
he walked by night de alfred werker, tantinho da mangueira memória em verde e rosa, the science of sleep de michel gondry, a origem animal de deus de flávio de carvalho, torrents, miles davis, lou reed, pulp fiction de quentin tarantino, stevie wonder, evil dead de sam raimi, joão gilberto, les carabiniers de jean-luc godard, metallica, o homem sem conteúdo de giorgio agamben, children of men de alfonso cuarón, slayer, as tears goes by de wong kar-wai, sonny rollins, anthrax, alpha dog de nick cassavetes…em alusão direta ao meu post anterior, no qual busquei apontar uma dimensão psico-fisiológica do problema político, percebo em
alpha dog, de nick cassavetes, uma crítica profunda da vida contemporânea. mas não a partir de seus “paradigmas”, como faz a grande maioria dos intelectuais, reportando a questão ao campo teórico das ciências e da filosofia. numa época em que a simples menção da expressão “classe social” estimula sentimentos anacrônicos, sectários, ou simplesmente “marxistas” ⎯ como que um xingamento em nada sofisticado ⎯,
alpha dog espanta pela crueza com que expõe as vicissitudes e cacoetes da alta roda californiana.
reproduzindo uma série de acontecimentos ocorridos no interior deste circuito social delimitado ao extremo, e vinculando as condições materiais desses jovens aos seus valores e práticas, o filme indica que não só o termo “classe social” não está morto, como também sua redefinição envolve mais termos complexos do que a presunção midiática e o virtuosismo intelectual podem imaginar. e neste caso, se faz necessário não que eu vá diretamente ao que me admira no filme, mas, em primeiro lugar, delimite o problema.
trata-se da seguinte percepção, de fundo marxista, mas também maquiavélica, espinosana: as condições materiais da experiência determinam os valores, e não o contrário. está na introdução da ideologia alemã, quando marx critica o idealismo exacerbado da alemanha de seu tempo:
“nenhum destes filósofos se lembrou de perguntar qual seria a relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã, a relação entre a sua crítica e o seu próprio meio material. (…) as premissas de que partimos não constituem bases arbitrárias, nem dogmas; são antes bases reais de que só é possível abstrair no âmbito da imaginação. as nossas premissas são os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de existência, quer se trate daquelas que encontrou já elaboradas quando do seu aparecimento, quer das que ele próprio criou. estas bases são portanto verificáveis por vias puramente empíricas. (…) a primeira condição de toda a história humana é evidentemente a existência de seres humanos vivos.”
as possíveis acusações que pairam sobre a cabeça de marx, que lhe imputam um determinismo empobrecido, só mascaram o conteúdo profundo e verdadeiro do texto acima. não que as condições materiais delimitem valores e comportamentos idênticos para todos, embora isso também não seja de todo falso ⎯ basta atermo-nos por exemplo à questão do vestuário ou da “obrigação silenciosa” do matrimônio. de fato, não se trata de um determinismo ao qual nada escapa. não! marx faz coro com nietzsche, ao afirmar que “até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser.” da mesma forma, nietzsche critica a “fantasmagoria conceitual exangue e sem sol” dos alemães, em alusão direta à abstração excessiva que caracteriza sua filosofia. em ambos os casos, a crítica dirige-se ao falseamento da realidade efetiva e sua respectiva introjeção na vida dos “indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de existência.”
trata-se, portanto, de uma crítica à religião, mas também à “religiosidade” das idéias modernas, republicanas e científicas, ambas revestidas de critérios falsos em relação às bases reais da existência, bases essas que se relacionam com “condições naturais, geológicas, orográficas, hidrográficas, climáticas”, mas também com fatores nem sempre observados pela tradição filosófica, como por exemplo a alimentação, como observou nietzsche em
ecce homo… assim, não é o livre-arbítrio ou a cientificidade os critérios da “verdade”, mas a produção de subjetividade, diretamente ligada às condições psico-fisiológicas e materiais.
na medida em que o mundo se encaminha para a formação de bolsões de riqueza e pobreza (talvez longe do maniqueísmo com que alfonso cuarón expõe sua interpretação do futuro em
children of men), percebe-se que, por mais que essas combinações culturais produzam as mais diversas inflexões do espírito humano, ainda assim perdura o campo epistemológico reinvindicado por marx: são as condições materiais que determinam os valores, não o contrário.
assim, se o meio social abastado possui as condições adequadas para o desenvolvimento intelectual e para o gozo da vida, em contrapartida, ocorre também uma certa inaptidão para o olhar perspectivo. as mesmas condições que possibilitam o desenvolvimento individual, desencadeam a precarização da visão perspectiva, alçando a crítica a um grau de ignorância muito específico. este comportamento no meio intelectual e no meio político é corriqueiro: sem se aperceber que a priorização de seu ponto de vista, por mais rico e complexo que seja, pode obnubilar o extrato complexo das relações sociais, o indivíduo “de classe”, relativamente condicionado pelo suporte material e formação intelectual que o amparam, despreza outras perspectivas.
isso não ocorre necessariamente por falta de vontade ou má intenção, mas por conta de uma inobservância individual que recusa a priori o aporte externo. afinal, como escreveu nietzsche, “ouvimos mal a música estranha”, quer dizer, é uma questão de hábito; por outro lado, isso não nivela de forma absoluta os indivíduos da mesma classe social, embora a “ignorância perspectiva” possa ser observada nos mais diversos indivíduos. não há portanto um determinismo, mas um traço de personalidade da ordem do hábito e, portanto, da cultura.
pensando
alpha dog sobre essas bases, percebe-se exatamente esta correlação entre abundância material vivenciada por aqueles jovens com a gratuidade de suas vidas, a estupidez de suas ações, a vanidade de sua visão de mundo… e, por favor, não se quer dizer que a riqueza material gera vanidade, mas, no contexto do filme, é exatamente isso que ocorre.
a câmera de nick cassavetes privilegia, na construção de seus planos, um recorte geográfico e material muito específico: los angeles, grandes mansões… entretanto, o que a câmera filma são “valores”, estes elementos aparentemente abstratos, aparentemente relativos, mas extremamente concretos do ponto de vista da existência.
alpha dog disseca as formas de vida deste círculo social, através do contexto material que o envolve: tevês enormes reproduzindo games em alto e bom som, piscinas, carrões, etc. a única intromissão neste quadro aparentemente perfeito, ainda que também pasteurizada, também entregue a uma certa vanidade mercantil, é o momento em que surge na tevê um clipe mostrando rappers negros, que servem de modelo de comportamento para a "bandidagem" branca e protegida…
já em
the science of sleep, segundo filme de michel gondry, trata-se justamente de uma apologia a esse sujeito “amolecido” por uma cultura política nivelada e niveladora, beneficiária de um colonialismo “distante”, ultra-organizada, que provê um grau de seguridade social tão amplo a ponto de formar indivíduos inaptos para lidar com, por exemplo, um mal emprego. se alpha dog traz uma crítica silenciosa à vanidade existencial das patricinhas e mauricinhos de bervely hills,
the science of sleep ressalta a possibilidade de que, em meio ao nivelamento generalizado da sociedade de consumo, a diferença ainda pode ser cultivada. mas o que ocorre no filme de gondry é uma apologia do isolamento, da manutenção de uma postura passiva, enclausurada sob as “condições adequadas” perseguidas pelo estado de direito e por todos os indivíduos no planeta terra…
nietzsche foi um dos pensadores a quem esta situação mais afligiu. para ele, a condição tutelar do estado de direito, traria, mesmo após a realização da famigerada justiça social, uma situação cultural mediocrizada e nivelada, em que indivíduos presos a um grau determinado e estático de experimentação material, produziriam uma cultura também nivelada e, portanto, fraca e inexpressiva. quer dizer, para ele, a “classe média”, esse
pathos que privilegia antes de tudo o zelo pela “segurança”, reproduziria simplesmente uma cultura da manutenção, sem espaço para a imprevisibilidade da ação que caracteriza a grande cultura.
gondry reproduz uma consciência que se arroga o direito à “diferença”, mas esquece de ressaltar que a diferença nessas condições simplesmente não possui espaço, porque o que permite que o personagem central não aceite o mal emprego que lhe oferecem não é sua suposta “genialidade”, mas uma situação social controlada, que ele ignora, mas da qual não abriria mão… a mesma vanidade é exposta em
alpha dog, desta vez como uma necessidade de reconhecimento: os personagens não querem ser “diferentes”, ao contrário, querem gozar a vida sob as mesmíssimas condições em que nasceram e cresceram…
cabe então a pergunta: será que somente a miséria e a riqueza podem produzir uma cultura forte? digo isso porque, ao ouvir o disco de tantinho da magueira,
memória em verde e rosa, penso: será que se o brasil fosse um país socialmente equânime, teríamos, por exemplo, o samba? os sambas que compõem esse disco foram realizados por compositores embora muito pobres, extremamente cuidadosos e sofisticados com sua arte. mas sejamos “realistas”: esta maestria não nasceu de uma educação formal, mas de uma vivência especificamente deslindada no caos urbano carioca, sob condições precárias. se retirássemos essas condições, será que obteríamos a mesma maestria, a mesma força poética que caracteriza o samba carioca? será que, suprimidas a miséria, a fome, estabelecidas as condições para uma vida desprovida de escassez material, conseguiríamos ainda produzir uma cultura, no sentido forte? por outro lado, a grande teoria, o grande cinema, o grande pensamento, foram desenvolvidos no cerne das classes mais abastadas. será que é possível estudar e produzir teoria no brasil sem as condições materiais adequadas para isso? penso que as discrepâncias de condições materiais constituem os elementos preponderantes, senão únicos, no processo de construção das idéias e da cultura. na minha opinião, o termo médio a que nos conduz a evolução histórica do estado de direito e do capitalismo, já produz uma cultura acrítica e, pior, sem força…
e ai, surge o texto de flavio de carvalho para trazer uma luz. ele afirma que a idéia de deus (e, portanto, quaisquer idealismos) nasce de relações complexas entre a percepção da necessidade fundamental do alimento e a sublimação desta necessidade. nasce portanto de aspectos fisiológicos não observados por aqueles que crêem na mera providência. primeiro critério: as condições psico-fisiológicas da fome. a ideologia, os valores, são postos em relação direta com a reprodução da realidade material. o que há de original e de poderoso na cultura não advém de nenhum elemento metafísico, mas da produção de subjetividade que tem no alimento sua fonte primeira… o texto de flavio de carvalho delimita o que poderíamos chamar “materialismo radical”, que, me parece, refere-se também à posicão intelectual de marx e nietzsche…
a dissecação das “formas de vida” e a formação de uma perspectiva “antropológica” no cerne das relações sociais urbanas vem se tornando pouco a pouco uma das neuroses do cinema contemporâneo. é porque a privacidade é algo extremamente burlado, mas ao mesmo tempo, sublimado (pois “ideal”) que os diretores exploram um registro da realidade que se afigura como ”materialidade”, quer dizer: não em “grandes acontecimentos”, como o assassinato em
alpha dog. ao contrário, é na alcova, nos mínimos detalhes inauditos do cotidiano, nos delírios do personagem de
the science of sleep, na vacuidade dos personagens de
alpha dog que se desenrola a vida…