sexta-feira, 16 de setembro de 2011

(crítica – disco) The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This World (2011; History Always Favours the Winners, Reino Unido)

 
Com a intenção de sondar os mecanismos da memória, James Leyland Kirby (ou The Caretaker) desenvolveu um trabalho de exploração da sonoridade peculiar dos discos de 78rpm. Para tanto, reuniu todo tipo de ruído e aproveitou a diferença entre as técnicas de gravação e prensagem, que influem sobre a sonoridade da reprodução. Percepção, memória, neurociência e, é claro, arte, convergiram de forma rara, por obra de um procedimento relativamente simples: a valorização da “materialidade” nas reproduções fonográficas.

Kirby retirou este conceito da festa-fantasma no filme O Iluminado, no qual o personagem central, encarnado por Jack Nicholson, trava um diálogo com um garçom imaginário. A música ressoa por todo o espaço, criando uma ambiência abafada e aterradora, adequada para embalar os delírios tenebrosos do personagem. O travo psicológico e extremamente evocativo que sobressai durante a cena, foi criado e reforçado pela música disforme que tomou o ambiente. Anotação mental para um tratado de ecologia sonora: o meio continua sendo a mensagem. Para Kirby interessa na música o que não é música, mas algo entre sua representação expressa no imaginário comum, e o universo de aspectos técnicos que tornam possível a sua emissão e, portanto, sua existência.

A Stairway to the Stars (2001) ou o tour de force Theoretically Pure Anterograde Amnesia (2005) já traziam este conceito volatizilizado pela incursão profunda na ambient e no aproveitamento de ressonâncias soturnas e vaporosas. Mas vale ressaltar a faixa “Cloudy, Since You Went Away”, uma composição que utilizava como estratégia o sampler contínuo e “preparado”. A ideia foi brilhantemente repetida em Persistent Repetition of Phrases, com acréscimos substanciais, tanto no tratamento quase percussivo dado aos estalidos, como também no trabalho lapidar com as repetições.

Com An Empty Bliss Beyond This World, parte desta louca empreitada se torna mais evidente e se amplia. A manipulação dos códigos da recepção estética ou da “memória” do gosto, corresponde a conduzir o ouvinte a uma posição incômoda em diversos aspectos. Primeiro, evidenciando que a sonoridade é um fenômeno maior do que a “música” – pois conforme se estabelecem novos dispositivos de gravação e reprodução, a percepção desenvolve tipos específicos de reação, que não se definem somente a partir de uma prática cultural totalmente fechada. Segundo, há o aspecto “técnico”:  enquanto a grande indústria e o gosto médio perseguem a lógica da alta-fidelidade, Kirby traz à baila todo o arsenal de zumbidos e acidentes sonoros que, sob sua batuta, adquirem alto grau de expressão. E, por fim, o aspecto “crítico”: as crenças e convicções (inclusive o “gosto”) se assentam nas informações que já foram decodificadas, ao passo que a música de Kirby desperta o interesse por aspectos que nem sempre levamos em consideração.

Basicamente o conceito não varia (talvez em “Pared back to the minimal”, por seu talho mais econômico). Mas a cada faixa, uma sonoridade e um procedimento diferentes: recorte jazzístico na síncope do piano de “Tiny gradiations of loss”, ecos sutis em “Camaraderie at arms length”, jogos rítmicos com o estéreo em “Bedded deep in long term memory”, loops saturados em “A relationship with the sublime”. As linhas melódicas comoventes de faixas como “All you are going to want to do is get back there” e “Moments of sufficient lucidity” compartilham o mesmo espaço sonoro com uma textura estranha e delicada, composta por ruídos de estática. Em muitas das faixas o som fica ligeiramente estridente por causa da sujeira impressa no disco, soando como verdadeiros borrões sonoros. Esse efeito testemunha e sublinha o aspecto material da reprodução (duplamente evocativo, tanto pela melodia nostálgica, quanto pela representação sonora da deterioração material do objeto: o problema da “aura” se desdobra em muitos outros…).

O resultado conduz àquele estado de espírito entre a melancolia e o maravilhamento, que no fim das contas resulta em uma experiência particular. Lamento profundamente não reconhecer as fontes utilizadas, mas essa sensação traz um elemento a mais à audição. A sensação de nostalgia, isto é, de sentir-se pertencente a algo que já faz parte do passado, é ampliada. Se uma obra é capaz de se apresentar com tamanha abertura à interpretação, isto só indica que com An Empty…, confirma-se o êxito da empreitada de Kirby em busca dessa arte sonora altamente rebuscada, desafiante, filosófica e, sobretudo, poética.

Bernardo Oliveira

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