segunda-feira, 16 de julho de 2007

playlist 16.07/07

um bate papo enorme e espinhoso no overmundo, joão donato, joão gilberto, elza soares, um elepê matador de aniceto do império e nilton campolino (salve a coroa imperial!), um ep do bom e velho (e debochado) ween (the friends), o novo (e bobinho) do spoon (ga ga ga ga ga), o excelente álbum do queens of the stone age (era vulgaris), a obra-prima intuition de lennie tristano, e três filmes intrigantes, um de eric rohmer (a inglesa e o duque), outro de mel gibson (apocalypto) e um terceiro de gus van sant (last days) + um chatérrimo: zodíaco, do bom (?) david fincher…

como numa dessas praças cercadas pelos romances de fim de semana, eu carrego a ti, tarde de julho, num pós operatório daqueles… a nostalgia ocasionada pela carga pesada de remédios, mas também pelo próprio corte, justo na goela, uma tireodectomia de tirar o fôlego… ânimo combalido, mas alerta, vou passeando entre sensações dolorosas e interessantes, sondando meus estados de espírito e humores em concomitância com a reação da pele, dos músculos, das vísceras, a cicatrização latejante, os tenebrosos efeitos colaterais da anestesia e do dormonid… e me lembro, mais uma vez de nietzsche, e do seu livro de convalescença, a gaia ciência, onde ele escreve:

… desde que se é uma pessoa, tem-se necessariamente a filosofia de sua pessoa: mas há aqui uma notável diferença. num homem, são as deficiências que filosofam, no outro são as riquezas e forças. o primeiro necessita da sua filosofia, seja como apoio, tranquilização, medicamento, redenção, elevação, alheamento de si; no segundo ela é apenas um formoso luxo, no melhor dos casos, a volúpia de uma triunfante gratidão, que afinal tem de se inscrever, com maiúsculas cósmicas, no firmamento dos conceitos. mas naquele outro caso, mais freqüente, em que as crises fazem filosofia, como em todos os pensadores doentes ⎯ e talvez os pensadores doentes predominem na história da filosofia ⎯: que virá a ser do pensamento mesmo que é submetido à pressão da doença?

sempre tive uma implicância, não com kant, esse autor tão interessante quanto ultrapassado, mas com a celebridade de que ele goza na academia, com sua decantada “contribuição fundamental” no horizonte do pensamento ocidental, como um “beatles” ou um “elvis” da filosofia… e também com a aura de respeito que ronda seu nome santo, na minha opinião, inadequada para acessar qualquer filosofia. há pouco li uma frase de thomas de quincey, em que ele afirma, categoricamente: “to suppose a reader thoroughly indifferent to kant, is to suppose him thoroughly unintellectual”. talvez, como pensam meus amigos leonardo martinelli e leandro salgueirinho, não tenho de fato uma cabeça muito intelectual, e só de birra, tento trazer o “pensamento” para meu mundo de prazeres sonoros e visuais. sinto que “filosofo” como meus amigos baianos: espontaneamente e, portanto, nem sempre fixo o pensamento em conceitos, quase nunca sou rigoroso, embora possa eventualmente tocar, em pensamento e sensações, a “dura verdade”...

ora, mas não foi o mesmo kant quem escreveu que “o sensível da arte somente se relaciona com os dois sentidos teóricos da visão e da audição, enquanto o olfato, o paladar e o tato ficam excluídos da obra de arte?” não. foi hegel, em sua estética, ultrapassada não pelo tempo e pelas coisas, mas por sua própria “doença”. kant e hegel adoeceram porque acreditaram piamente nas suas ficções e não levaram em consideração uma saúde como a minha, carregada de desregramento, que, em seu mais alto momento, tem necessidade vital de filosofar sobre a comida e o sexo…

assim, discordo de hegel: o paladar e o tato também são sentidos intelectuais, pois remetem, sem dúvida, a uma dimensão do pensamento, tratando-se de arte ou não. o toque na pele, nas mucosas, a saliva e a língua sobre os órgãos genitais, o que esses toques produzem, evocam… o pato cozido, ao molho agridoce, as ovas de salmão, os insetos caramelizados, o ovo cozido… como formar conceitos a partir dessas experiências? será que o conceito é o supra-sumo da filosofia, como quis deleuze? seria possível comungar de uma experiência filosófica “interna”, sensorial? não me refiro ao “grunhir e peidar” dos seminários sloterdijk, mas de uma dimensão em que o fazer filosófico não se realiza necessariamente através do texto, mas da sensação e do encontro de sensações, individuais ou coletivas… algo como um banquete anti-platônico, teso, irregular e silencioso. uma dimensão do filosofar e da filosofia que não adquire expressão conceitual, mas também não está privada de linguagem, ainda que fugidia…

não se trata também de uma aisthesis, de uma ciência dos sentidos… mas de uma perspectiva sobre o sensível que, reincorporado ao conhecimento, produz novos “sentidos”… eu sinto e, ao sentir, filosofo. adquiro, portanto, o sentimento de uma síntese imperfeita dessa dimensão a que nietzsche nos chama atenção: filosofo, portanto, com minhas deficiências e riquezas, com minha elevação e sublevação, como “formoso luxo”, como volúpia… minha volúpia pela comida e pelo sexo são meus pensamentos mais imperfeitos, mais preciosos, minha filosofia…

e de que volúpia me refiro senão à mesma que sobra nesse revoltante mel gibson de apocalypto (?!), que atua na medida sobre o filme do rohmer e que faltou a kurt cobain em seus last days… a volúpia do canto empolgante de elza soares, dos versos maliciosos de aniceto e campolino, e do debate extenso e repleto de mal entendidos que travei no overmundo, sobre um tema espinhoso e problemático: “a mulher”… uma volúpia heterogênea, certamente. anti-kantiana, anti-hegeliana, anti-juridista, inescrupulosa, egoísta, e até mesmo, anti-nietzschiana. uma volúpia saudável por cortesia da doença, saudável porque doente…

a doença dialoga com minha volúpia, e também se deixa levar por ela. as palavras são apenas um pálido reflexo dessa experiência…

sexta-feira, 13 de julho de 2007

direita e esquerda de um ponto de vista psico-fisiológico... - parte 2

o texto a seguir foi escrito pelo professor de filosofia da febf/uerj, maurício rocha, em comentário ao post "direita e esquerda de um ponto de vista psico-fisológico..."

"Os relatos históricos sobre Roma antiga registram a primeira greve geral de que se tem notícia cinco séculos antes de Cristo — a greve do Monte Sagrado. O evento marcou os embates entre os patriciado (velha nobreza romana) e a plebe. Afrontando a indiferença, o desprezo e a exclusão dos círculos do poder e da riqueza, a plebe impôs três conquistas após parar Roma e arredores: sua representação no Senado romano (que só posteriormente seria feita por um plebeu); a intocabilidade desse representante — que estava ali para conter os abusos dos poderosos; e sobretudo o direito a vetar qualquer medida ou lei que parecesse prejudica-la. A instituição do “tribunato da plebe” certamente não democratizou as estruturas de decisão, nem afetou a desigualdade social, nem assegurou uma paz social consistente, na forma de um equilíbrio de poderes entre ricos e pobres — o que se constata ao longo da sangrenta e conturbada história republicana de Roma. Os avanços obtidos foram mesmo modestos, em comparação com as exigências (ser legionário, trabalhar para enriquecer os outros etc. etc.). Por sua vez, os oligarcas procuravam pretextos para confiscar seus já limitados direitos. Como mostra um episódio, narrado por Plutarco (depois por Maquiavel e Shakespeare, mas ausente de muitos dicionários de “filosofia política”): por volta de 493 a.C., Coriolano aproveitou-se de uma crise de abastecimento e pressionou a nobreza proprietária a suspender a venda de grãos. Com a fome grassando entre os romanos, ele queria chantagear a plebe propondo a suspensão das conquistas obtidas em troca dos alimentos. Os nobres, com medo da multidão revoltada, não o acatam e por fim o banem. Buscando vingança, Coriolano se alia aos Volscos, inimigos de Roma, e sitia a cidade até finalmente ser assassinado. Na tragédia de Shakespeare, Menenius Agrippa, amigo de Coriolano, aparece perante a plebe reunida no Monte Palatino e apresenta o apólogo sobre os membros (os plebeus) que se rebelam contra o estômago (os patrícios), prejudicando todo o corpo. Com sua revolta, a plebe arruinaria os patrícios, mas não escapariam da própria ruína... Tudo isso é para dizer que direita sempre esteve por aí (um helenista perguntaria: e os gregos? e os gregos?). Já a esquerda..."

domingo, 8 de julho de 2007

os melhores discos de metal de todos os tempos…

às vezes compreendo porque meu avô
implicava com o metal...



a meditação sobre o passado nos torna reféns de miúdas reminiscências, acúmulo de detalhes devidamente esquecidos, que entretanto constituem nosso caráter, determinam nossa forma de ver e levar a vida. no meu caso, lembro com muita alegria do meu avô, este a que me referi no post sobre stevie wonder. mas lembro-me também, com igual nostalgia, sua implicância comigo, com meus modos, com meu estardalhaço… nem sempre ele estava disposto a aturar minhas idiossincrasias, nem sempre eu a suportar sua implicância. éramos fiéis representantes daquela amizade espinhosa, que parece aumentar conforme uma longa história de mal entendidos passa a tomar a monstruosa forma da intimidade…

e, no fim das contas, eu sempre imaginei que boa parte do mal relacionamento que tive com meu avô adveio do meu gosto inegociável pelo rock’n’roll e, mais especificamente, pelo metal. para se ter uma idéia, foi no meu aniversário de 10 anos que, estupefato, ele foi obrigado a me presentear com speak of the devil, cuja capa trazia um incompreensível ozzy osborrne vomitando supostamente um morcego... fã de black music, jazz, samba e bossa, ele não conseguia entender como eu podia gastar tantas horas no quarto ouvindo uma música extremamente barulhenta e repleta de alusões à morte e a coisas nojentas. qual era o prazer que se extraía dessa experiência, no mínimo… masoquista? talvez sua implicância não passasse de uma curiosidade mórbida em saber o que me afligia para que eu cultivasse um som tão estridente e de mal com a vida…

o heavy metal e suas vertentes, como o thrash, o death, et cetera, advêem de diferentes fluxos de interpretação do rock’n’roll dos anos 60: blue cheer, a quebradeira do the who, algumas faixas de jimi hendrix como “in from the storm”, ou dos beatles de “she’s so heavy”… de forma que, sendo multiforme a matriz, talvez não tenhamos como nos referir ao metal como um gênero, mas, assim como o jazz, seja mais proveitoso considerá-lo como um “conceito”, ou como um “espírito”…

entretanto, nesse bambual de referências, houve um ponto de virada na década de 80, representado pelo thrash metal do metallica, do anthrax e do slayer. num certo sentido, essa trinca libertou o heavy metal do rock’n’roll: não mais a levada suingada e largada, mas a palhetada firme, ritmada, sempre distorcida; não mais a bateria solta, quebrada, mas uma seqüência ritmica firme, precisa, por vezes marcial… tudo isso elevado à quinta potência em relação aos já barulhentos representantes do metal tradicional e do death e black metal. por outro lado, mesmo dentro do contexto metaleiro, eles inovaram até no visual: se antes, as bandas de metal primavam pelo figurino medieval-sadômasô, estes arautos do “metal trabalhado” trouxeram bermudas floridas, tênis coloridos e acessórios antes nunca usados pelos adoradores do gênero. o preconceito contra essa postura mais descontraída aumentou quando o anthrax lançou o ep i’m the man, uma mistura de rap e metal que não desceu a goela dos headbangers mais radicais… enfim, me parece que o thrash ⎯ até por conta de sua influência punk ⎯ criou uma sonoridade diferente de tudo o que havia sido feito até então em termos de metal…

se antes, black sabbath e deep purple atazanavam minha família, imaginem a nova roupagem trazida não só pela “santa trindade do metal”, como também por bandas contíguas como exodus, kreator e sepultura? lembro até hoje a cara de mamãe ao escutar pela primeira vez a voz de max cavalera (“por que ele canta assim?”). lembro também de chegar no meu primeiro emprego, uma locadora de vídeos em vhs, com o beneath the remains embaixo do braço. meu patrão tomou o disco da minha mão e exibiu para os clientes da loja: “olha o que esse cara gosta: sepultura, vê se pode…” depois, à boca pequena, ele me pediu para não levar mais aquelas capas para a loja, afinal "podia trazer mal olhado"... por gostar de metal sofri muita humilhação no fim da década de 80...

assim, penso que chegou a hora de acertar as contas com meu passado. eleger e justificar alguns dos melhores discos de metal de todos os tempos pode me ajudar a responder a seguinte pergunta: valeu a pena? tanta briga, tanto desentendimento… para quê? para defender o metal das injúrias do bom gosto? talvez nessa cruzada inglória eu tenha encontrado uma razão para viver… talvez se não fosse o metal eu não teria tomado o rumo que tomei na minha vida, e nem esse blog existiria…

(sem ordem)
roots – sepultura
a mais alta expressão do metal: pesado, sujo, suingado, mas também disciplinado, repleto de convenções complexas e sonoridades esdrúxulas… mas o que admira mesmo é o diálogo que roots mantém com a “tradição”, por assim dizer. trata-se de um disco de metal “culto”, que dialoga com black sabbath, com o thrash, com o punk, com outros gêneros não tão metaleiros como o funk, com experiências de arranjo e de gravação sem igual. a bateria de igor cavalera dá um show à parte, e, na minha opinião, foi imitada por 99% das bandinhas de metal pós 96, inclusive pelo lars ulrich de saint anger. enfim, trata-se de um disco de metal não só acima da média do metal, como também criado e desenvolvido fora do contexto do metal.

persistence of time – anthrax
esse trabalho não é fácil, pelo contrário, às vezes exagera no cuidado, na busca de um tempero, de uma melodia… lembro que quando saiu, dividiu opiniões. ouvindo hoje, percebo melhor que seu grande “defeito” era no fundo o mérito de criar, dentro do universo conservador do metal, uma gramática diferente de tudo o que havia até então. os discos anteriores (mesmo o clássico among the living) eram ainda demasiado representativos de um movimento, do qual fizeram parte reign in blood e master of puppets, isto é: conservava clichês e concepções de arranjo comuns. persistence of time, por sua vez, indica a maturidade não somente do grupo, mas sobretudo do próprio metal. talvez por isso o disco seja obssessivamente ligado à idéia de tempo, como se quisesse dizer ao ouvinte conservador que prezar pelo "início" já não importava tanto…

vol. iv – black sabbath
com esse disco o black sabbath conseguiu a seguinte façanha: honrar o tradicional peso no som, sem prejuízo da experimentação. faixas como “supernaut”, “snowblind” e “tomorrow’s dream”, ao mesmo tempo que influenciaram um sem número de bandas, são absolutamente únicas. “supernaut” possui uma coda, ao som de percussões e violão, absolutamente suingado. é o peso com classe, com criatividade nas texturas, nas melodias duras, mas belas, na dinâmica entre baixo e bateria. ah, sim, como não destacar o trabalho preciso e objetivo deste monnstruoso bill ward? sem nenhum medo de pôr o clássico na frente, o que poderia sugerir uma dose de conservadorismo, volume 4 é, sem sombra de dúvida, o melhor disco dessa relação…

and justice for all… – metallica
sem dúvida, uma opção polêmica. o headbanger radical, conservador, prefere o kill’em all. o mauricinho farofa prefere o black album. alguns certamente preferirão master of puppets, o disco da virada… de minha parte, devo dizer que and justice for all… é o melhor por diversas razões: porque é um disco de convalescença, recuperação, superação; porque é o melhor trabalho de bateria que já se viu em um disco de metal; porque as músicas diferem de tudo o que o grupo fez antes ou depois (destaque para “dyers eve”, “frayed ends of sanity” e para a fenomenal “the shortest straw”…); porque são as convenções mais complexas e interessantes de todo o metal; porque, apesar de todo rebuscamento e virtuosismo, and justice for all… tem punch, tem pegada de rock’n’roll; porque o ritmo nunca cai, o astral nunca baixa, nem quando homenageia o falecido baixista cliff burton...

reign in blood – slayer
reign in blood é um disco arrebatador. abre com “angel of death”, homenagem (?!) a joseph mengele, médico nazista que realizava experiências com seres humanos em campos de concentração… e depois não pára mais, nos 28 minutos mais abomináveis da história da música. no som, velocidade, violência, morbidez, solos estapafúrdios… nas letras, decapitações, assassinatos, torturas (reparem “piece by piece”: “modulistic terror / a vast sadistic feast / the only way to exit / is going piece by piece”)… no fim do disco, somos literalmente cobertos de sangue (“raining blood”)… o baterista dave lombardo é uma figura à parte: sua utilização do pedal duplo assusta… em suma, reign in blood é um clássico desde seu nascimento, embora traga uma horrível sensação de desamparo, desespero e baixo astral…

time’s up – living colour
tá certo, time’s up não é exatamente um disco de metal. tem uma salsa (“solace of you”), um rap soul transcendental (“under cover of darkness”), um blues romântico (“love rears its ugly head”) entre outros “corpos estranhos”… mas contem comigo: a faixa título, um thrash metal inequívoco; “new jack theme”, cujas referências techno misturam-se à distorção; “information overload”, com um solo cerebral de vernon reid, e o riff de “type”; e mesmo “elvis is dead” e “pride” carregam aquilo que o metal tem de mais característico: o sentimento de “peso” extraído de uma utilização estridente e marcial da guitarra distorcida. e é esta característica que delimita, em meio a tantos estilos, a condição metaleira de time’s up.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

uma cantora...

minha carência por cantoras poderosas foi devidamente suprida no último fim de semana. fã de clementina, elizeth, alcione, aracy, elza, maysa, bethânia, como me contentar com a doçura exagerada, com o repertório insosso, com as maneiras standard que acompanham esse inesgotável manancial de “cantoras ecléticas”, esta verdadeira sangria desatada que assola nosso país? ora uma luísa dionísio aqui, uma ana costa acolá, e ainda assim fica difícil não perceber o fio de mesmice que atravessa nossas jovens cantoras…

e seria muito injusto se eu citasse a cantora sem situá-la no seu devido contexto. capitaneado pelo instrumentista brasileiro benjamin taubkin, o grupo américa contemporânea reúne músicos de diversos países da américa latina: do saxofonista e flautista alvaro montenegro (bolívia), do incrível violonista aquiles baez (venezuela), do percussionista luis solar (peru), do multi-instrumentista e cantor carlos aguirre (argentina), do rabequista siba (brasil), do percussionista ari colares (brasil) e do contrabaixista christian galvez (chile). o grupo, que lançou seu primeiro álbum em 2006 (américa contemporânea ⎯ um outro centro), produz uma sonoridade efusiva, colorida e, sobretudo, contemporânea. friso e repito o “contemporâneo” pelos mesmos motivos que levaram benjamin a formar o grupo: a necessidade de investigar esta música que se faz na américa do sul, essa reserva inesgotável de ritmos e sonoridades tão diversificada quanto desconhecidas por nós, brasileiros…

mas falemos dessa sensacional e surpreendente cantora colombiana, lucia pulido. lucia não só participa como cantora deste projeto, como também confere ao espetáculo um tom dramático que quebra a supremacia dos músicos, essa raça narcísica por definição… ela é daquelas cantoras que se agigantam no palco e nos comovem até a medúla com sua voz inexplicável, sua força interpretativa, sua sensualidade austera… carregando ora um chocalho, ora um par de baquetas que utiliza em seu próprio corpo, lucia leva o público às lágrimas com “panguito lando”, no pout-pourri “canto de vaqueria / el gavilán” e na música de abertura do espetáculo, “carmelita, adiós”. lágrimas que são extraídas não por obra de um virtuosismo educado, mas, supreendentemente, por um timbre pessoal e intransferível que evoca cantos tradicionais, música árabe e jazz. lucia não só interpreta de forma diferenciada, explorando entonações incomuns, como também foi presenteada pela natureza com um timbre de voz agridoce, que varia de um sussurro rascante, até o grito característico dos cantos de aboio, muito comum no centro-oeste brasileiro...

não vou explanar a carreira de lucia, pois não a conheço. mas recomendo vivamente o acesso ao seu site, www.luciapulido.com e também a compra de todos os seus discos. pra quem compreende a carência a que me referi acima, eis um bálsamo e um alívio…

sexta-feira, 22 de junho de 2007

revendo amigos: stevie wonder...


o torrents me possibilitou o download das obras completas de steveland judkins hardaway, o popular stevie wonder. ainda na infância tive contato com as músicas desse sujeito formidável, pelas mãos de meu avô, paulo cordeiro de carvalho, um verdadeiro amante da black music (ele admirava michael jackson e prince ⎯ a quem chamava “praince” ⎯, e quando lhe dei um disco do roy eldridge, ele reagiu, bravo: “pô, o prince lança um disco [purple rain] e você me presenteia com essa velharia!?”).

ouvíamos muito a coletânea original musiquarium, de 1982, que contém os hits perfeitos que serviram de base para muitos shows de stevie: “you’re the sunshine of my life”, “isn’t she lovely”, e uma inédita chamada “do i do”, com participação de dizzy gillespie, cujo intermezzo de percussões levava meu avô ao delírio… depois, descobri, com igual espanto e entusiasmo, os discos dos anos 60: “signed, sealed & delievered”, “my cherie amour” e “for once in my life”, que embalaram meus casos de amor no início da década de 90… me admirava, sobretudo, a evolução do cara em termos de arranjo, composição e interpretação, que desembocaram nas obras-primas como talking book, innervisions e songs in the key of life… faixas como “sir duke”, “don’t you worry ‘bout a thing”, “ebony eyes”, “looking for another pure love” e “golden lady” fizeram minha trilha sonora dos anos 80 e 90.

destaco porém “maybe your baby”, do disco talking book, uma faixa inacreditável. stevie gravou várias vozes com a freqüência alterada, de modo a fazer uma espécie de coro feminino; a bateria recorta a música, ressaltando o riff áspero do teclado; no final, as várias vozes se misturam, variando o mesmo tema, mas repetindo a frase: "maybe your baby don’t make some other plan…" me fascina também “living for the city”, do álbum innervisions, improvável épico urbano, repleto de intervenções e ambiências, e com um detalhe eletrizante: a voz rascante, à la max cavalera, com que stevie canta a segunda parte da música. com o perdão da frescura, até hoje me arrepia…

as interpretações da década de 60, como em “you met your match”, “i’d be a fool right now”, “shoo-be-doo-be-doo-da-day”, entre outras, demonstram que stevie lida com sua voz como se fosse um instrumento musical, variando as notas à moda de um saxofone, ou qualquer outro instrumento que permita a realização de glissandos, passagens contínuas de uma nota a outra. por outro lado, a genialidade de compositor e, sobretudo, de arranjador, mostram que stevie é, não só um dos mais ousados artistas do século xx, como também um dos que mais revelam o espírito da época: suas músicas são conhecidas por todos…

então, chegou o grande dia: o show. tive a felicidade de descolar uma credencial para todos os shows do free jazz festival daquele ano. se não me engano, assisti também a tito puente e celia cruz (com participação de caetano veloso) e ao maravilhoso e absoluto al green, que, no fim do show, foi abalroado nos bastidores por minha pessoa, abraçado e beijado num dos maiores micos que paguei na vida… ele me olhou sorrindo e disse: "god bless ya boy!" enfim, stevie entra no palco e inicia o show. não me lembro do set list, sei que rolou “i wish”, “superstition”, “signed, sealed, delievered”… mas, sobretudo, stevie no palco, stevie tocando timbales ⎯ perdoem a heresia! ⎯ muito melhor que tito puente, stevie tocando aquele fender rhodes cheio de dissonâncias e estranhezas…

ao final do segundo dia de show, saí do antigo metropolitam com a cabeça confusa, certamente jubilosa, mas evocativa, nostálgica… da mesma forma que senti a morte de joão nogueira como uma perda familiar, mesmo sem tê-lo conhecido, o show de stevie wonder, daquela forma distante, “teatral”, me trouxe uma sensação de irreparável vazio… na minha imaginação, ele deveria ter dito ao microfone: “essa vai pra você, bernardo, meu compadre!”… como um amigo chegado a quem não vemos há tempos, ele deveria ter perguntado pela minha família, e sobretudo, pelo meu avô, aquele verdadeiro fã de sua música… e, por fim, nos abraçaríamos, como fez um gilberto gil também extasiado com a presença daquele indivíduo iluminado…

quinta-feira, 21 de junho de 2007

revendo amigos: jean-luc godard...


godard tem a fama de ser um cineasta “cabeça” por conta de seu universo auto-referencial, seus cortes abruptos, suas seqüências “sem sentido”… pelos mesmos motivos, estimula declarações de amor, paixões fulminantes… quer dizer: caímos mais uma vez na questão do gosto, e daí pra frente tudo o que eu escrever será auto-defesa…

entretanto, há um detalhe nesse papo que me incomoda muito: tanto os que amam, quanto os que odeiam godard se referem sempre à dimensão intelectual de seus filmes. como se tudo o que se passasse ali dissesse respeito sempre à uma cabeça comprometida por debates teóricos os mais diversos, e que não conseguisse realizar mais nada senão filmes elucubrativos, altamente referentes à cultura e à história política européia. mas quem assiste de fato aos filmes de godard sabe que isso não é verdade.

mais que a dimensão intelectual, seus filmes valorizam uma certa dimensão da vida cotidiana. não a vida cotidiana no sentido ordinário, mas uma nuance do absurdo que permeia qualquer inflexão da linguagem. em todos os seus filmes essa questão é fundamental, tanto na composição do filme mesmo, como na representação da vida e na mise en scène. me parece entretanto que, com isso, ele não deseja discutir a linguagem, como boa parte da filosofia do século xx; ao contrário, godard toca, na linguagem, aquilo que ela tem de lúdico, sua dimensão do jogo, e portanto, trata-se de uma linguagem que margeia a “falta de sentido”, pois não presta somente a servir de ferramenta para enunciados cotidianos.

me parece que uma de suas pesquisas mais profundas reside na tentativa de fazer com que a palavra represente muito mais do que uma ferramenta comunicacional. em seus filmes, antes de unir, ela desune, desorganiza, embaralha os sentidos… seus personagens estão sempre perdidos, imersos numa ignorância quase absoluta… são todos crianças, todos infantilizados por uma relação edênica com a linguagem...

isso se pode verificar em les carabiniers, e suas reduções absurdas (como por exemplo, nos diálogos iniciais, em que os jovens são chamados para a guerra sob o pretexto de serem amigos do rei…); em pierrot le fou (sobretudo no suicídio final), em weekend o tempo inteiro (sobretudo, na cena impagável em que léaud conversa ao telefone e narra a briga com um casal cantando uma canção), nos filmes da década de 80, sobretudo em salve-se quem puder, a vida (o mal humor caricatural dos personagens), em forever mozart e elogio do amor, de forma mais sutil e sofisticada, misturada a diálogos quase realistas…

a linguagem instrumentalizada para fins comunicacionais é, para godard, a representação mais adequada do poder. afinal, o que deseja o poderoso senão simplesmente ser compreendido? nos seus filmes, erroneamente considerados difíceis, trata-se de uma experiência, para alguns, decepcionante; mas o que está sendo valorizado ali é justamente uma dimensão em que a linguagem já não comunica, mas simplesmente confunde… seus filmes buscam desarticular o discurso do poder através da desconstrução de sua ferramenta mais eficaz. contra essa dimensão meramente política do discurso, godard opõe a brincadeira da arte, o exercício metódico do deboche e do escárnio…

ora, então godard não é o cineasta cabeça, o cineasta intelectual, mas, sobretudo o cineasta da vida. ou alguém ainda acredita na eficácia do discurso racional, jurídico e científico? alguém ainda acredita que “é conversando que a gente se entende”? seus filmes não só confirmam essa desconfiança, como também oferecem uma experiência em que ela ultrapassa a crítica e acessa o inominável…

terça-feira, 19 de junho de 2007

playlist 19.06.07


he walked by night de alfred werker, tantinho da mangueira memória em verde e rosa, the science of sleep de michel gondry, a origem animal de deus de flávio de carvalho, torrents, miles davis, lou reed, pulp fiction de quentin tarantino, stevie wonder, evil dead de sam raimi, joão gilberto, les carabiniers de jean-luc godard, metallica, o homem sem conteúdo de giorgio agamben, children of men de alfonso cuarón, slayer, as tears goes by de wong kar-wai, sonny rollins, anthrax, alpha dog de nick cassavetes


em alusão direta ao meu post anterior, no qual busquei apontar uma dimensão psico-fisiológica do problema político, percebo em alpha dog, de nick cassavetes, uma crítica profunda da vida contemporânea. mas não a partir de seus “paradigmas”, como faz a grande maioria dos intelectuais, reportando a questão ao campo teórico das ciências e da filosofia. numa época em que a simples menção da expressão “classe social” estimula sentimentos anacrônicos, sectários, ou simplesmente “marxistas” ⎯ como que um xingamento em nada sofisticado ⎯, alpha dog espanta pela crueza com que expõe as vicissitudes e cacoetes da alta roda californiana.

reproduzindo uma série de acontecimentos ocorridos no interior deste circuito social delimitado ao extremo, e vinculando as condições materiais desses jovens aos seus valores e práticas, o filme indica que não só o termo “classe social” não está morto, como também sua redefinição envolve mais termos complexos do que a presunção midiática e o virtuosismo intelectual podem imaginar. e neste caso, se faz necessário não que eu vá diretamente ao que me admira no filme, mas, em primeiro lugar, delimite o problema.

trata-se da seguinte percepção, de fundo marxista, mas também maquiavélica, espinosana: as condições materiais da experiência determinam os valores, e não o contrário. está na introdução da ideologia alemã, quando marx critica o idealismo exacerbado da alemanha de seu tempo:

“nenhum destes filósofos se lembrou de perguntar qual seria a relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã, a relação entre a sua crítica e o seu próprio meio material. (…) as premissas de que partimos não constituem bases arbitrárias, nem dogmas; são antes bases reais de que só é possível abstrair no âmbito da imaginação. as nossas premissas são os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de existência, quer se trate daquelas que encontrou já elaboradas quando do seu aparecimento, quer das que ele próprio criou. estas bases são portanto verificáveis por vias puramente empíricas. (…) a primeira condição de toda a história humana é evidentemente a existência de seres humanos vivos.”

as possíveis acusações que pairam sobre a cabeça de marx, que lhe imputam um determinismo empobrecido, só mascaram o conteúdo profundo e verdadeiro do texto acima. não que as condições materiais delimitem valores e comportamentos idênticos para todos, embora isso também não seja de todo falso ⎯ basta atermo-nos por exemplo à questão do vestuário ou da “obrigação silenciosa” do matrimônio. de fato, não se trata de um determinismo ao qual nada escapa. não! marx faz coro com nietzsche, ao afirmar que “até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser.” da mesma forma, nietzsche critica a “fantasmagoria conceitual exangue e sem sol” dos alemães, em alusão direta à abstração excessiva que caracteriza sua filosofia. em ambos os casos, a crítica dirige-se ao falseamento da realidade efetiva e sua respectiva introjeção na vida dos “indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de existência.”

trata-se, portanto, de uma crítica à religião, mas também à “religiosidade” das idéias modernas, republicanas e científicas, ambas revestidas de critérios falsos em relação às bases reais da existência, bases essas que se relacionam com “condições naturais, geológicas, orográficas, hidrográficas, climáticas”, mas também com fatores nem sempre observados pela tradição filosófica, como por exemplo a alimentação, como observou nietzsche em ecce homo… assim, não é o livre-arbítrio ou a cientificidade os critérios da “verdade”, mas a produção de subjetividade, diretamente ligada às condições psico-fisiológicas e materiais.

na medida em que o mundo se encaminha para a formação de bolsões de riqueza e pobreza (talvez longe do maniqueísmo com que alfonso cuarón expõe sua interpretação do futuro em children of men), percebe-se que, por mais que essas combinações culturais produzam as mais diversas inflexões do espírito humano, ainda assim perdura o campo epistemológico reinvindicado por marx: são as condições materiais que determinam os valores, não o contrário.

assim, se o meio social abastado possui as condições adequadas para o desenvolvimento intelectual e para o gozo da vida, em contrapartida, ocorre também uma certa inaptidão para o olhar perspectivo. as mesmas condições que possibilitam o desenvolvimento individual, desencadeam a precarização da visão perspectiva, alçando a crítica a um grau de ignorância muito específico. este comportamento no meio intelectual e no meio político é corriqueiro: sem se aperceber que a priorização de seu ponto de vista, por mais rico e complexo que seja, pode obnubilar o extrato complexo das relações sociais, o indivíduo “de classe”, relativamente condicionado pelo suporte material e formação intelectual que o amparam, despreza outras perspectivas.

isso não ocorre necessariamente por falta de vontade ou má intenção, mas por conta de uma inobservância individual que recusa a priori o aporte externo. afinal, como escreveu nietzsche, “ouvimos mal a música estranha”, quer dizer, é uma questão de hábito; por outro lado, isso não nivela de forma absoluta os indivíduos da mesma classe social, embora a “ignorância perspectiva” possa ser observada nos mais diversos indivíduos. não há portanto um determinismo, mas um traço de personalidade da ordem do hábito e, portanto, da cultura.

pensando alpha dog sobre essas bases, percebe-se exatamente esta correlação entre abundância material vivenciada por aqueles jovens com a gratuidade de suas vidas, a estupidez de suas ações, a vanidade de sua visão de mundo… e, por favor, não se quer dizer que a riqueza material gera vanidade, mas, no contexto do filme, é exatamente isso que ocorre.

a câmera de nick cassavetes privilegia, na construção de seus planos, um recorte geográfico e material muito específico: los angeles, grandes mansões… entretanto, o que a câmera filma são “valores”, estes elementos aparentemente abstratos, aparentemente relativos, mas extremamente concretos do ponto de vista da existência. alpha dog disseca as formas de vida deste círculo social, através do contexto material que o envolve: tevês enormes reproduzindo games em alto e bom som, piscinas, carrões, etc. a única intromissão neste quadro aparentemente perfeito, ainda que também pasteurizada, também entregue a uma certa vanidade mercantil, é o momento em que surge na tevê um clipe mostrando rappers negros, que servem de modelo de comportamento para a "bandidagem" branca e protegida…

já em the science of sleep, segundo filme de michel gondry, trata-se justamente de uma apologia a esse sujeito “amolecido” por uma cultura política nivelada e niveladora, beneficiária de um colonialismo “distante”, ultra-organizada, que provê um grau de seguridade social tão amplo a ponto de formar indivíduos inaptos para lidar com, por exemplo, um mal emprego. se alpha dog traz uma crítica silenciosa à vanidade existencial das patricinhas e mauricinhos de bervely hills, the science of sleep ressalta a possibilidade de que, em meio ao nivelamento generalizado da sociedade de consumo, a diferença ainda pode ser cultivada. mas o que ocorre no filme de gondry é uma apologia do isolamento, da manutenção de uma postura passiva, enclausurada sob as “condições adequadas” perseguidas pelo estado de direito e por todos os indivíduos no planeta terra…

nietzsche foi um dos pensadores a quem esta situação mais afligiu. para ele, a condição tutelar do estado de direito, traria, mesmo após a realização da famigerada justiça social, uma situação cultural mediocrizada e nivelada, em que indivíduos presos a um grau determinado e estático de experimentação material, produziriam uma cultura também nivelada e, portanto, fraca e inexpressiva. quer dizer, para ele, a “classe média”, esse pathos que privilegia antes de tudo o zelo pela “segurança”, reproduziria simplesmente uma cultura da manutenção, sem espaço para a imprevisibilidade da ação que caracteriza a grande cultura.

gondry reproduz uma consciência que se arroga o direito à “diferença”, mas esquece de ressaltar que a diferença nessas condições simplesmente não possui espaço, porque o que permite que o personagem central não aceite o mal emprego que lhe oferecem não é sua suposta “genialidade”, mas uma situação social controlada, que ele ignora, mas da qual não abriria mão… a mesma vanidade é exposta em alpha dog, desta vez como uma necessidade de reconhecimento: os personagens não querem ser “diferentes”, ao contrário, querem gozar a vida sob as mesmíssimas condições em que nasceram e cresceram…

cabe então a pergunta: será que somente a miséria e a riqueza podem produzir uma cultura forte? digo isso porque, ao ouvir o disco de tantinho da magueira, memória em verde e rosa, penso: será que se o brasil fosse um país socialmente equânime, teríamos, por exemplo, o samba? os sambas que compõem esse disco foram realizados por compositores embora muito pobres, extremamente cuidadosos e sofisticados com sua arte. mas sejamos “realistas”: esta maestria não nasceu de uma educação formal, mas de uma vivência especificamente deslindada no caos urbano carioca, sob condições precárias. se retirássemos essas condições, será que obteríamos a mesma maestria, a mesma força poética que caracteriza o samba carioca? será que, suprimidas a miséria, a fome, estabelecidas as condições para uma vida desprovida de escassez material, conseguiríamos ainda produzir uma cultura, no sentido forte? por outro lado, a grande teoria, o grande cinema, o grande pensamento, foram desenvolvidos no cerne das classes mais abastadas. será que é possível estudar e produzir teoria no brasil sem as condições materiais adequadas para isso? penso que as discrepâncias de condições materiais constituem os elementos preponderantes, senão únicos, no processo de construção das idéias e da cultura. na minha opinião, o termo médio a que nos conduz a evolução histórica do estado de direito e do capitalismo, já produz uma cultura acrítica e, pior, sem força…

e ai, surge o texto de flavio de carvalho para trazer uma luz. ele afirma que a idéia de deus (e, portanto, quaisquer idealismos) nasce de relações complexas entre a percepção da necessidade fundamental do alimento e a sublimação desta necessidade. nasce portanto de aspectos fisiológicos não observados por aqueles que crêem na mera providência. primeiro critério: as condições psico-fisiológicas da fome. a ideologia, os valores, são postos em relação direta com a reprodução da realidade material. o que há de original e de poderoso na cultura não advém de nenhum elemento metafísico, mas da produção de subjetividade que tem no alimento sua fonte primeira… o texto de flavio de carvalho delimita o que poderíamos chamar “materialismo radical”, que, me parece, refere-se também à posicão intelectual de marx e nietzsche…

a dissecação das “formas de vida” e a formação de uma perspectiva “antropológica” no cerne das relações sociais urbanas vem se tornando pouco a pouco uma das neuroses do cinema contemporâneo. é porque a privacidade é algo extremamente burlado, mas ao mesmo tempo, sublimado (pois “ideal”) que os diretores exploram um registro da realidade que se afigura como ”materialidade”, quer dizer: não em “grandes acontecimentos”, como o assassinato em alpha dog. ao contrário, é na alcova, nos mínimos detalhes inauditos do cotidiano, nos delírios do personagem de the science of sleep, na vacuidade dos personagens de alpha dog que se desenrola a vida…