, claro, lendo hoje eu morro de rir de muita coisa que escrevi! Faz quase 20 anos, mas acho que extamente isso fez a coisa andar de forma natural e simples também. Porque o sentimento principal era, “porra, tomara que mais gente ouça, mais gente goste, e quem sabe uma hora a gente vê isso ao vivo”. A cultura de ir nos shows era tudo, eu tenho algumas recordações que sempre me brilham os olhos. A sensação de ir num show e conseguir pegar uma demo tape e depois ouvir, trazia uma sensação indescritível, era muito bom! E até hoje quando trombo algumas pessoas, elas falam, “caralho Fred, ouvi tal banda por causa de uma resenha ali no Needle”, daí acho que no fim valeu muito a pena, e os zines foram uma escola maravilhosa, onde fiz muitas “amizades” por carta.

Em 2004, se não me engano, eu tava na Galeria do Rock e entrou na loja o Otto (Força Macabra/Selfish; Finlândia). Eu não o reconheci visualmente até ele se apresentar como tal. Virei pra ele e disse, “lembra de uma entrevista tal assim assado de, sei lá… 1995?! Então aquela carta lá era de um zine que eu colaborava!” Você tinha que ver a cara dele, brilhão nos olhos! Isso não tem preço. Tenta imaginar uma entrevista, por carta, pra Finlândia... O tempo que não demorou o processo todo! Era muito carinho com essa coisa toda, não tava separado da sua vida, blocado, você já estava ali vivendo aquilo. Então acho que a coisa passa por aí, um envolvimento que foi rolando, assistindo shows, fazendo amizades, a coisa dos zines, ajudando a promover shows independentes, ajudando a divulgar e daí a idéia de ter um selo pra tentar editar algumas coisas.


Hurtmold em BH, 2000. Foto: Fred Finelli.





















SUBMARINE RECORDS: O INÍCIO

A história do selo propriamente dito se inicia em Belo Horizonte a partir do momento que eu começo a ter mais contato com selos nacionais e sul-americanos. Beleza, a gente tinha infos, catálogos e discos de selos de fora (Dischord, SST, Allied, K Records, Epitaph, Dr. Strange, Doghouse, Lookout, Touch and Go, Thrill Jockey, Sub Pop, Jade Tree, Polyvinyl, Matador, entre várias outras...). Mas não era a mesma coisa de você trocar uma idéia direta com quem levava o selo, a proximidade e tudo. Afinal a internet ainda não estava tão presente.

E por aqui eu já tinha uma relação muito próxima com o pessoal da Spicy (selo do Rafael Crespo e do Marcelo Fusco, Tube Screamers/Againe/Auto), responsável por editar CDs, cassetes e vinis de bandas como Garage Fuzz, Againe, Pin Ups, Polara, etc. Na Argentina eu tinha contato com um pessoal muito ativo naqueles tempos: a Sniffing, a 72 Records, o Nekro do Fun People. E me marcou muito o trabalho da 72 Records, tinha umas bandas “esquisitas” que eu adorava e a parte estética dos títulos era muito foda. E por aqui a Spicy era o que eu curtia, porque eu gostava das bandas e também eram bons nas artes dos discos, catálogos. Fora a energia em torno disso tudo, eu adorava aquilo, até hoje tenho algumas embalagens/pacotes de discos da Spicy enviadas pelo correio em caixas de esfiha! (risos)
Então, em 1998, bolei a idéia da Submarine Records, que começaria as atividades com uma coletânea com bandas nacionais que eu gostava e que não tinham nada lançado em CD. Iria pinçar e convidar algumas bandas do exterior pra compôr o lançamento. Fiz os contatos, juntei uma graninha pra masterizar, prensar e mandei bala. 

Daí na virada de 1998/1999, recebia na minha casa 1000 cópias da coletânea Some Songs, Some Places, Some Feelings, o SUB001. Coletânea lançada, dei uma cota pra cada banda e o restante era vendido em shows e via correios por 8 reais. O sistema era daquele jeito punk que aprendemos, dinheiro escondido em carta registrada e envelope escuro. O dinheiro poderia ser colocado em papel carbono também pra ajudar a ficar ainda mais camuflado. Divulgação: principalmente permuta com zines e flyers espalhados em correspondências. O tempo foi passando e comecei a receber um voluminho de pedidos pelo correio. Cada pacote que era feito e despachado era uma alegria imensa, tipo, “porra, as pessoas estão querendo ouvir!”

Em 1998/99 esta coletânea poderia ser considerada meio “tortinha”, já apontava para um caminho menos reto musicalmente. Minha idéia era tentar fugir das caixas de acrilico, coisa que eu nunca gostei nos CDs. Assim, acabamos também tendo uma certa identidade estética com os envelopes de papel. Enquanto a coletânea ia saindo, se espalhando, eu já estava sentindo que a coisa estava se movimentando. O dinheiro investido na coletânea voltando (devagar, mas rolando) e eu já podia pensar num próximo passo, de repente em um primeiro artista por assim dizer.



"O sistema era daquele jeito punk que aprendemos, dinheiro escondido em carta registrada e envelope escuro. O dinheiro poderia ser colocado em papel carbono também pra ajudar a ficar ainda mais camuflado. Divulgação: principalmente permuta com zines e flyers espalhados em correspondências."


HURTMOLD

Em 1999 eu estava em SP num fim de semana e fui com o Fusco em um show na Pamplona. Ali dentro o Maurício Takara me tromba e fala “Fred, aqui a demo da minha banda nova, chama Hurtmold, ouve aí”. Eu conhecia o Mau mais como irmão do Daniel Ganjaman, e pelo fato de terem começado o Estúdio El Rocha. O Ganja na época tocava no Page 4 (banda que saiu na coletânea da Submarine), Strada, Single Tree, entre outras várias. O Mauricio é o mais novo dos irmãos Sanches Takara e era baterista do Small Talk. Se não me engano era 1997, eu estava na produção de um show do Single Tree em BH e o Mau foi com a banda de mascote. Ele ficou na banquinha vendendo as demo tapes das bandas dele e dos irmãos.

Com a demo do Hurtmold na mão, voltei pra BH ouvindo a fitinha no busão. De repente, um “fudeu” me atingiu a cabeça. O Hurtmold também é de 1998 e era formado por membros ligados ao hardcore/punk rock. Por ironia do destino estavam na mesma viagem musical que eu estava. Lembro que cheguei em BH e falei de imediato com o Fusco por telefone: “cara, o Maurício me passou a demo da banda nova dele, o Hurtmold, puta que pariu, é muito bom isso”. Daí já botei fogo no Fusco, perguntei se ele não toparia lançar essa demo tape em parceria num fomato em cassete prensadinho com a Sub. O Fusco já retornou positivamente. Daí passou um tempo e lançamos juntos (Submarine/Spicy) o cassete do Hurtmold, 3am: a fonte secou (SUB002). Era a demo tape original Everyday Recording, mais quatro faixas novas, que deram o tom a este lançamento. Prensamos as fitinhas em fábrica, 300 cópias e vendíamos a 3 reais no mesmo esquema: correspondência, shows.

No mesmo ano, o Hurtmold tocou pela primeira vez em BH e tive a oportunidade de enfim vê-los em ação. Foi um dia muito foda! Uma molecada com muito apetite em cima do palco, se alternando nos instrumentos. O Maurício nem tocava bateria direito na banda, ele tocava mais guitarra. O Chankas era o baterista. Sei que quem estava lá no Butecário esse dia saiu feliz, foi um belo show! As pessoas rodeando a banquinha comprando as fitinhas. Era uma sensação maravilhosa de estar fazendo alguma coisa, a energia indo e voltando, era a certeza de que estávamos juntos num caminho. Qual, não dava pra saber, mas algo estava rolando.

Paralelamente, com o fim do Page 4 (banda que saiu na coletânea), o ex guitarrista, Cláudio (IML, Intense), se juntou com o Richard Ribeiro (Echoplex, Porto) e o Sergio Ugeda (Debate, Amplitude Records), formando o Diagonal. No começo o Mauricio (Takara) chegou a tocar baixo na banda e posteriormente ele deu lugar ao Edmundo (Small Talk). O Diagonal era outra banda que eu adorava e convidei pra também lançarem um cassete pela Sub. Rolou tudo bem e foram prensados 300 cassetes do Diagonal, Detouring Track (SUB003). A minha idéia com os cassetes era lançá-los como um primeiro trabalho, pra daí emendar com um álbum na sequência. Era uma idéia que pra mim fazia sentido, mas nem sei na verdade a eficácia disso (risos). Bom, fitinhas do Hurtmold e Diagonal na rua, o selo começando a criar um catálogo de fato, as duas bandas tocando, estava lindo.







PRIMEIRO DISCO

Virada de 1999 pra 2000. Conversando com o Hurtmold eles me disseram que estavam com o primeiro álbum em processo de gravação. Pra mim seria o momento de enfim termos o primeiro debut CD no catálogo do selo. O Hurtmold estava voando, tocando frequentemente no circuito underground paulistano e já fazendo um segundo show em BH, numa situação maluca, que foi substituindo o Diagonal aos 44 do segundo tempo. O Diagonal teve que abortar o show em BH por questões pessoais de um dos integrantes da banda e lembro que liguei pro Mau, sei lá, dois dias antes do show e ele respondeu “beleza, vamos nessa!” Os caras se agilizaram, chegaram na rodoviária e eu felizão olhando pra cara deles, tipo, “puta merda, esses moleques são cascudos”. Show foda em BH, dueto de escaleta e o caralho, um cara junto com eles chamado Brian, que ajudava no palco e tirava fotos. Nessa época eu também fotografava e a gente logo já se enturmou trocando idéia de fotografia, pirando obviamente no Glen Friedman e no Pat Graham. (risos)

Alguns meses depois fui pra São Paulo encontrar o Fusco novamente, estávamos trabalhando no quarto título da Submarine que seria um compacto 7” da banda punk rock Againe, Sem Açúcar (que era a banda dele) e que eu sempre fui um fan. E a Submarine lançou essas quatro músicas numa arte com capa silkada manualmente e carimbos. Este era o SUB004. Em São Paulo liguei pro Mauricio e marcamos na casa da Spicy uma conversa sobre o primeiro disco do Hurtmold. Eu tinha falado com o Fusco sobre lançarmos juntos também o CD, mas na época a Spicy estava com outros títulos em marcha e daí o disco sairia pela Submarine apenas. O Sub 005, Et Cetera, do Hurtmold.



Pensando hoje, a conversa na casa da Spicy foi bem engraçada. O Gui (Guilherme Granado) também colou nessa conversa. Eu ali falando, os caras rebatendo. Mas era uma coisa que no fim se resumiria assim, “beleza essa idéia toda, e blábláblá, mas a gente já sabe que tá todo mundo afim de trepar vai!” (lançar esse disco). Sei que fechamos um corre legal, uma cota boa pro Hurtmold, que estava com o disco prontinho. E a tentativa era sempre pensar em buscar equalizar tudo, de forma a ficar confortável pra todas as partes e irmos caminhando. E assim foi! 2000 saía o primeiro disco do Hurtmold. O show em BH, me lembro até hoje do clima. Como eu queria ter isso registrado! Mas é um ponto que eu pequei, praticamente não tenho registros dessa época.

Foram dois shows em BH num fim de semana. O primeiro no Matriz, cheio, show poderoso e “pra variar” o Hurtmold já estava tocando quase metade do set de músicas novas. Lembro do Brian subindo no palco e dançando na frente dos caras enquanto tocavam a “Mike Tyson”, que era um som novo, que sairia no Cozido (2002). Era muita energia. No dia seguinte um show no Café do Letras, uma cafeteira pequena, com uma janelona que dava pra rua. Várias pessoas assitindo por esta janela, os caras tocando virados pra essas pessoas, lembrança foda. Esse Café fazia shows mais acústicos de jazz e acho que quando o Bruno (dono do Café) viu o Hutmold chegando ele ficou um pouco tenso. Cinco caras com 20 anos o mais velho, mais o Brian (imagina ele naquela época), a parafernália desordenada que era (escaleta em sacola de supermercado por exemplo) e a gente puxando as mesas do café pra colocar o teclado em cima, etc.. Acho que o Bruno confiava do tipo, “ah falei com o Fred durante a semana, vai dar tudo certo!” (risos). E como deu certo! As pessoas chaparam, o show foi bem legal e no final lembro da imagem do dono do Café abraçando os moleques.

Disco lançado e o Hurtmold começou a aparecer em algumas resenhas bem positivas do disco, começaram a tocar em festivais e assim foi caminhando. O Diagonal, com quem eu queria lançar o primeiro álbum, optaram por lançar de outra forma e seguiram o caminho deles. Nessas, o foco de lançamentos do selo ficou totalmente no Hurtmold entre 2000 e 2003. Em 2002 lançamos o Cozido (SUB006), disco que pra mim colocou definitvamente o Hurtmold no caminho de terem uma “fita” por assim dizer. Começarem ali a buscar uma voz própria, que culminaria na transição para o Mestro (2004).








THE ETERNALS

Mas, antes, em 2003 temos um capítulo importante na nossa história e que acredito ter sido definitivo para firmar a coisa toda até hoje. Em 2003, o Hurtmold tinha algumas músicas (que não eram para um disco, mas um EP). E nessas pensamos em de repente fazer um split CD com alguma outra banda. Em 2000, o Mau passou um tempinho nos Estados Unidos e conheceu o pessoal do The Eternals, banda de ex membros do Trenchmouth. O Mau me deu o toque que tinha visto o show do Eternals, que era foda! Eu conhecia o Trenchmouth, mas não os Eternals. Obviamente não tinha nada direito na internet que eu poderia ouvir e me lembro de imediatamente correr na Motor Music (loja/selo/produtora) de BH, comandada na época pelo Marcos Boffa e o Jeff Kaspar. (Esses caras pra mim são um capítulo à parte em muita coisa que conheci/aprendi, sem contar o grande apoio que eles deram para a Submarine ali no comecinho em BH e depois também).





Cheguei na Motor Music e encomendei o primeiro álbum do The Eternals, o de capa vermelhinha, que saiu pela Desoto/Aesthetics em 2000. Claro, demorou pra chegar, mas como valeu a pena! Ouvi aquele disco e aí estava mais uma banda que fodeu minha cabeça. Beleza, passou aí um bom tempo, chegou a hora de definir este novo lançamento do Hurtmold. O Eternals era o nome a ser sondado. Escrevi pra Aesthetics, selo que lançou o disco deles, propondo e rapidamente retornaram positivamente! Esquema punk como sempre, músicas pra cá, uma quota de discos pra lá, uma graninha mínima de royalties e prensamos 1000 CDs split. Nessas pensamos num passo além: vamos trazer o Eternals pra tocar no Brasil? Era algo dificil de pensar. Como fazer isso? Mais uma conversa com o Mau e o Gui e a coisa começou a se desenvolver. O Rodrigo Brandão (ex- Mamelo Sound System, Ekundayo, Zulumbi, produtor do Festival Indie Hip Hop, Bartuque..) acompanhava o Hurtmold de perto, ele conhecia a banda, os moleques e a Sub (mesmo não me conhecendo pessoalmente até então). Ele também curtia o The Eternals e nessas deu uma força e foi peça fundamental trazendo o trio para um show no Sesc Pompéia. (numa análise mais ampla, o Rodrigo é uma das figuras catalisadoras de muita coisa boa que aconteceu e rola até hoje com a gente). E este seria o show de lançamento do split Hurtmod/The Eternals em SP. E ficaria na nossa mão fazer o restante do corre que seriam shows em BH, Campinas e mais um extra em SP no final. Tudo esquematizado a coisa aconteceu, o Eternals veio, fizeram quatro shows junto com o Hurtmold, lançamos o split, fizemos a tour acontecer. E segui também com o Eternals a partir daí lançando discos deles, fazendo mais tours pelo país (já vieram 5 vezes) e cultivando uma amizade muito classe com eles, que já passam aí dos 10 anos.

The Eternals










MOTOR MUSIC

Pra mim são peças muito importantes no meu crescimento, relação, vivência com música alternativa, selos independentes, shows, turnês, loja de discos. O Boffa e o Jeff foram talvez os primeiros ali que abriram as portas da loja deles para discos da Submarine. A Motor também era produtora de shows e licenciavam e distribuíam/vendiam discos no país de selos como Dischord, Thrill Jockey, Touch & Go, Matador, Fat, etc.. Graças a eles eu pude ver o Fugazi e o Tortoise ao vivo por exemplo. Nossa, o NOFX, não me lembro o ano, 95/96 talvez... e o Seaweed! E ainda Superchunk, Trans Am, Atari Tennage Riot, Stereolab, um projeto bem legal chamado Solitude, etc. Tudo isso foi via Motor Music ou com o Boffa envolvido. Tenho até hoje os ingressos desses shows guardados. Vi o Garage Fuzz lançando o seu primeiro disco junto com o IML numa casinha em BH chamada Antro, porque essas bandas estavam no BHRIF, 1994, Festival absurdo em BH produzido pelo Boffa/Jeff mais algumas pessoas juntamente com a Prefeitura. Teve Fugazi, The Nudes do Chris Cutler, várias outras atrações. Prefeitura essa que era do Patrus Ananias. Foda-se que tô falando disso, política têm me dado muita preguiça ultimamente, mas nessas valeu Patrus também! (risos). Foi o festival de música alternativa mais foda que aconteceu em BH e deve tá sei lá, no top poucos dos mais legais que rolaram no país. Memorável mesmo. E até hoje tenho contato com o Boffa, fazemos alguns trabalhos em parceria (bandas/festivais). E ainda é atleticano, tá tudo certo.

Da última vez que falei com Jeff, faz uns dois anos, ele estava morando fora do país. Mas é isso, só tenho que agradecer esses caras por terem feito tudo isso e continuam fazendo.


ROB MAZUREK

E nessa mesma tour (Hurtmold/The Eternals) acontece mais um episódio bem marcante na nossa vida. Na semana do show das duas bandas em BH, recebi um email de um cara dizendo que era americano, mas tinha uma esposa brasileira e estava passando um tempo em Brasília. E que ele ficou sabendo que os Eternals iriam tocar em BH, que eles eram seus amigos e ele estava indo pra BH pra encontrá-los, ver os shows e nos conhecer também. Beleza, até que eu fui ver a assinatura do email: Rob Mazurek.
Lembro de ficar olhando pra tela do computador sem saber o que fazer. Se eu ligava pro Mau e o Gui, se eu respondia o email com meu “crazy english”, se eu deletava e fingia que não foi comigo. Lembro de ter ficado bem descompensado (risos). O Rob já era uma figura muito importante pra gente naqueles últimos anos. A gente acompanhava realmente de muito perto esse cenário de Chicago (Tortoise, Chicago Underground, Isotope 217, The Eternals), e era uma parada o tanto bizarra pra mim receber aquele email, e numa situação dessas… A minha idéia do Rob era algo distante pessoalmente, mas muito íntima musicalmente. Sei que respondi meio sucintamente o email dele, algo do tipo “vai ser um prazer receber você, aqui está o endereço do hotel onde o Eternals ficará e nos vemos no sábado!”, algo assim (risos).

Chegou o sábado, Hurtmold e Eternals em BH, os encontrei, levei os Eternals para o hotel, o Hurtmold ficou comigo de rolê e ainda iam gravar um videoclipe da “Telê”, som do split antes da passagem de som.

Daí me aparece o Rob com a mesma expressão (que hoje conheço bem), uma espécie de geniosinho folião, extremamente doce e atencioso. Eu ali de ponta cabeça olhando pra ele, meio tentando cheirar o cara e pensando “puta merda”, taí o Rob Mazurek do Isotope 217/Chicago Underground! Sei que foi uma noite absurdamente divertida. Os shows foram muito bons, público felizão, splits vendidos, e acho que definitivamente o Rob ficou meio impressionado com o que viu. Tipo “nossa, esses caras do Brasil fazendo o corre deles, sem bliblibli bobobó, conhecem nossas coisas, dialogam com isso, celebram tudo, sobem no palco e mandam bala”. Sei que no dia seguinte recebi um telefonema dele, que possivelemente entendi 20% do que ele falou. Lembro de agradecer e que a gente se encontraria. Desliguei com o coração a milhão e pensei nossa, Eternals, Rob Mazurek e Hurtmold, tudo em um sábado! (risos)

A partir daí o Rob entra definitivamente na nossa vida né? Começa a conversar com o Mau, com os moleques, mantém contato comigo. Ainda em 2003, o Hurtmold se apresenta em BH no Festival Eletronika, um dos melhores festivais do país na minha opinião (até hoje!), e mais uma boa aparição da banda. Ali começo a sentir que talvez São Paulo fosse meu destino. E em 2003 ainda lançamos o primeiro disco solo do Mau, chamado M. Takara. E me lembro de, por telefone, não o convencer exatamente, mas por uma pilhinha no Mau pra ele apresentar ao vivo o set solo. E a primeira formação ao vivo do M.Takara era duo, ele e o Chankas (Fernando Cappi do Hurtmold). Shows com essa formação entre 2003-2005.


"...recebi um email de um cara dizendo que era americano, mas tinha uma esposa brasileira e estava passando um tempo em Brasília. E que ele ficou sabendo que os Eternals iriam tocar em BH, (...) que estava indo pra BH pra encontrá-los, ver os shows e nos conhecer também. Beleza, até que eu fui ver a assinatura do email: Rob Mazurek."


Rob Mazurek. Foto: melhor que TV.






MUDANÇA PRA SÃO PAULO

Novembro de 2003. Juntando uma grana (até boa) da demissão da Secretaria de Saúde de BH, onde por cinco anos fui funcionário público, mais o seguro desemprego de 6 meses que passei como telemarketing ativo da Tim (e companheiro de trabalho do Porquinho da banda UDR, hahah!), preparei uma ida pra SP no estilo, vou lá ver no que dá. Afinal o Hurtmold estava bastante ativo, o selo caminhando bem e eu tinha ainda a oportunidade de trabalhar com o Fusco na Trezeta, loja de discos que ele montou na Galeria do Rock e que me chamou para partilhar com ele o trabalho. 

Então fui pra SP e dividia meu tempo trabalhando na loja com o Fusco e tocando o selo, corres com o Hurtmold, agora também com o The Eternals e talvez com o Rob Mazurek. 2004, eu estava em São Paulo e ali me adaptando à nova cidade, excitadíssimo por estar próximo do Hurtmold no dia a dia e buscando possibilidades para desenvolvimento do selo. Neste ano sai o terceiro álbum do Hurtmold e quarto registro da banda. E pra mim ficou muito marcado o show de lançamento do Mestro. O show foi realizado na antiga Ritmus (Espaço Gang Music), em Pinheiros, e fizemos tudo, absolutamente tudo neste processo. Alugamos o espaço, fizemos venda de ingresso antecipada na loja, com promoção pra quem já comprava o CD. E era um trampo de formiguinha, pra tipo, com a grana dos ingressos vendidos mais a venda de CDs, cobrir o aluguel do espaço, custos de flyers/cartazes, etc. Me lembro que deu um sold out no show, pagamos tudo, um monte de discos vendidos e aquela sensação de putz, rolou! No mesmo ano acontece mais coisa boa. O Hurtmold é convidado para se apresentar na edição São Paulo do Festival Sónar (evento forte de música contemporânea/avançada que acontece em Barcelona e em algumas outras cidades ao redor do mundo por mais de 20 anos). Esta edição de SP foi sensacional, com nomes que relamente estavam muito frescos naquele momento, muita coisa que a gente adorava e tereia a chance de ver ao vivo! Prefuse 73 (com o John Herndon na bateria), Four Tet, Beans, Pansonic, Liars, El-P, etc. E Nesse show de 2004 em SP, o Hurtmold convidou o Rob Mazurek para participar do show. Em 2005, o Hurtmold volta ao Sónar, dessa vez em Barcelona/Espanha e também dividindo o palco com o Rob, marcando definitivamente a presença dele junto a gente. Até hoje se fala do Hurtmold no Sónar, episódio bastante positivo.





EXPANSÃO DO UNIVERSO SONORO

Os gostos musicais entre esses 2000/2005 estavam sempre baseados no punk e sua gama de vertentes, mas agora focando e se interessando no que estava sendo feito no momento. Eu também estava me ligando desde 2000 numa turma que chamam por aí de Rap Underground e algo mais para produções eletrônicas. Lembro que quando ouvi grupos/coletivos/produtores como Anti-Pop Consortium, EL-P, Cannibal Ox, Prefuse 73, Four Tet, Aesop Rock, Mike Ladd, Autechre,isso deu mais uma fudidinha na cabeça…

E em SP tinha também uma carga gigante de Racionais MC’s no ar. Eu ficava muito impressionado como eles estavam em todo lugar sem estar, entende? Absurdo! Comecei a prestar muita atenção nas letras, e porra, é diferente você ouvir os caras em SP e em BH, por exemplo. É louco a coisa de energia do habitat, como isso influencia imensamente uma expressão, mensagem. Quer queira quer não, os Racionais foram os “faça você mesmo” dos anos 2000. É ou não é? Tudo por eles mesmos, vendendo milhões de discos sem mídia, lançando a mensagem deles num raio imenso. 

Outra coisa: graças a essa turma de Chicago, ao Gui e ao Mau comecei a ouvir com muito mais atenção e diposição o jazz e música instrumental em geral. E até mesmo a música brasileira ficou mais leve. Coisa que não é tão simples quando sua formação de molequinho é pautada por metal e punk rock. Antes tudo isso vinha numa roupagem chatíssima e até meio pedante. E com essa turma acho que fui engatinhando e “aumentando o ouvido” com mais naturalidade e sem policiamentos ou cobranças (mesmo silenciosas) que rolam (pelo menos me parece várias vezes) numa seara mais acadêmica, acho... Acho que conhecer e daí se emocionar de vez com o Coltrane, Pharoah Sanders, Ayler, Miles, Braxton, Sun Ra, Roscoe Mitchell e o Art Ensemble of Chicago e tantos outros através de “punks” foi muito bom e talvez mais libertador pra mim. Tenho essa sensação. 


"Quer queira quer não, os Racionais foram os 'faça você mesmo' dos anos 2000. É ou não é? Tudo por eles mesmos, vendendo milhões de discos sem mídia, lançando a mensagem deles num raio imenso."


NORÓPOLIS

Em 2006 eu saio da sociedade com o Fusco na loja Trezeta, para me dedicar 100% ao selo e aos shows dos artistas da Submarine. Tínhamos regularmente shows do Hurtmold, que começou a abrir portas extra-circuito independente, recebendo convites do SESC SP, SESI, centros culturais, secretarias de cultura, festivais, M. Takara (até 2004/2005), São Paulo Underground já estava rolando (o primeiro disco da Sub é de 2006), o The Eternals já tinha voltado em 2005 para shows e já preparávamos uma nova tour deles pra 2007. A Norópolis surge oficialmente em 2008, em um momento em que eu estava ativo como produtor/agente de bandas do selo desde 2004. Neste ano, começou uma demanda real de shows para o Hurtmold e era necessário alguém cuidar disso. Tentamos por dois shows um agente de fora, não deu certo. Na verdade deu bem errado e ali eu senti que era a hora de eu me meter em mais essa, ser responsável por marcar os shows, organizar agenda. E nessas teríamos ainda mais controle sobre nossas atividades, era bom nunca esquecer do carequinha, né? (Ian Mackaye, risos).

Brincadeira à parte, chega a hora de trabalhar com os shows. Nessas começou também a desabar de vez a coisa de venda de discos ao nosso redor. Dezenas de lojas fecharam, e daí o caminho era buscar os shows e nós próprios fazermos mais e mais a venda dos discos. E continuar firme também o escoamento desses registros via site e pelo correio. E se o show era bom, o preço acessível, as pessoas compravam e compram discos sim. Mas realmente não dava mesmo pra um disco de música brasileira pop custar 30 reais. Não quebrou a gente porque começamos vendendo CDs a R$8 no começo do selo e chegamos no máximo a $15. Em 15 anos!! Atualmente se fala da volta do vinil (grande bobagem, eles nunca se foram, sempre estiveram aí) e são vendidos por aí hoje em dia a $80, $100 reais em lojas. Os nossos chegam no máximo a $40 nos shows e via site/correios + postagem. E temos alguns lojistas parceiros que pegam nossos vinis e ainda os vendem a um preço que é acessível para consumidores de música que preferem adquirir os discos em lojas e não frequentam shows, ou não querem fazer esta compra pela internet.

A Norópolis surge em 2008 e tenho que “culpar” a Angela por isso. Pois eu era um pouco relutante sobre abrir para bandas que não necessariamente eram do selo, eu tinha uma idéia meio pessimista de que não era a mesma coisa a relação e amizade que eu tinha com o Hurtmold e satélites (Mazurek, The Eternals) e obviamente eu não tinha mesmo. Mas a Angela me fez aos poucos entender que ao nosso redor tinham algumas outras bandas que gostávamos e por que não? 

Ok, a Norópolis foi criada nesse 2008, como um booking pra agendamento, venda de shows e divulgação das atividades de todos os artistas ali envolvidos. E nessas acabou que o Elma foi lançado posteriormente pela Sub e o Objeto Amarelo também, em um registro colaborativo com o Rob Mazurek. 





ANGELA E A DIESEL RÁDIO

A Angela é de BH também e a gente se conheceu em 2000. Ela e mais 2 pessoas tinham NAQUELA ÉPOCA uma rádio de internet! A rádio chamava Diesel e lembro dela surgindo, era algo inimaginável para o nosso meio até então. Pensa você poder clicar em um site que abriria um playlist pra você ficar ouvindo vários sons de bandas independentes, e no meio ali uma entrevista com o Hurtmold? Saca? De muitos vou ouvir um “dãã”, mas naqueles tempos, não tinha isso não.

A gente fez alguns trabalhos colaborativos em BH. Entre 2000/2003, eu tinha um projeto no bar A Obra chamado “Projeto Escafandro”, que eram noites mensais com bandas do selo e/ou que tínhamos afinidade, que gostávamos. Foram várias edições com Objeto Amarelo, PexbaA, Space Invaders, Hurtmold, Diagonal, Van Damien, Forgotten Boys, Motosierra, Killer Dolls, Wry, Againe, Elroy, Bosque, Postal, Fuso, Soap Blisters. Tenho muito a agradecer o Claudão Pilha e o Daniel Albinati (Digitaria) por tudo aquilo. Foram anos importantes pra solidificação e identidade do selo, da produção em geral. Nesses shows, a Diesel Radio ia, cobria em vídeo e disponibilizava áudio, vídeo.. . era foda!
Bom, a partir daí a Angela fez o primeiro, segundo e terceiro sites da Submarine. O selo é de 1998 e o primeiro site é de 2000. Daí ela fazia as manutenções, updates dessa parte de web até que em 2003 ela definitivamente entrou na Submarine e estamos aí até hoje na correria. Atualmente ela divide comigo as atividades no selo/Sub e no booking/Norópolis. E, sim, ela odeia sair em fotos!


Fred Finelli e Angela. Foto: Matana Roberts.


























ESTÉTICA, POLÍTICA, ECONOMIA

Cara, é um pouco dificil mensurar esses pontos sabia? A estética do selo é algo pouco pensado, é mais sentido. É sempre baseado no que nos causa (tô falando por mim e a Angela agora) e não no que isso pode trazer se tal coisa for com essa temática x, y. Sempre foi um “foda-se” gigante nesse sentido. A gente é um selo de música, se envolve com bandas independentes que também possuem sua forma genuína de se expressar. E isso sempre será respeitado e levado em conta.

Se você perceber nos títulos lançados, verá que temos uma predileção por capas em papel, as artes dos lançamentos são feitas em sua maioria pelo próprios membros das bandas. Marinho do Hurtmold, Damon do The Eternals, Rob Mazurek, John Herndon (Skull Sessions), etc.

Sobre política, temos nossa forma de fazer as coisas, de pensar né. A idéia básica é fazer sem esperar retorno imediato, e talvez por isso as coisas fiquem um pouco mais leves. Mas é meio por aí, tentar se movimentar ao máximo. Não abrir as pernas pra esquemas que você se sente desrespeitado, não abrir mão dos seus direitos enquanto músico/banda. Não se esquecer que nesse mundo merda que envolve $$, se você não está ganhando, alguém está, salvo casos em que a outra parte realmente é seu cúmplice na atividade, está no mesmo barco de verdade. Então é buscar equalizar essa situação sempre. Acho que a coisa de “na alegria e na tristeza” se adequa bem aqui. Vivemos disso, como consequência de uma caminhada de15 anos, passo a passo, altos e baixos e sempre vai ser assim, sempre. Mas acima de tudo VIVEMOS ISSO. Esse é o ponto pra mim.

Economicamente o que posso dizer é que a gente vive o dia a dia, às vezes mil, às vezes um, daí tem o meio termo e vamos seguindo, como uma música mesmo, uma conversa. E Eu não fico pirando em futuros mil sabe? Minha escolha está sendo essa, pago um preço (de repente da instabilidade financeira, algumas incertezas) mas outras coisas que vivo nenhum dinheiro paga. São as escolhas. O futuro pra mim é hoje, então eu tento dar o máximo. Poxa, meu filho tem 16 anos de idade, está firmão, saúde beleza, curtindo seu skate, estudando, chegando na vida adulta.. estou em paz com isso. A parte econômica é essa aí... meses mais tranquilos, meses apertadíssimos e complicados, e está tudo certo. Sobre o amanhã eu nada sei, né?  


"Vivemos disso, como consequência de uma caminhada de15 anos, passo a passo, altos e baixos e sempre vai ser assim, sempre. Mas acima de tudo VIVEMOS ISSO. Esse é o ponto pra mim."


ROB MAZUREK (2)

O Rob tem um tipo de inquietude que me encanta. Quando chegou nos meus ouvidos as primeiras coisas do Chicago Underground (principalmente o Duo) e o Isotope 217, vou te falar que fiquei meio desorientado. Como falei, tanto ele como essa turma de Chicago me ajudaram muito para que eu ouvisse de forma mais leve essa sonoridade que seja o jazz, a música avançada, minimalista. E foi realmente libertador isso pra mim. Junto com o Rob também uma turma mais ligada ao punk, ao rock mesmo, como o Dan Bitney, o John Herndon, os Eternals. Nessas a gente aqui absorvendo tudo isso, o Hurtmold surgindo. Era muita energia, todo santo dia fritando em torno disso. Daí quando realmente o Rob chegou até nós, pensei, “meu Deus, conhecemos o Rob pessoalmente!” Foi intenso, mas fiquei pensando, vai passar aí 15 dias, o cara tá no corre dele e beleza, nem vai se lembrar da gente. (risos). E não foi nada disso. Poucos dias depois ele já estava escrevendo ou ligando para os caras do Hurtmold, mandando email pra mim, e falei comigo mesmo: “é, o Rob pirou na nossa”. Curtiu a gente mesmo. Na sequência teve o Sónar em SP e Barcelona e a coisa desandou (no melhor sentido da palavra).

Não tenho dúvidas ao dizer que a trajetória do selo, e posteriormente do booking (Norópolis) sofreu um chacoalhão com a chegada do Rob. Por que ter ele por perto é certeza de bem estar, um cara que agrega, harmoniza e nessas acho que ele nos incentivou muito a dar sequência nas atividades. Ele é um motivador de certa forma e acho que rola uma troca muito intensa de energia. E são 10 anos fazendo coisas com ele sem parar, cada uma mais legal que a outra (pra gente pelo menos!). E aprendendo o tempo todo, rindo muito. E é foda falar isso, pode soar estranho, mas o Rob é um líder como poucos. Às vezes a gente olha e pensa, esse projeto é maravilhoso, mas vai ser casca executar. E de repente vai fluindo, fluindo. Quando vê, já foi! Só tenho a agradecer ao “Maza” por ter entrado em nossas vidas. Fora toda essa parte humana e sentimental, musicalmente nem se fala né. Conhecemos muito som através dele (e acho que vice versa). O Mau, o Gui, o Thiago Mesquita, estão sempre fritando com ele, daí ele conhece melhor o Ghostface, o Cartola, o Sabbath, o Uakti, o Black Flag, o Caymmi. Te falo que a coisa é intensa, mas sem peso. E nessas que acho que tudo vai fluindo de forma tranquila.




Rob Mazurek.






NORÓPOLIS (2)

A partir do momento em que pegamos a função mesmo de cuidar dos shows dos artistas do selo, a gente foi aprendendo na prática, no dia a dia, nas demandas de cada produção. Acertamos, erramos e continuamos aprendendo o tempo inteiro. Até 2006/2007 a gente tinha feito, de shows internacionais, o The Eternals, trabalhos com o Rob (shows solo, colaborativos com o Hurtmold e São Paulo Underground) e participando de um ou outro show como assistente de produção, “runner” e tal. Daí na virada de 2007/2008, lembro bem da Angela me falar mais incisivamente sobre um booking. Buscar produções também com bandas extra selo nacionais que a gente gostava. E, por que não, internacionais? Nessas surge a Norópolis, que é uma espécie de cidade sônica, onde os seus moradores (artistas residentes do booking), vizinhos (artistas internacionais que trazemos) são “noróticos” (risos). Que é uma derivação da expressão “neurótico” que sempre o Gui, o Smoot (Felipe Narvaez) e outros amigos usavam pra falar que tal banda ou música era foda. Eu adorava o som dessa palavra, a intenção dela.... tipo, “nossa esse disco do Anti-Pop Consortium é norótico!!” (risos) Daí virou Norópolis.

Daí criamos o booking... A Angela desenvolveu o site e lá fomos nós convidar outras bandas nacionais extra Submarine e começamos a sondar artistas internacionais pra trazer ao Brasil. Buscamos parcerias com o SESC SP, Centro Cultural São Paulo, CCJ, SESI, festivais pelo país, casas de show, etc. Iniciamos com projetos ligados ao Rob Mazurek, e ele foi muito importante (de novo) no processo, pois sempre nos encorajou muito, depositou e deposita sua confiança e fomos ganhando um corpo, caminhando. Quando escrevemos buscando esses shows, já temos o que mostrar, o que falar, um currículo, um histórico. De artistas internacionais já vieram através da Norópolis, além do The Eternals e São Paulo Underground (residentes), Rob Mazurek Skull Sessions, Matana Roberts, Roscoe Mitchell, Kevin Drumm, Lichens, Pharoah Sanders & São Paulo Underground, Tim Kinsella, Joan of Arc, Laetitia Sadier, Jason Adasiewicz’ Sun Rooms, Pulsar Quartet, Chicago Underground Duo, Spectralina. E agora pra fechar o 2013, em dezembro, teremos 04 apresentações do Tortoise em SP e alguns shows solo de membros da banda.



COLABORAÇÕES ENTRE ARTISTAS 

Colaborações pra mim são sempre bem-vindas, porém tenho bastante cuidado. Não gosto da idéia de “junta junta” por que tem que ser colaborativo. Entrar em contato com um cara que a gente pira no som e falar “oi, vem aqui tocar com o fulano e fulano da banda tal num show colaborativo?” Acho estranho esse tipo de coisa. Esses shows em que nos envolvemos parte do princípio das conexões já existirem de alguma forma, tendo algum contato, afinidade dos dois lados, interação prévia. Daí acho que a colaboração do Rob com o Mauricio (início do São Paulo Underground), o Gui ingressando na sequência, depois projetos como a Skull Sessions, e ainda chegar no Pharoah & The Underground, foram acontecendo passo a passo, naturalmente e de forma a buscar sempre uma continuidade. Acho que esse fator conta bastante para o nosso lado. Se você perceber quase todos esses projetos possuem uma história.

Lembro também de outro exemplo muito legal de colaboração que depois virou banda mesmo e turnê. Foi quando o Guillermo Scott Herren (Prefuse 73) veio tocar em SP e no dia seguinte ao show ele estava com um dayoff. A Aninha (de Recife, Festival Coquetel Molotov) me ligou perguntando sobre a ideia de um show colaborativo/improvisado em SP, que ela sabia que o Gui e o Mau gostavam do Prefuse 73, e eles tinham se trombado no Sónar em SP, 2004. Eu respondi que poderia ser bem legal, e que nessas coincidentemente o Rob Mazurek também estava em SP neste mesmo momento. Em 24 horas agilizamos tudo, fizemos um flyer (Gui como sempre) pedreríssimo de um show na +Soma, numa segunda feira a noite, divulgação guerrilha, internet e pronto. Lá estávamos segunda-feira à noite, casa cheia, Guillermo tocando bateria, uma guitarra com eletrônicos, o Rob no cornet, o Mau num segundo kit de bateria, o Gui nos eletrônicos/teclados e o Ryan Rasheed (Leb Laze) fazendo um DJ set. Foi uma noite ótima e acho que talvez tenha sido o nosso esquema mais próximo de um “junta junta” como mencionei. Porém com um sentido, um mínimo afinidade musical, uma intimidade com a linguagem de se tocar de forma livre, e tal. E nessas, meses depois, o Gui recebeu um convite do próprio Scott Herren pra ele e o Mauricio tocarem na banda dele para uma turnê de 20 shows pelos Estados Unidos. Dá pra acreditar?

Daí posso citar também o Rob Mazurek Skull Sessions que aí foi um projeto que eu recebi diretamente da Gerência de atividades do SESC SP na época. Eles me pediram para O Rob criar uma banda, tendo por objetivo montar uma apresentação levando em conta a fase elétrica do Miles Davis, para ser parte da programação de uma exposição sobre o trompetista norte americano (Queremos Miles!) no SESC Pinheiros. Daí falei com o Rob e ele montou um octeto (Rob Mazurek, Nicole Mitchell, John Herndon, Jason Adasiewicz, Mauricio Takara, Guilherme Granado, Thomas Rohrer e Carlos Issa), e a Norópolis ficou com a responsabilidade de fazer a produção. Foram duas noites no teatro do SESC Pinheiros em SP. Ainda fizemos a captação do áudio dos shows, levamos para o El Rocha, o Rob mixou com o Fernando Sanches, Mauricio e Guilherme e desse material saiu o LP Skull Sessions (Submarine/Cuneiform). Há também um outro projeto de colaboração chamado Spectrazil, que é formado pelo Spectralina (Dan Bitney, do Tortoise e a suíça Selina Trepp na parte de visuais) + Mauricio, Guilherme e Carlos Issa (Objeto Amarelo). Já aconteceram alguns shows e estamos preparando um material multimídia para ser lançado em 2014.

Não sei, mas acho que sempre estivemos dispostos a dar a cara a tapa, fazer as coisas, jogar para o mundo. E eu acredito muito nisso. No ir ali e fazer, do jeito que você quer, de coração aberto e com vontade. Sem ficar nessas de “agora o que tá pegando é tal som, então vou fazer”, “se isso não dá grana não faço”... Credo, quando vejo isso perto de mim, saio correndo! 

São Paulo Underground. Foto: Paulo Bórgia.





"Não sei, mas acho que sempre estivemos dispostos a dar a cara a tapa, fazer as coisas, jogar para o mundo. E eu acredito muito nisso. No ir ali e fazer, do jeito que você quer, de coração aberto e com vontade. Sem ficar nessas de 'agora o que tá pegando é tal som, então vou fazer', 'se isso não dá grana não faço...' Credo, quando vejo isso perto de mim, saio correndo!"



OUTROS PROJETOS


A partir do Hurtmold, seus integrantes tomaram seus rumos autorais, buscando também de forma pessoal suas expressões. Talvez como uma forma de aplicar e dar vazão a idéias e conceitos que não necessariamente cabem ou caberiam no Hurtmold, se desdobrando em outros projetos. A Submarine lançou o trabalho solo de Mauricio Takara (o primeiro disco, m.takara, de 2003) e também Bodes & Elefantes de Guilherme Granado, que já colocou na rua dois discos físicos, ambos com licenciamento no Japão via Catune, e um registro digital, o Outakes EP", disponível gratuitamente para baixar no site da Sub, inclusive com arte para imprimir e montar a capinha do CD. A Submarine também editou o primeiro álbum solo do guitarrista Mário Cappi, o MDM, lançado em 2010. Bodes & Elefantes, MDM e somando aí Chankas, projeto de canções do também guitarrista do Hurtmold, Fernando Cappi (que lançou de forma independente seu primeiro disco), são artistas representados pela Norópolis em agenciamento de shows.


Pela Submarine, temos também o Elma, que lançou seu primeiro álbum, o Elma LP, de 2012 e acaba de estrear a peça sonora “Corta como Gelo Torto”. O primeiro show foi realizado no fim de setembro no teatro SESC Belenzinho em SP. E possivelmente haverá já no início de 2014 novas apresentações. Esta peça foi escrita/composta por Mauricio Takara que convidou o Elma para ser a banda a colaborar e executar juntamente com ele o show. No palco, Takara opera eletrônicos e conta com o Elma em sua formação completa e original. Na parte de vídeo foi convidado o U-RSO, que faz ao vivo manipulações de imagens. Aqui mais sobre o projeto: http://www.noropolis.net/especiais/mtakara-elma/.

Elma. Foto: Samuel Esteves.










15 ANOS

Dezembro de 1998 foi quando o selo começou, daí agora em dezembro vamos fazer uma série de shows pra comemorar esses 15 anos, seguindo com nossa agenda de shows em paralelo. Dia 01 de dezembro agora tem Guilherme Granado/Objeto Amarelo/MDM Duo na Serralheria em SP. Dia 07, também na Serralheria, Hurtmold lançando o vinil “Mils Crianças” e abertura do Rob Mazurek fazendo um set solo (cornet/eletrônicos). Daí estamos praticamente fechando mais um dia (local a confirmar nos próximos dias) com Elma e Auto. Acho que vai ser divertido e essa é a idéia: nós, bandas e público curtindo.



Fora isso, e vou considerar atividades no mês de 15 anos do selo, tem São Paulo Underground em SP/Sala Olido e no RJ/Festival Novas Frequências. Também teremos Tortoise (EUA) durante quatro dias em SP. Alguns projetos solo dos membros do TRTS em SP e Rio também. Hurtmold tocando no Festival Batuque/SESC Santo André, Hurtmold e o Carlos Issa (Objeto Amarelo) tocando no nosso já tradicional show de arrecadação de brinquedos. E Againe no Hangar em SP. Vai ser movimentado o mês!

Objeto Amarelo (Carlos Issa). Foto: Samuel Esteves.









































FUTURO

As próximas atividades da Submarine previstas são o lançamento do primeiro álbum do Auto, banda que se formou nos anos 90 em SP. Eles saíram no primeiro lançamento da Submarine em 98, mas daí entraram num hiato, mas a banda voltou. O disco está bem bom, prontinho, e agora está na fase de fechar a arte. Queremos lançá-lo em março de 2014. Daí na seqûencia temos mais alguns lançamentos para fazer: Objeto Amarelo, MDM, Bodes & Elefantes. o The Eternals está gravando a suite Espiritu Zombi também. Então com certeza discos não serão problema em 2014.

Paralelamente vamos intensificar o foco na Sereia Edições, que é uma espécie de micro selo/editora dentro da Submarine (são várias empresas né? Risos), onde fazemos tiragens/edições limitadas de registros feitos de forma caseira, em fidelidade “Rawar Style” (fazendo uma alusão aos Eternals). Já lançamos esse ano um pacote chamado “Love Pack” do Bodes & Elefantes, em edição de 40 cópias e já vendemos todas nos shows do Guilherme Granado. O pacote continha um CD-R com três versões remixadas e/ou inéditas do Bodes & Elefantes (seu grupo), uma foto em papel e gravura silkada. E vem mais lançamentos via Sereia Edições em 2014.

E na Norópolis seguimos forte em 2014 com os shows dos nossos artistas residentes (nacionais) vizinhos (que já trazemos e desenvolvemos projetos) e traremos mais atrações internacionais, seja pelo próprio booking ou juntamente com os nossos parceiros.


































































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Para acompanhar a Submarine

Sites oficiais:


terça-feira, 12 de março de 2013

À Beira do Abismo



Uma das obsessões criativas de Rob Mazurek, ou pelo menos uma das mais recorrentes, diz respeito ao seu procedimento de trabalho: “layering”, quer dizer, sobreposição de camadas, de texturas, de culturas, personalidades, possibilidades e trabalhos: “Eu elaboro minhas obras visuais de uma forma semelhante a que organizo o SOM: sobrepondo camadas, dinâmicas de cor, rabiscos estáticos e vermelhos pesados se misturam em uma espécie de nebulosidade do movimento cósmico, embora esteja aparentemente parado.”

Em constante movimento após lançar três discos nos últimos meses — as Skull Sessions com o octeto, Eclusa com o Objeto Amarelo e Stellar Pulsations com o Pulsar Quartet —, o compositor, trumpetista e artista plástico americano relatou ao Matéria um de seus projetos mais mirabolantes. Há alguns anos, Mazurek vem desenvolvendo as partes que integram The Book of Sound, ópera eletroacústica de ficção científica, baseada nos escritos do poeta e cineasta brasileiro Helder Velasquez Smith. Sobreposições, novamente: “Usando o SOM, o VISUAL e o TEXTO, desenvolvo sete horas de festa para os olhos e ouvidos”. 

Natural que se considere a dinâmica de trabalho vertiginosa como o testemunho indefectível de sua personalidade extremamente criativa e radicalmente obstinada. Nascido em 1965 em Jersey City, NJ, Mazurek é geralmente associado à cena de improviso e experimentação jazzística da Chicago dos anos 90. Desde seu primeiro trio, formado em 1996 com o guitarista Jeff Parker e o baterista Chad Taylor até os dia de hoje, Mazurek acumula 25 anos no métier. Seu currículo transpira “ímpeto e tempestade”: mais de 200 composições, muitas delas espalhadas pelos mais de 40 discos que lançou com Exploding Star Orchestra, com as várias formações do Chicago e do São Paulo Underground, SOUND IS Quintet, Starlicker, Mandarin Movie, Tigersmilk, editados por selos como Aesthetics, Cuneiform, Mego, Submarine e Thrill Jockey. Sua marca reside de forma definitiva entre o que há de mais peculiar e avançado no jazz contemporâneo.

Prestes a lançar o quarto trabalho com o São Paulo Underground, batizado ironicamente Beija Flors Velho e Sujo (não, você não leu errado…), o artista segue lançando, tocando, gravando. A superatividade pode denotar uma personalidade forte e auto-centrada, mas o olhar mais cuidadoso revela generosidade e espírito de colaboração incomuns. “É divertido pular no abismo, mesmo que os resultados nem sempre sejam os melhores”. E não foram poucos seus parceiros e colaboradores, dos chapas da cena de Chicago como Jeff Parker e Chad Taylor, até os manos Maurício Takara e Guilherme Granado, sem contar mestres e heróis como Bill Dixon, Pharoah Sanders e Roscoe Mitchell. Abaixo, um pouco dessa generosidade através de uma profusão de palavras, sentidos, sons, cores, maiúsculas e minúsculas…

Bernardo Oliveira

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Entrevista com Rob Mazurek

No texto que acompanha Stellar Pulsations, assinado por Jeff Parker, li talvez a melhor definição de seu trabalho: “Durante a última década ou mais, Rob Mazurek vem explorando a idéia de criar ambientes para perder-se no som”. Como você interpreta este “perder-se no som”? Qual é a posição do artista quando se perde em meio a um ambiente que ele mesmo projetou?
Gosto de pensar que o som pode existir dentro de certos parâmetros determinados pelo compositor/intérprete = MÚSICA... mas também pode existir fora dos parâmetros da idéia de música (ou) de “som organizado”. Como John Cage declarou há alguns anos, o som existe muito bem por si mesmo. Minhas ideias para a distribuição do SOM levam a ideia de Cage em consideração, mas também a estruturação ou concepção de um ambiente sonoro que me agrade e afete mais alguém de forma semelhante.

Em outro nível de compreensão, tenho me interessado na estratificação, na sobreposição de universos sonoros que permitam à composição assumir uma espécie de OUTRO mundo em relação a si mesma. Através da sobreposição de várias camadas sonoras acredito que é possível encontrar uma área escondida, capaz de abrir uma concepção temporal e (ou) atemporal da estrutura da realidade, que nos levaria até mesmo à pergunta extrema: por que existimos? O som é uma ferramenta poderosa para alcançar realidades alternativas ao continuum espaço-tempo e fundir a cabeça, a fim de reconfigurar as soluções possíveis em direção aos primórdios da matéria e da antimatéria. Abertura é a ideia... Abertura...

Me chama a atenção porque, em primeiro lugar, Parker se refere ao “ambiente” e ao “som”, e não à “música”. Ele atribui esta concepção a você, então pergunto: quais as diferenças que você percebe entre a noção de “música” e de “som”? Por que a preferência pelo segundo? 
O som é o que ouvimos. Nós reconfiguramos e reestruturamos o som por acidente a cada vez que mexemos nossa cabeça, andamos na rua, bocejamos, andamos a cavalo, viajamos em um helicóptero ou mergulhamos um metro debaixo d’água. Neste sentido, somos todos compositores por acidente. O mundo do som controlado não existe... Se você tem mil pessoas em uma sala escutando uma peça musical, é absolutamente impossível que cada pessoa ouça o SOM da mesma forma... Agora, eles podem falar sobre ouvir a mesma MÚSICA tocada na sala de tal e tal forma, mas a posição do corpo, o leve movimento da cabeça, o ritmo respiratório particular de cada pessoa, a frequência cardíaca, o bater dos pés, etc., vai sempre levar a uma experiência muito pessoal e íntima, não apenas com base na física, mas no estado emocional e em um milhão de outros parâmetros. Tornar-se consciente do SOM é tornar-se LIVRE.

O que me parece mais impressionante no seu trabalho é que ele mantém uma unidade na diversidade: muitos gêneros misturados, uma quantidade brutal de projetos, mas, no geral, percebe-se o mesmo caráter exploratório e “cósmico”. O mesmo na sua obra visual (em capas de disco ou em White On White), na qual percebemos deteriorações, emaranhados, mas sempre com uma forte unidade visual. A que se deve essa unidade?
Assim como não se pode nunca experimentar um SOM da mesma forma, não podemos também ver algo da mesma maneira. Eu elaboro minhas obras visuais de uma forma semelhante a que organizo o SOM: sobrepondo camadas, dinâmicas de cor, rabiscos estáticos e vermelhos pesados se misturam em uma espécie de nebulosidade do movimento cósmico, embora esteja aparentemente parado. Com minhas fórmulas elaboradas para a ambientação do SOM ou do VISUAL, busco maneiras de varrer a ideia conservadora de sentimento de morte, como forma de abrir o diálogo entre o pensamento, a respiração e os seres humanos compassivos.

"Presenciar borboletas azuis na Floresta Amazônica, uma tempestade em Brasília ou ouvir enguias elétricas no INPA em Manaus constituem influências tão importantes como foram Art Farmer, Bill Dixon, Miles Davis, Alan Shorter, Chet Baker e Don Cherry."




















Li que suas primeiras referências vieram do hard bop, sobretudo Lee Morgan, Freddie Hubbard, Kenny Dorham e, depois, Bill Dixon. Houve inicialmente uma tentativa de síntese desses estilos? Conte-nos um pouco a respeito do processo de formação do seu som como trumpetista?
Primeiramente, você arrisca um som por vontade própria, depois você tenta copiar os mestres. Daí você deve abandoná-los completamente e tentar criar seu próprio vocabulário. Assim como é importante parar de culpar seus pais pelas coisas que aconteceram em sua infância, você deve abandonar sua fantasia de soar como outra pessoa e tornar-se quem você é. Minha trajetória como alguém que faz SOM gira em torno dessa busca. Presenciar borboletas azuis translúcidas na Floresta Amazônica, uma tempestade em Brasília ou ouvir enguias elétricas no INPA em Manaus constituem influências tão importantes como foram Art Farmer, Bill Dixon, Miles Davis, Alan Shorter, Chet Baker e Don Cherry.

Conte-nos um pouco sobre suas primeiras experiências como parte do quarteto formado com George Fludas, John Webber e Randolph Tressler? 
Este foi o meu primeiro grupo. Eu escrevi a maior parte do material nessa gravação e acho que ficou bom. Mesmo neste disco, eu estava tentando desesperadamente encontrar o meu som, tanto em relação à instrumentação, como em termos de composição...

Qualquer biografia a respeito de Rob Mazurek cita a “fértil cena jazz de Chicago em meados dos anos 90” como o ambiente no qual você se afirmou como músico, compositor, experimentador. Gostaria de saber quais seriam, do seu ponto de vista, as características sonoras e conceituais mais fundamentais deste momento? O jazz de Chicago contribuiu para a percepção que temos hoje do jazz e do improviso jazzístico?
O SOM sempre esteve presente em Chicago e sempre estará. Durante a década de 90, quando eu morava em Chicago, haviam grandes músicos que buscavam experimentar com diversos gêneros e com o SOM em determinados ambientes — combinando minimalismo com o rock, peças gráficas com Musique Concrete, Jazz com Punk, Techno com Free Jazz abstrato. Tinha gente como John McEntire e Jim O’Rourke, Fred Anderson e Hamid Drake, Isotope 217 e Chicago Underground, a nova música de computador com pessoas como Casey Rice, Nobukazu Takemura e John Herndon, a nova música contemporânea com os músicos japoneses de noise, uma espécie de explosão de SOM. Estávamos todos viajando e tocando sempre no Japão, influenciando uns aos outros. Isso ainda está acontecendo, como sempre tem acontecido desde o início dos tempos, apenas com instrumentos e estrutura um pouco diferentes. Mas eu diria que a espacialidade do temperamento do centro-oeste norte-americano sempre esteve presente. O ambiente e o som do ambiente.

"Venho testando desesperadamente novas configurações de personalidades e instrumentos, para tentar entender como o som viaja em determinadas situações, e romper o limite cósmico do que a imaginação é capaz de fazer..."

Rob Mazurek e Pharoah Sanders






































Ao mesmo tempo em que você tem milhares de projetos, alguns músicos te acompanham em muitos deles — Chad Taylor, Jeff Parker, Matthew Lux, entre outros. Por que a necessidade de desdobrar-se em uma variedade de projetos? Trata-se de uma decisão “conceitual”?
Um instrumento pode alterar todo o equilíbrio de um SOM. Venho tentando desenvolver um vocabulário com as mesmas pessoas por anos a fio, adicionando ou excluindo membros, misturando pessoa(s) de modo a encontrar as combinações que melhor se encaixem no ambiente de uma composição ou construção particular do SOM. Naturalmente, a fim de construir um vocabulário, você deve dispor de músicos ao redor que estejam dispostos a aprender este vocabulário com você. Isso vai muito além da ideia de escrever algumas músicas e ensaiar para fazer um ou dois shows. Tem a ver com anos de experiência com uma dinâmica rigorosa de tentativa e erro, a fim de encontrar a essência de um SOM determinado. Venho testando desesperadamente novas configurações de personalidades e instrumentos, para tentar entender como o som viaja em determinadas situações, e romper o limite cósmico do que a imaginação é capaz de fazer.



Lendo a respeito de suas influências, percebemos que seus interesses são muito amplos, mas circunscrevem o eixo atmosférico do jazz interestelar de Sun Ra e do Miles Davis da fase fusion. Como se dá a integração de sonoridades menos amistosas — noise, glitches — perceptíveis em projetos como o São Paulo Underground, Mandarin Movie ou em seu trabalho solo? 
O ruído pode ser seu amigo, se você não estiver programado de uma maneira que não te permita escutar a beleza no ruído. E há tantos níveis diferentes de ruído... Quando ouvi pela primeira vez, na minha janela aqui em Chicago, o fraco barulho de um trem à distância, junto ao canto da cotovia balançando no pinheiro próximo à porta, os sinos de vento de quatro casas adiante e os graves robustos do alto-falante de um rapper hispânico que passou ali na calçada por acaso… Isso foi surpreendente! Pensei, “esta é a música que eu quero fazer!” Fui até o toca-discos, pus Nothing Is…, o disco de Sun Ra, e foi ESTE O SOM!! 

Com São Paulo Underground, Mauricio Takara e Guilherme Granado, todos esses artistas e conceitos! Nós fazemos música juntos como um experimento tanto em extremos como também em não-extremos... Quão longe você pode ir quando quer expandir os limites? Quão longe você pode ir com o SOM, quão longe você pode expandir os limites com uma bela melodia, um ritmo de candomblé ou um feedback, o quanto podemos influenciar uns aos outros? É divertido pular no abismo, mesmo que os resultados nem sempre sejam os melhores. MESMO NO RUÍDO EXTREMO há também potencial para a extrema beleza.

"O ruído pode ser seu amigo, se você não estiver programado de uma maneira que não te permita escutar a beleza no ruído."

São Paulo Underground

























A propósito, existe algum plano para reativar o Mandarin Movie? Você se importaria de rememorar alguns aspectos desta experiência?
Está tudo explicado no título da última faixa na gravação: “The Tallest Building in the World” (“o edifício mais alto do mundo”). Sonhei que estava no topo deste edifício, uma espécie de super-bioestrutura que não parava de crescer, com fogos de artifício à distância e tudo ao meu redor. Este foi o SOM que eu estava procurando e parcialmente encontrei através das pessoas do grupo. Foi o único grupo onde literalmente explodi meu trumpete. Nesses shows incendiários, realizados em pequenas venues de punk rock, nós realmente levávamos o som ao limite. E em duas noites diferentes, as articulações do meu trumpete explodiram! Simplesmente explodiram! Pensei comigo: “esta é a música que eu quero fazer!”

Como surgiu a ideia de formar a Exploding Star Orchestra? Surgiu com a intenção exploratória, por exemplo, dos workshops de Charles Mingus?
Não, veio de minha própria ideia de compor para uma paleta maior de cores e personalidades. Expandindo o vocabulário com o qual ja vinha trabalhando há dez anos ou mais, usando todas as minhas faculdades em composição, arranjo, construção, eletrônica, minha experiência com noise, jazz, minimalismo, música africana, brasileira, indonésia, japonesa, mexicana, polonesa, lituana, italiana, croata, de Marte, Júpiter, Saturno e tudo mais que venho acumulando ao longo de anos e anos de desenvolvimento, som e vocabulário. Tudo isso para apresentar uma experiência SONORA por meio de músicos escolhidos a dedo para elaborar um ruído exultante. Eu literal e figurativamente queria e ainda quero EXPLODIR A ESTRELA para novos começos e amores futuros.

Sei que Bill Dixon é como um herói para você. Como se deu a participação dele com a Orquestra?
Bill estava sempre expandindo os limites com suas ideias e seu trabalho. Eu tive o privilégio de passar um bom tempo com o mestre desde nosso primeiro encontro no Festival de Jazz de Guelph Internacional em 2006. Nossa reunião nesta ocasião era para ser fortuita, mas nos tornamos muito próximos depois disso.

Foi na passagem de som de Bill nesse mesmo dia que ouvi o som mais incrível que já tinha escutado até então, que eu gosto de explicar da seguinte forma:

Após a passagem de som, um fotógrafo queria uma foto de Bill tocando seu trumpete. Ele parecia um pouco cansado e pronto para ir embora, após o longo calvário de uma hora para alcançar o som adequado ao local. Bill parou por um segundo, olhou diretamente nos olhos do fotógrafo, colocou o sopro nos lábios e tocou o som mais sublime e poderoso que eu tinha escutado de um trumpetista até então. Era como se a igreja se abrisse e um milhão de pássaros brancos voassem, deixando traços de ouro e prata no céu tingido por uma luz explosiva. O que pareceu para mim uma eternidade foi, de fato, um minuto de som. Ele terminou a peça com uma agitação ascendente, e era como se o som tivesse penetrado os pilares de granito para ser incorporado na rocha por toda a eternidade... e depois ele fez de novo!

Neste mesmo dia, Bill me presenteou com a caixa de 6 CDs da sua obra-prima Odyssey e, mais tarde, tocou em um concerto extraordinário com Joelle Leandre, prometendo que viria para a performance do São Paulo Underground à meia-noite. Eu não achei nem por um minuto que Bill iria aparecer de fato, pois ele parecia absolutamente cansado do concerto anterior. Mas lá estava ele sentado na plateia com Sharon Vogel, sua linda parceira.

"Bill estava sempre expandindo os limites com novas idéias, refinando velhas idéias, buscando o som e o momento..."


Stephen Haynes, Bill Dixon e Rob Mazurek


Fizemos o show, meus nervos um pouco abalados. Estava absolutamente convencido de que tínhamos feito o pior show de todos os tempos, e que Bill poderia me escrever um e-mail educado para pedir a caixa Odyssey de volta, e eu jamais tentaria me comunicar com ele de novo. Mas enquanto eu estava me sentindo pra baixo, Bill irrompeu pela porta dos bastidores com a mais grave das expressões no rosto e felicitou-nos pelo show com um entusiasmo inabalável. Ele parecia particularmente fascinado com a maneira que nós criávamos o som a partir da sobreposição de camadas, com o uso de samplers, computadores, bateria, percussão, voz, trumpete com efeitos... Absolutamente memorável... Foi lá que pela primeira vez discutimos a ideia de fazer algo juntos, o que levou à colaboração de Dixon com a Exploding Star Orchestra.

Infelizmente não houve tempo suficiente para levá-lo ao Brasil para tocar com o São Paulo Underground, o que ele manifestou interesse em fazer. Mas houve tempo para levá-lo como convidado especial para tocar com a Exploding Star Orchestra, em Chicago, no Festival de Jazz de Chicago, em 2007 (onde gravamos Bill Dixon with Exploding Star Orchestra para Thrill Jockey Records), em Lisboa, no Festival de Jazz em Agosto em 2009 (tenho uma gravação incrível desta noite, que deve ser lançada) e na Filadélfia, na International House. Tive o prazer de tocar em Tapestries for Small Orchestra (para Firehouse Records) e tambem naquele que viria a ser seu último concerto em Victoriaville, 22 de maio de 2010.

Após a reunião inicial no Canadá, passei dias e semanas em Bennington, Vermont, na casa de Bill Dixon e Sharon Vogel. Um dia típico seria mais ou menos assim:

Chegada na casa de Bill ao meio-dia. Bill já terá tocado por algumas horas. Ele pede para que eu saque meu instrumento, tocamos por boas quatro, cinco horas, intercaladas com histórias maravilhosas sobre seus dias em Nova York, Bennington, Itália... Ele sempre concentra a lição sobre o som das notas, o som, o som... Sempre procurando o puro tom do instrumento. Discutiríamos composição e orquestração, e por cerca de quatro, cinco horas escutaríamos infinitas gravações que ele fizera ao longo de sua vida. Peças solo, duetos com Cecil Taylor, material inédito da banda Vade Mecum, performances dos alunos, seu quarteto de cordas, performances de dança/música com Bill e Stephen Haynes, noite adentro sem parar, às vezes pulando para um concerto de Bartók ou Hakan Hardenberger tocando “Endless Parade”. Sempre acerca do som, buscando chegar ao centro do som... Fizemos isso todos os dias, durante semanas.

Lembro-me de uma vez quando me preparava para voltar para Chicago, depois de um período de duas semanas com Bill. Parei em frente à sua casa por volta nove horas da manhã para dizer adeus. Me dirigi ao seu quarto e, sobre sua cama, estavam espalhados cerca de quinze a vinte livros de matemática sobre todos os tipos de teorias, idéias... Olhei para Bill e perguntei: “o que está acontecendo aqui?” Ele me olhou muito sério e disse: “deve haver uma maneira melhor para fazer uma maldita boquilha, e eu vou descobrir”.

A mente de Bill estava em constante movimento, criando conceitos e fazendo...

Enquanto esteve em Chicago Bill ficou muito impressionado com as grandes esculturas sem cabeça intitulada “Ágora de Magdalena Abakanowicz” no Grant Park. Ele estava trabalhando em uma peça que imaginou para lançamento em TV e em áudio, centrado em torno da idéia dessas esculturas com entrevistas com o artista e música escrita para dois trumpetes, o meu e o dele. Era para ser lançado pela Thrill Jockey. Infelizmente não houve tempo suficiente para realizar este projeto.

Bill estava sempre expandindo os limites com novas idéias, refinando velhas idéias, buscando o som e o momento. A passagem de Bill é uma perda devastadora, mas sua obra imensa e a memória de seus métodos rigorosos, sagacidade, humor e inteligência vão ficar comigo para sempre.



Trabalhos como Boca Negra e Age of Energy diferem em forma e conteúdo dos discos com a orquestra, o quarteto e, o mais estranho, o trio… Existe uma lógica conceitual dentro dos trabalhos e das várias formações do Chicago Underground?
SIM, a lógica é criar uma música interessante através de todos os meios que se fizerem necessários. Tenho tocado com o Chad por mais de vinte anos. Nós ainda construímos um vocabulário sob o pretexto de que QUALQUER COISA PODE SER FEITA A QUALQUER MOMENTO. Por isso usamos o básico de nossos instrumentos (bateria e trumpete) como um trampolim para outras maneiras de elaboração do SOM, de tal forma que consigamos projetar a UNIDADE e a GRAÇA à nossa própria maneira. Pianos, computadores, drum machines, marimbas, mbira, caixas de eco, flautas, vibes, voz, sintetizadores, samplers, wood blocks foram utilizados. A idéia é fazer um enorme e belo barulho através de ritmos ondulantes, linhas sequenciadas pesadas de baixo, aparelhos eletrônicos, som ambiente, mbira “assombrada” e estruturas melódicas dolorosamente belas... É o nosso SOM e tenho muito orgulho disso.

"São Paulo, em particular, possui hoje essa energia para músicos criativos e arte em geral. Isto influiu na minha decisão de morar lá e trabalhar com músicos e artistas de todo o país."



Por que escolheu viver por um tempo no Brasil? E o que de mais valoroso e interessante o núcleo brasileiro trouxe para seu trabalho?
Falemos sobre o Ekundayo, um grupo maravilhoso concebido pelo infinitamente criativo Rodrigo Brandão, um cara original em personalidade, energia, idéias, SOM e tudo mais. Ele teve a idéia de montar a banda, que inclui o São Paulo Underground, o grande músico e repentista (“wordsmith”) Mike Ladd, o incrível Naná Vasconcelos, os versos doces de Lurdez Da Luz e Brandão, tudo misturado pelo brilhante produtor novaiorquino Scotty Hard. Para mim, esta é a ideia de colaboração no sentido de lançar um som de verdade, uma ideia verdadeira... Isto parece que só poderia acontecer no Brasil.

São Paulo, em particular, possui hoje essa energia para músicos criativos e arte em geral. Isto influiu na minha decisão de morar lá e trabalhar com músicos e artistas de todo o país. Guilherme Vaz é um dos tesouros do som e das artes no Brasil. Suas ideias tem me afetado profundamente. Por exemplo, coletar o som de um índio pertencente à uma determinada tribo e criar uma peça a partir disso, o poder de tal ideia! Buscando imaginar, em primeiro lugar, a própria origem do som! Muito interessante para mim... Radical, eu diria...

Há um trabalho muito interessante e poderoso feito pelo artista Nuno Ramos (tive o prazer de conhecê-lo em seu estúdio) que vi no Instituto Tomie Ohtake há alguns anos. Recipientes cheios de vários líquidos: petróleo, glicose, vinagre, água do mar, em diálogo com bombas, tubos e estruturas de vidro. Uma enorme escultura em 3D, pinturas nas paredes que pareciam um carnaval flutuante de outro mundo, bastante lírico para os meus olhos... 

Esta exposição parecia uma absoluta des-construção e re-instalação, que só se torna possível quando a imaginação solta os bichos. Você quer saber se o tigre vai pegar a imaginação e transformá-la em carne moída ou se voará para uma nova dimensão especificamente projetada para manter o músico alerta e proteger a imaginação. Quando vou ao Brasil minha imaginação se eleva, o sentimento de nuvem morna cai suavemente sobre o rosto e me deparo com uma espécie de dualidade do tempo que só poderia ser descrita com uma imagem do Rio Negro. Sentado em um pequeno barco e acariciando as cabeças gigantes dos botos cor de rosa que habitam essas águas mágicas, enquanto imagino uma orquestra de enguias elétricas debaixo das ondas suaves...

Quando escutamos sua colaboração com Takara e Granado, é possível detectar ecos nítidos da música brasileira dos anos 70 como Hermeto, Clube da Esquina… Havia um interesse pela música brasileira antes de seu primeiro contato com essa turma?
Antes e depois: Pedro Santos (Krishnanda), Belchior, Caetano Veloso, Guilherme Vaz, Chico Buarque (Construção), Jobim, Tamba Trio, Milton Nascimento, Moacir Santos, Naná Vasconcelos, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Cartola, Nelson Cavaquinho, Marisa Monte, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Clementina, Gal Costa, Ratos de Porão...


"Explorar a ideia de reconfiguração radical das coisas: eis um conceito que me parece estimulante."

Rob Mazurek Octet – Foto: Lane Firmo


Retomando a questão visual, podemos perceber que esta tendência em explorar as “fronteiras” se estende para sua prática como artista plástico. Você mantém o mesmo sentimento aplicado à música quando propõe interações interdisciplinares entre som, música e artes visuais?

Quando você sobrepõe grandes camadas de tinta sobre uma superfície, segue-se um acréscimo de emoções, o sentimento e o gosto por alguma coisa é ativado. Esta ativação é o que é importante para mim tanto com relação ao SOM como em relação ao visual. Meu bom amigo, escritor, professor, crítico de arte Tiago Mesquita me perguntou uma vez “por que você trabalha com limites em seus quadros? Por que não tratá-los como objetos que não tem começo nem fim?” Pensei a respeito e compreendi que essa ideia poderia ser aplicada tanto ao visual quanto ao som.

Você também pode levar em consideração o trabalho de Nelson Félix, outro artista brasileiro que admiro. Ele dispõe placas gigantes de aço ao longo de um caminho de figueiras que em 100 anos ou mais irão deformar o metal, transformando-o em estruturas orgânicas. Isso com base no modo como as árvores se apropriam e transformam o metal através do tempo... Pensei: “como isso pode ser feito com som?” Como produzir uma estrutura atemporal de SOM que será entortada, mutilada, empurrada para seus limites ao longo de um período muito longo de tempo e, em seguida, conduzida suavemente de volta para o mundo das coisas? Explorar a ideia de reconfiguração radical das coisas: eis um conceito que me parece estimulante. Como Tunga, como Hélio Oiticica, como Maurício Takara, como Guilherme Granado, Paulo Monteiro, Rodrigo Andrade e Panda (Antonio Panda Gianfratti).

O que mais te interessa na exploração das artes visuais? De que forma essas instâncias (som, imagem) dialogam no seu trabalho?
Eu estava assistindo a um filme chamado Girl on a Motorcycle, que destroça uma história bastante comum... É muito mais interessante para mim do que as besteiras de Hollywood... Por que nesse mundo a mágica das coisas tem que ser extirpada de tudo em favor da chamada “sociedade normal”? O SOM e a IMAGEM possuem potencialidades, é preciso manipulá-los, quebrá-los, martelá-los, acariciá-los, beijá-los, afundá-los, enterrá-los, catapultá-los para novas dimensões, a fim de iniciar um diálogo entre universos. Às vezes o que está escondido é mais poderoso do que o que é visto: o poder das pinturas advém das qualidades subjacentes à coisa pintada, a energia acumulada ao longo do tempo, do pensamento e da ação. O poder do SOM emerge quando você toma uma simples partícula de alguma coisa e a transforma radicalmente através da beleza, do ruído, do tempo e tudo mais, para lançar bandos de aves em direção ao céu azul. O sol assimila essas imagens, esses SONS e sentimentos, e o universo responde... Som e imagem devem ser amantes... O potencial para voar

Você poderia falar um pouco a respeito de cada um dos três discos que você lançou recentemente: o 7” com o Objeto Amarelo, as Skull Sessions e o Pulsar Quartet? Soube que tem um São Paulo Undeground a caminho…
Carlos Issa é um ser humano brilhante. Em sentimento, em SOM, em VISÃO, uma ave rara que ATIVA o ambiente e tem a sensibilidade para deixar que algo se desenrole tão naturalmente como rebanhos de renas no sol do ártico.

A gravação de meu octeto para as Skull Sessions se concentraram na criação de camadas de SOM a partir do potencial de oito seres humanos colhendo flores no campo e criando nuvens de cor e êxtase harmônico em direção aos céus. A flauta sônica de Nicole Mitchell, a escala de ouro da rabeca de Thomas Roher, juntamente com os ritmos propulsores de Herndon, a metálica “ressurreição dos mortos” de Jason, Guilherme soltando os bichos na mão esquerda do synth bass, e a percussão avançada de Maurício (que também toca seu cavaquinho de prata), com os ruídos brilhantes de Carlos indo de encontro ao tornado de moléculas de som...

Já o Pulsar Quartet são quatro pessoas tocando estruturas musicais com a liberdade de vaga-lumes que gentilmente espiralam pelo ar fresco da noite. O piano de Angelica Sanchez reproduz bálsamos de felicidade, com o baixo Matt Lux ornamentado pelas pancadas de John Herndon e meu trumpete “serpenteando” através do espaço.

O novo São Paulo Underground se chama Beija Flors Velho e Sujo, uma espécie de grito para os Ol Dirty Bastard, a idéia de romper a barreira para o outro lado de uma coisa através da potência do som e da beleza. Trabalhar com Maurício e Guilherme é uma das coisas que eu mais gosto de fazer no mundo. Beleza sônica, amizade pessoal, honestidade e uma razão para mergulhar no éter de possibilidades, tanto musicalmente quanto pessoalmente. Meus irmãos.



Uma colaboração recente que me chamou atenção foi no disco do Marcelo Camelo. Qual a principal diferença que você sente quando precisa trabalhar com cantores e canções?
Marcelo é uma coisa rara. Tão atencioso e carinhoso. Quer trazer a beleza e as cores para o ambiente. Suas canções são poderosas e estranhas ao mesmo tempo. Trabalhamos juntos há alguns anos e eu vim a perceber que, para mim, o seu poder vem de seu coração. Trabalhar com o escritores, músicos, cantores e rappers criativos como Marcelo, como Kassin, como Malu, como Jorge du Peixe, como Vanessa da Mata, como Rodrigo Brandão, como Will Oldham, como Tulipa, é um prazer e um sopro de ar fresco.

Por fim, li na entrevista recente uma lista de seus próximos projetos e fiquei curioso para saber mais sobre Extreme Musique Concrete e Illumination Drones
Isso tudo caminha na direção da minha grande ideia de uma ÓPERA. Uma ópera abrangente de ficção científica multimídia baseada nos escritos de Helder Velasquez Smith. Usando o SOM, o VISUAL e o TEXTO, desenvolvo sete horas de festa para os olhos e ouvidos. Nesta peça vou incluir minhas ideias para Extreme Musique Concrete, Illumination Drones e dois pequenos contos que ocorrem dentro do ópera chamados Android Love Cry e Throne of the House of Good and Evil, todos sob o seguinte título: The Book of Sound.

A concepção de Extreme Musique Concrete e de Illumination Drones é, mais uma vez, centrada nas sobreposições, criando situações em que a massa de informações torna-se outra coisa. Os harmônicos do som, os harmônicos da visão são constantemente multiplicados até que a ILUMINAÇÃO assume, formando os seus próprios estalagmites alados de uma brilhante revelação.

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Entrevista realizada e traduzida por Bernardo Oliveira (via email), para o blog Matéria.
Agradecimentos ao Fred (Submarine/Norópolis), Tiago Campante, Antonio Marcos Pereira e Mariana Mansur

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